domingo, 8 de julho de 2007
Delta Goodrem: Mistaken Identity
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Maria de Medeiros: A Little More Blue
SBSR 2007
segunda-feira, 2 de julho de 2007
Lídia Jorge: Marido e Outros Contos
8 AQUECIMENTOS
Veredicto Final_ 18/20
Jewel: Goodbye Alice In Wonderland
domingo, 1 de julho de 2007
Vanessa Carlton: Harmonium
Enfim, "Harmonium" é um álbum pop como por vezes desejaríamos que muitos fossem. Vanessa Carlton está de parabéns. Graças a musiciens como ela, ainda conseguimos acreditar que a pop se pode salvar das garras de Britney Spears ou da Rhianna...
Ute Lemper: Punishing Kiss
Neste primeiro álbum em que interpreta autores contemporâneos, Ute Lemper não podia, afinal, ter estado mais irrepreensível: tem a capacidade de nos fazer esquecer a proveniência das canções, e se o seu nome constasse nos créditos como compositora, seria fácil acreditar. É difícil ouvir Nick Cave neste "Little Water Song", como é difícil ouvir Elvis Costello neste "Punishing Kiss".
Se há maus momentos neste álbum, eles estão muito bem camuflados, não damos por eles. Mesmo a última faixa, "Scope J", que poderia pecar por ser demasiado calma para ser a última, não soa mal, nem parece deslocada.
Percebe-se, no final, porque é tão justo que Ute Lemper seja uma diva por excelênica. Primeiro porque, não fosse ela, e a tradição do cabaret alemão era já uma memória, e segundo, porque quem faz álbuns destes, tem que ser reconhecido, senão não há justiça no universo.
videos para American Doll Posse de Tori Amos
Bouncing Off Clouds, primeiro single na Europa, canção de Clyde, aqui e aqui e aqui.
Big Wheel, primeiro single americano, canção da própria Tori, aqui e aqui e aqui.
(parece-me que o primeiro em cada uma é o oficial, e os outros são resultados de concursos lançados pela Epic)
Ana Moura: Para Além da Saudade
Ao terceiro álbum, Ana Moura cotinua a confirmar o que afirmava em "Guarda-me a Vida Na Mão" (2002) e "Aconteceu" (2003): que o seu nome é digno de estar entre as fadistas que realmente o são, isto numa fase em que toda a gente quer cantar fado. Não é o caso de Ana Moura. Veio para ficar, o fado está-lhe na alma, e quando assim é, vê-se.
Após uma única audição de "Para Além da Saudade", torna-se fácil perder todas as dúvidas em relação ás razões que levaram Ana Moura aos palcos dos EUA ou da Holanda, entre tantas outras. Um dos melhores discos de fado de 2007, senão de sempre.
Inês Pedrosa: Fica Comigo Esta Noite
O primeiro livro de contos assinado por Inês Pedrosa tem o belo título de "Fica Comigo Esta Noite" e é uma colectânea de doze contos escritos entre 1993 e 2002, e editados nas mais variadas publicações, desde a excelente revista "Egoísta" dos Casinos do Estoril e da Póvoa, ao "Europaexpress".
O primeiro chama-se "Só Sexo", e fala de uma relação cujo teor varia de acordo com a visão de cada uma das pessoas que a conhece, e acaba por ser um relato extraordinário, com passagens pela revolução do 25 de Abril e pela doença do cancro.
Depois, deambulamos por diferentes universos que, de várias poerspectivas, vão abordando questões relacionadas com o íntimo das mulheres e o íntimo dos homens, com a morte, a vida, o amor, a traição, a perda, a fantasia, a desilusão, o desamor. Relatos alegres e tristes, uns ainda exaltados, outros resignados, cada um com a sua voz, mas todos claramente pela mão de Inês Pedrosa.
De repente, há á nossa frente um universo cheio de vozes, por vezes rindo, por vezes chorando, mas que nos falam como acontece no conto "Conversa de Café", publicado sob o título de "Café F" na "Egoísta", em que uma mulher encontra um desconhecido no café é diz-lhe
"O senhor importa-se que eu lhe conte a história da minha vida?"
e assim nos falam das suas desgraças, e das suas alegrias. Há quem tenha assassinado o marido, há quem tenha perdido a filha, há quem tenha perdido a pátria, há quem veja a família escapar-se-lhe entre os dedos, há quem esteja a morrer, há quem não queira relações sérias, ou seja, há existências e crises existenciais, há pessoas, pessoas como nós.
