Veredicto Final_ 18/20
sábado, 30 de junho de 2007
Amy Winehouse: Back To Black
Veredicto Final_ 18/20
Placebo: Creamfields Lisboa 2007
Eu gostei daqueles cinquenta e cinco minutos em que os Placebo estiveram em cima do palco. Não vou dizer que fiquei muito feliz por o Brian ter perdido a voz... "Coisas que acontecem" pensei eu. Como disse, não fiquei radiante, mas, primeiro que tudo, cinquenta e cinco minutos é melhor do que nenhum, depois, o Brian não teve culpa, deve ter sido muito frustrante para ele, e eu próprio estava com frio, e terceiro, a parte que tocaram tocaram muito bem.
Quanto ao concerto em si, ele passou essencialmente pelo sexto álbum, "Meds", com "Infra Red", um delicioso "Drag", o fenomenal "Because I Want You To", "One Of a Kind", e, claro, "Song To Say Goodbye", além da versão em piano do tema-título.
Claro que o concerto não aconteceria sem retornos ao passado, e eles marcaram-se, claro. Passou-se por "Bionic", do primeiro e homónimo álbum, o obrigatório "Every You and Every Me" de "Without You I´m Nothing", o fortíssimo "Special K" de "Black Market Music" e ainda "Special Needs", "Sleeping With Ghosts (Soulmates Never Die)" e, a terminar, my personal favourite, "The Bitter End", num final que, infelizmente, foi mesmo bitter.
Entretanto, passei pela net e estive a ler comentários ao concerto, muito por alto, sem grande atenção, mas, no geral, toda a gente falava como se o Brian tivesse feito de propósito para ficar sem voz, ou como se fosse uma coisa que se resolvia com um rebuçado para a tosse, o que é falso. Em apenas 55 minutos, eles conseguiram ultrapassar em qualidade a hora e três quartos do ano passado no SBSR, uma vez que um ano de digressão os habituou ás canções, que aparecem transmutadas e melhoradas.
Lamentei muito quando descobri que para os encores estavam prontos "20 Years" e "Taste In Men", mas, principalmente, por "Running Up That Hill", de Kate Bush, cuja versão dos Placebo é comovente.
Enfim, c´est la vie. Terá que ficar para a próxima.
Todd Haynes: Velvet Goldmine
A certa altura, em "Velvet Goldmine", Jonathan Rys-Meyers, no papel de Brian Slade, diz a um jornalista
"_O rock é uma prostituta. Tem que parecer vamp e produzida."
e temos aqui a explicação das quase duas horas do filme de Todd Haynes, que estreou em Cannes em 1998.
Oscar Wilde é aqui apontado como o progenitor de todo o estilo que se viria a chamar glam rock. Jack Fairy, o primeiro personagem que encontramos, ainda criança, encontra uma joia que pertencera ao escritor gay, e, a partir dessa joia, cria todo o seu estilo, andrógino e sonhador. Como Toni Collette, perfeita no papel de Mandy Slade, explica mais tarde:
"_Todos roubavam do Jack."
Tudo começa quando em 1974, Brian Slade, o rei do glam rock, forja o seu próprio abatimento em palco. A farsa é descoberta, e a carreira e a vida de Slade começa a declinar, até não ter, aparentemente, retorno.
Dez anos depois, Arthur Struart (Christian Bale) é pago para fazer uma reportagem com o título "O Que Aconteceu a Brian Slade", porque estava presente no concerto que pôs fim ao artista.
O Arthur que encontramos é uma criatura melancólica e pouco comunicativa, chegando a ser inerte, pelo que se percebe porque associa a sua adolescência a outra pessoa qualquer.
Fala primeiro com Cecil (Michael Feast), o primeiro manager de Slade, que o descobriu quando tocava no bar da mulher, Mandy Slade (Toni Collette), e que o conduziu nos primeiros e conturbados tempos da sua carreira.
As explicações de Cecil terminam quando Jerry Divine (Eddie Izzard) descobre Slade e o transforma numa estrela.
É pela voz de Mandy quye ouvimos a vida da estrela de Brian Slade (Rhys-Meyers), dono de uma voz interessante, de um talento peculiar, de um estilo libertino, bissexual, e polémico cada vez que abre a boca.
A sua maior influencia seria o músico Curt Wild (Ewan McGregor), gay, (Aparentemente.) esquizofrénico e viciado em vários tipos de droga. É também por ele que se apaixonará, quando o conhece pessoalmente.