E é, e sempre foi essa a melhor razão para ler Inês Pedrosa, o facto da sua escrita se tornar mais visceral, mais humana, á medida que as histórias avançam, chegando a uma fase em que respiramos o que escreve.
Em "Fica Comigo Esta Noite", parece-me que, ainda que todos os contos sejam muito bons, há quatro que se destacam por serem ainda melhores que os outros. São eles, mais ou menos por esta ordem: "Europa Plano Nocturno", "Só Sexo", "Todo o Amor" e "A Cabeleireira".
Um livro que vale a pena ler, e reler, enquanto se aguarda pela chegada do próximo romance.
Veredicto Final_ 18/20
sábado, 30 de junho de 2007
Amy Winehouse: Back To Black
Veredicto Final_ 18/20
Placebo: Creamfields Lisboa 2007
Eu gostei daqueles cinquenta e cinco minutos em que os Placebo estiveram em cima do palco. Não vou dizer que fiquei muito feliz por o Brian ter perdido a voz... "Coisas que acontecem" pensei eu. Como disse, não fiquei radiante, mas, primeiro que tudo, cinquenta e cinco minutos é melhor do que nenhum, depois, o Brian não teve culpa, deve ter sido muito frustrante para ele, e eu próprio estava com frio, e terceiro, a parte que tocaram tocaram muito bem.
Quanto ao concerto em si, ele passou essencialmente pelo sexto álbum, "Meds", com "Infra Red", um delicioso "Drag", o fenomenal "Because I Want You To", "One Of a Kind", e, claro, "Song To Say Goodbye", além da versão em piano do tema-título.
Claro que o concerto não aconteceria sem retornos ao passado, e eles marcaram-se, claro. Passou-se por "Bionic", do primeiro e homónimo álbum, o obrigatório "Every You and Every Me" de "Without You I´m Nothing", o fortíssimo "Special K" de "Black Market Music" e ainda "Special Needs", "Sleeping With Ghosts (Soulmates Never Die)" e, a terminar, my personal favourite, "The Bitter End", num final que, infelizmente, foi mesmo bitter.
Entretanto, passei pela net e estive a ler comentários ao concerto, muito por alto, sem grande atenção, mas, no geral, toda a gente falava como se o Brian tivesse feito de propósito para ficar sem voz, ou como se fosse uma coisa que se resolvia com um rebuçado para a tosse, o que é falso. Em apenas 55 minutos, eles conseguiram ultrapassar em qualidade a hora e três quartos do ano passado no SBSR, uma vez que um ano de digressão os habituou ás canções, que aparecem transmutadas e melhoradas.
Lamentei muito quando descobri que para os encores estavam prontos "20 Years" e "Taste In Men", mas, principalmente, por "Running Up That Hill", de Kate Bush, cuja versão dos Placebo é comovente.
Enfim, c´est la vie. Terá que ficar para a próxima.
Todd Haynes: Velvet Goldmine
A certa altura, em "Velvet Goldmine", Jonathan Rys-Meyers, no papel de Brian Slade, diz a um jornalista
"_O rock é uma prostituta. Tem que parecer vamp e produzida."
e temos aqui a explicação das quase duas horas do filme de Todd Haynes, que estreou em Cannes em 1998.
Oscar Wilde é aqui apontado como o progenitor de todo o estilo que se viria a chamar glam rock. Jack Fairy, o primeiro personagem que encontramos, ainda criança, encontra uma joia que pertencera ao escritor gay, e, a partir dessa joia, cria todo o seu estilo, andrógino e sonhador. Como Toni Collette, perfeita no papel de Mandy Slade, explica mais tarde:
"_Todos roubavam do Jack."
Tudo começa quando em 1974, Brian Slade, o rei do glam rock, forja o seu próprio abatimento em palco. A farsa é descoberta, e a carreira e a vida de Slade começa a declinar, até não ter, aparentemente, retorno.
Dez anos depois, Arthur Struart (Christian Bale) é pago para fazer uma reportagem com o título "O Que Aconteceu a Brian Slade", porque estava presente no concerto que pôs fim ao artista.
O Arthur que encontramos é uma criatura melancólica e pouco comunicativa, chegando a ser inerte, pelo que se percebe porque associa a sua adolescência a outra pessoa qualquer.