Com os relatos destas pessoas, Arthur acabará por descobrir mesmo o que aconteceu a Brian Slade, ainda que se perceba que essa é uma questão mais pessoal do que profissional, na medida em que a influencia de Slade e Wild na vida do jornalista foi mais do que seria de esperar.
A história, apesar de ser contada cronológicamente, parece dar várias reviravoltas, sem se tornar confusa. O filme é bom, mas é pouco claro se a crónica do glam rock se faz através da música ou através da estética.
São notórias certas referências que, ainda que coerentes, seria preferível não estarem tão expostas: Curt Wild é uma personalidade que relembra Iggy Pop, visulamente, Kurt Cobain, e o nome próprio idem aspas- Kurt, Curt... Brian Slade- Brian Molko, e até fisicamente são parecidos, ainda que Slade contenha ainda as referências da praxe a Bowie e Lou Reed.
Os actores são, ainda assim, a melhor parte do filme, sendo de Toni Collette a melhor interpretação, não desfazendo a de Christian Bale, com particular á-vontade para papéis mais melancólicos, Rhys-Meyes que surpreende por encaixar tão bem em Slade, Ewan McGregor que, aparte de todas as mudanças visuais, consegue fazer esquecer as referências que carrega em si.
E não podia deixar de realçar a participação de Brian Molko, dos Placebo, num papel curtinho, mas cómico. Muito bem.
Veredicto final_ 16/20
Tori Amos: American Doll Posse
Como é que no décimo primeiro álbum Tori conseguirá manter a fasquia de qualidade que ela mesma colocou com "American Doll Posse", não sei. Mas acredito dela. Depois disto...
Da esquerda para a direita, Santa, Clyde, Isabel, Tori e Pip
Veredicto Final_ 20/20
domingo, 24 de junho de 2007
Katia Guerreiro: Tudo Ou Nada
CANTO DA FANTASIA
Woody Allen: Match Point
"Match Point" parece não contar, á primeira vista, com uma história inédita, mas é os contornos que Allen lhe desenha que tornam o filme numa referência obrigatória na sua filmografia.
Quanto aos actores, eles estão, claro, muito bem. Jonathan Rys-Meyers acaba por, com ou sem intenção, lembrar o seu próprio papel em "Velvet Goldmine", principalmente nas primeiras sequências em que o vemos. Consegue, de resto, uma excelente performance. Johansson, apesar de não ter uma má interpretação, não deixa de ter a seu cargo um papel previsível, que parece ter sido feito para ela, mais do que parece ter sido ela a adaptar-se a ele. Emily Mortimer é também impressionante, e foi claramente escolhida a dedo para o papel de Chloe: o seu ar frágil e suspectível vai perfeitamente de encontro á personagem que encarna.
sábado, 9 de junho de 2007
Lídia Jorge: Combateremos a Sombra
A genialidade de Lídia Jorge começa logo aqui: como contar uma história usando as personalidades de quatro pessoas tão heterogenias? A escritora algarvia, de 60 anos, sabe, e muito bem. Cada um interfere e é referido no momento certo, de maneira que a história se desenvolve sem o recurso a lugares-comuns e aos habituais truques para criar suspense no leitor.
E se se fala em brilhante, há que referir também a maneira como, em particular pela presença de Maria London Loureiro, o protagonismo gradualmente deixa a psicanálise e passa para o esquema de tráfico humano e de droga que Osvaldo descortina: o professor Campos que encontramos no início, completamente absorvido pelos delírios dos seus pacientes e sem tempo para si mesmo, não é o mesmo que encontramos já nos últimos capítulos, que mal tem tempo para a psicanálise, de tanto querer salvar o Mundo, de tanto querer combater a sombra…
Por atender certos pacientes, sem lhes cobrar (Os “miserabilus”.), Osvaldo Campos acaba por ter, deitados no seu divã, os personagens-tipo da sociedade actual portuguesa, e, ainda por cima, entregando-lhe tudo, até o subconsciente. O Eça não faria melhor. Mas mais que expor a sociedade á psicanálise, Lídia Jorge deixa Osvaldo Campos em frente a um esquema de tráfico que passa pelo Prédio Goldoni, onde o psicanalista tem o seu consultório. É através deste esquema que os personagens se entrelaçam como um novelo, e que a escritora retrata aqueles que são dois dos maiores podres desta sociedade em que vivemos: a inércia e o comodismo.