Fala primeiro com Cecil (Michael Feast), o primeiro manager de Slade, que o descobriu quando tocava no bar da mulher, Mandy Slade (Toni Collette), e que o conduziu nos primeiros e conturbados tempos da sua carreira.
As explicações de Cecil terminam quando Jerry Divine (Eddie Izzard) descobre Slade e o transforma numa estrela.
É pela voz de Mandy quye ouvimos a vida da estrela de Brian Slade (Rhys-Meyers), dono de uma voz interessante, de um talento peculiar, de um estilo libertino, bissexual, e polémico cada vez que abre a boca.
A sua maior influencia seria o músico Curt Wild (Ewan McGregor), gay, (Aparentemente.) esquizofrénico e viciado em vários tipos de droga. É também por ele que se apaixonará, quando o conhece pessoalmente.
Com os relatos destas pessoas, Arthur acabará por descobrir mesmo o que aconteceu a Brian Slade, ainda que se perceba que essa é uma questão mais pessoal do que profissional, na medida em que a influencia de Slade e Wild na vida do jornalista foi mais do que seria de esperar.
A história, apesar de ser contada cronológicamente, parece dar várias reviravoltas, sem se tornar confusa. O filme é bom, mas é pouco claro se a crónica do glam rock se faz através da música ou através da estética.
São notórias certas referências que, ainda que coerentes, seria preferível não estarem tão expostas: Curt Wild é uma personalidade que relembra Iggy Pop, visulamente, Kurt Cobain, e o nome próprio idem aspas- Kurt, Curt... Brian Slade- Brian Molko, e até fisicamente são parecidos, ainda que Slade contenha ainda as referências da praxe a Bowie e Lou Reed.
Os actores são, ainda assim, a melhor parte do filme, sendo de Toni Collette a melhor interpretação, não desfazendo a de Christian Bale, com particular á-vontade para papéis mais melancólicos, Rhys-Meyes que surpreende por encaixar tão bem em Slade, Ewan McGregor que, aparte de todas as mudanças visuais, consegue fazer esquecer as referências que carrega em si.
E não podia deixar de realçar a participação de Brian Molko, dos Placebo, num papel curtinho, mas cómico. Muito bem.
Veredicto final_ 16/20
Tori Amos: American Doll Posse
Como é que no décimo primeiro álbum Tori conseguirá manter a fasquia de qualidade que ela mesma colocou com "American Doll Posse", não sei. Mas acredito dela. Depois disto...
Da esquerda para a direita, Santa, Clyde, Isabel, Tori e Pip
Veredicto Final_ 20/20
domingo, 24 de junho de 2007
Katia Guerreiro: Tudo Ou Nada
CANTO DA FANTASIA
Woody Allen: Match Point
"Match Point" parece não contar, á primeira vista, com uma história inédita, mas é os contornos que Allen lhe desenha que tornam o filme numa referência obrigatória na sua filmografia.
Quanto aos actores, eles estão, claro, muito bem. Jonathan Rys-Meyers acaba por, com ou sem intenção, lembrar o seu próprio papel em "Velvet Goldmine", principalmente nas primeiras sequências em que o vemos. Consegue, de resto, uma excelente performance. Johansson, apesar de não ter uma má interpretação, não deixa de ter a seu cargo um papel previsível, que parece ter sido feito para ela, mais do que parece ter sido ela a adaptar-se a ele. Emily Mortimer é também impressionante, e foi claramente escolhida a dedo para o papel de Chloe: o seu ar frágil e suspectível vai perfeitamente de encontro á personagem que encarna.
sábado, 9 de junho de 2007
Lídia Jorge: Combateremos a Sombra
A genialidade de Lídia Jorge começa logo aqui: como contar uma história usando as personalidades de quatro pessoas tão heterogenias? A escritora algarvia, de 60 anos, sabe, e muito bem. Cada um interfere e é referido no momento certo, de maneira que a história se desenvolve sem o recurso a lugares-comuns e aos habituais truques para criar suspense no leitor.
E se se fala em brilhante, há que referir também a maneira como, em particular pela presença de Maria London Loureiro, o protagonismo gradualmente deixa a psicanálise e passa para o esquema de tráfico humano e de droga que Osvaldo descortina: o professor Campos que encontramos no início, completamente absorvido pelos delírios dos seus pacientes e sem tempo para si mesmo, não é o mesmo que encontramos já nos últimos capítulos, que mal tem tempo para a psicanálise, de tanto querer salvar o Mundo, de tanto querer combater a sombra…
Por atender certos pacientes, sem lhes cobrar (Os “miserabilus”.), Osvaldo Campos acaba por ter, deitados no seu divã, os personagens-tipo da sociedade actual portuguesa, e, ainda por cima, entregando-lhe tudo, até o subconsciente. O Eça não faria melhor. Mas mais que expor a sociedade á psicanálise, Lídia Jorge deixa Osvaldo Campos em frente a um esquema de tráfico que passa pelo Prédio Goldoni, onde o psicanalista tem o seu consultório. É através deste esquema que os personagens se entrelaçam como um novelo, e que a escritora retrata aqueles que são dois dos maiores podres desta sociedade em que vivemos: a inércia e o comodismo.
“Não suportamos enfrentar a cara do culpado” diz Lídia Jorge, em entrevista ao Ípsilon. Não, não suportamos, e este livro mostra-nos isso, e sem nos deixar espaço para tentar negar ou ignorar que assim é. Todos os dias, andamos na rua, e cruzamo-nos com o Arquitecto London Loureiro, com José Maria Adolfo, e com Junô d´Almeida, vemo-los e sabemos exactamente o que fazem, e, no entanto, não suportamos dizer que são culpados. Nisto, esquecemo-nos que, ao negarmos a existência de um culpado, somos nós mesmos culpados, de ignorar, de não querer saber. Deixamos que a consciência seja apenas uma visita da noite (Como Maria London Loureiro era a visita da noite do seu psicanalista.) e não pensamos com ela durante o dia.
Posto isto, é muito grave, muito perigoso, que este romance seja realmente realista, mas é. É realista, uma crónica dos nossos dias, uma metáfora fenomenal, e, indubitavelmente, o melhor romance de Lídia Jorge.
Veredicto Final: 20/20
Arcade Fire: Neon Bible
Serve de epígrafe ao romance “O Homem Duplicado” de José Saramago uma frase do “Livro dos Contrários” que diz que “O caos é uma ordem por decifrar”. E não, não me enganei. Este início pertence a um texto sobre o segundo LP dos canadianos Árcade Fire.
Há quatro anos atrás, os nomes de Win Butler ou de Régine Chassagne não diziam nada a ninguém, mas hoje, eles são líderes de uma das bandas mais importantes da cena musical contemporânea, não só pela indiscutível qualidade da sua música, como pelo burburinho que se gerou á volta do septeto.
O álbum “Funeral” (2004), em dez canções, conseguiu fazer correr oceanos de tinta pela imprensa da especialidade, e moveu um sem-número de fãs.
Eis que, em 2007, se dá o aguardado regresso. Chama-se “Neon Bible”. Ao ouvir, sabemos que é Árcade Fire, sabemos que é bom, que é muito bom, sabemos que a pior música de “Néon Bible” consegue ser melhor que a melhor música de muita gente, mas, ao mesmo tempo, sabemos, sem equívoco, que alguma coisa mudou, e que não foi para melhor.
Aquilo que fazia de “Funeral” indefinível, a sonoridade variada, solta, libertina, todo aquele caos, perdeu-se. É triste e cortante, mas é assim mesmo. “Néon Bible” é a decifração do caos de “Funeral”, e isso não é bom, porque, em certos momentos, por exemplo na faixa que dá nome ao álbum, ficamos com a noção de que os Árcade Fire estão perto de se tornar catalogáveis.
Como objecto individual, este segundo álbum não tem quase nada de negativo. Com a excepção de algumas canções mais previsíveis (“Néon Bible”, “The Well and the Lighthouse”.), o som é maximalista, grandioso (“Intervention”.), enérgico (“No Cars Go”.), fluido (“Windowsill”.) e, sem dúvida, agradável. É, por vezes, demasiado composto, não há muitos solos, e pouquíssimas mudanças repentinas de ritmo (Como víamos acontecer em “Crown Of Love”, por exemplo.). Win Butler cai também no erro de variar menos a tonalidade em que canta.
As comparações com o predecessor são inevitáveis, é a natureza humana: sente-se a falta do caos, da rebelião. Agora, tem-se um caos decifrado, que ainda não é ordem, mas está mais perto do que seria desejável. No entanto, não deixa (Mesmo.) de ter grandes canções, que nos rasgam alguma coisa lá dentro: como ficar indiferente a “My Body Is a Cage”, a “No Cars Go” ou a “Intervention”?
Veredicto final: 19/20
Annie Lennox: Bare
“Bare” é a prova disso: lançado em 2003, ao longo de quatro anos, foi-lhe dada pouca importância. E em 4 anos, chegámos ao cúmulo de o Robbie Williams e os Da Weasel serem capa do Blitz, e nem uma palavra sobre Annie Lennox. Mas esqueçamos as injustiças da indústria musical, e passemos ao álbum em concreto: não se trata de um álbum feito ao acaso, longe disso. Bem pelo contrário: a evidente ausência de arestas mal limadas, e o perfeccionismo técnico de cada faixa confirma aquilo que a própria Annie escreve na contracapa do álbum, “I am not a young artist in their early twenties. I am a mature woman…” e eu acrescentaria “mature musicien”. Autora das onze canções, Lennox consegue com elas as suas melhores composições: além das letras escritas com mestria, boas não só por serem claramente intimistas, como também por estarem bem feitas, formalmente; também nas músicas Annie Lennox atinge em pleno uma característica que procurava desde “Medusa”: mesclar a sonoridade dos 80´s com métodos de produção mais actuais. E se, por um lado, os arranjos nos soam perfeitamente a 2003, os ritmos, muitas vezes, levam-nos a 83(+-). “A Thousand Beautiful Things”, “Oh God (Prayer)” ou “Loneliness” são exemplos claros da sonoridade dos anos 90 a impor-se, ao passo que outras como “Honestly”, “Wonderful” ou “Bitter Pill” vivem mais no passado. Nada contra. Bem pelo contrário.
É, enfim, um regresso em grande, que não é por ter sido ignorado que é menos bom. Um destaque também para a capa, com uma foto da autoria de Allan Martin: um grafismo perfeito. Equilíbrio!!!
Veredicto Final: 17/20
António Lobo Antunes: Ontem Não Te Vi Em Babilónia
28 anos depois (Visto eu ter gostado do filme “28 Dias Depois”.), com todas as inevitáveis (E ainda bem.) evoluções, a escrita de António Lobo Antunes é uma das mais importantes e apreciadas quer no contexto da literatura portuguesa, quer no contexto da literatura mundial.
“Ontem Não Te Vi Em Babilónia” é o romance mais recente do autor. Nas entrevistas, Lobo Antunes afirma não querer contar histórias, mas sim vidas, e foi o que fez, no seu 18º romance: ele conta as vidas destas pessoas, e entrelaça essas vidas, mas sem criar um enredo, colocando-as a deambular por uma terra sem dono.
Uma noite, estas pessoas não adormecem, têm insónias. Deitadas na cama, revisitam o seu passado, relatam-no, comentam-no, descobrem-no e por vezes, inventam-no. Nem todos os personagens falam o mesmo número de vezes, havendo quatro que se destacam, e essas quatro têm em comum o facto de terem sido testemunhas do suicídio de uma rapariga, que se enforcou numa macieira.
São encontros e desencontros, mas há sempre uma tremenda melancolia, em cada linha, em cada frase que se repete como um eco (Característica muito lobo-antuniana.), há o sofrimento de quatro pessoas vítimas de si mesmas e das suas escolhas. Todas têm um segredo. E vão revelando o seu segredo, sem pressa, aos poucos.
A força do livro é impressionante. É honesto e realista, chegando por vezes a ser agressivo ou a atingir quem lê (O exemplo de uma das personagens que acusa quem lê de ir esquecer-se dela quando terminar a leitura do livro.), revelando-se, no fim, um texto que ultrapassa as potencialidades reais que tem: aquilo que o livro é, na realidade, não oferece muitas possibilidades de este ser um romance assinalavelmente bom, nem sequer no contexto da obra do seu autor; mas a verdade é que é tão bem conduzido, e de uma forma tão pouco enganadora, que acaba por contornar essa condenação prévia.
Ao fim de 479 páginas (Algumas a menos, ainda assim, não seriam fatais.), Lobo Antunes afirma que o que escreve pode ler-se no escuro. E pode. Infiltra-se e morde de tal forma o leitor, que pode ser lido no escuro, talvez seja melhor que nos morda no escuro.
“Ontem Não Te Vi Em Babilónia” é obviamente incapaz de ultrapassar a grandiosidade do magma de romances como “Eu Hei-de Amar Uma Pedra” ou “O Manual dos Inquisidores”, mas é igualmente óbvio que é um dos melhores livros do ano.
Veredicto final: 18/20






