“Não suportamos enfrentar a cara do culpado” diz Lídia Jorge, em entrevista ao Ípsilon. Não, não suportamos, e este livro mostra-nos isso, e sem nos deixar espaço para tentar negar ou ignorar que assim é. Todos os dias, andamos na rua, e cruzamo-nos com o Arquitecto London Loureiro, com José Maria Adolfo, e com Junô d´Almeida, vemo-los e sabemos exactamente o que fazem, e, no entanto, não suportamos dizer que são culpados. Nisto, esquecemo-nos que, ao negarmos a existência de um culpado, somos nós mesmos culpados, de ignorar, de não querer saber. Deixamos que a consciência seja apenas uma visita da noite (Como Maria London Loureiro era a visita da noite do seu psicanalista.) e não pensamos com ela durante o dia.
Posto isto, é muito grave, muito perigoso, que este romance seja realmente realista, mas é. É realista, uma crónica dos nossos dias, uma metáfora fenomenal, e, indubitavelmente, o melhor romance de Lídia Jorge.
Veredicto Final: 20/20
Arcade Fire: Neon Bible
Serve de epígrafe ao romance “O Homem Duplicado” de José Saramago uma frase do “Livro dos Contrários” que diz que “O caos é uma ordem por decifrar”. E não, não me enganei. Este início pertence a um texto sobre o segundo LP dos canadianos Árcade Fire.
Há quatro anos atrás, os nomes de Win Butler ou de Régine Chassagne não diziam nada a ninguém, mas hoje, eles são líderes de uma das bandas mais importantes da cena musical contemporânea, não só pela indiscutível qualidade da sua música, como pelo burburinho que se gerou á volta do septeto.
O álbum “Funeral” (2004), em dez canções, conseguiu fazer correr oceanos de tinta pela imprensa da especialidade, e moveu um sem-número de fãs.
Eis que, em 2007, se dá o aguardado regresso. Chama-se “Neon Bible”. Ao ouvir, sabemos que é Árcade Fire, sabemos que é bom, que é muito bom, sabemos que a pior música de “Néon Bible” consegue ser melhor que a melhor música de muita gente, mas, ao mesmo tempo, sabemos, sem equívoco, que alguma coisa mudou, e que não foi para melhor.
Aquilo que fazia de “Funeral” indefinível, a sonoridade variada, solta, libertina, todo aquele caos, perdeu-se. É triste e cortante, mas é assim mesmo. “Néon Bible” é a decifração do caos de “Funeral”, e isso não é bom, porque, em certos momentos, por exemplo na faixa que dá nome ao álbum, ficamos com a noção de que os Árcade Fire estão perto de se tornar catalogáveis.
Como objecto individual, este segundo álbum não tem quase nada de negativo. Com a excepção de algumas canções mais previsíveis (“Néon Bible”, “The Well and the Lighthouse”.), o som é maximalista, grandioso (“Intervention”.), enérgico (“No Cars Go”.), fluido (“Windowsill”.) e, sem dúvida, agradável. É, por vezes, demasiado composto, não há muitos solos, e pouquíssimas mudanças repentinas de ritmo (Como víamos acontecer em “Crown Of Love”, por exemplo.). Win Butler cai também no erro de variar menos a tonalidade em que canta.
As comparações com o predecessor são inevitáveis, é a natureza humana: sente-se a falta do caos, da rebelião. Agora, tem-se um caos decifrado, que ainda não é ordem, mas está mais perto do que seria desejável. No entanto, não deixa (Mesmo.) de ter grandes canções, que nos rasgam alguma coisa lá dentro: como ficar indiferente a “My Body Is a Cage”, a “No Cars Go” ou a “Intervention”?
Veredicto final: 19/20
Annie Lennox: Bare
“Bare” é a prova disso: lançado em 2003, ao longo de quatro anos, foi-lhe dada pouca importância. E em 4 anos, chegámos ao cúmulo de o Robbie Williams e os Da Weasel serem capa do Blitz, e nem uma palavra sobre Annie Lennox. Mas esqueçamos as injustiças da indústria musical, e passemos ao álbum em concreto: não se trata de um álbum feito ao acaso, longe disso. Bem pelo contrário: a evidente ausência de arestas mal limadas, e o perfeccionismo técnico de cada faixa confirma aquilo que a própria Annie escreve na contracapa do álbum, “I am not a young artist in their early twenties. I am a mature woman…” e eu acrescentaria “mature musicien”. Autora das onze canções, Lennox consegue com elas as suas melhores composições: além das letras escritas com mestria, boas não só por serem claramente intimistas, como também por estarem bem feitas, formalmente; também nas músicas Annie Lennox atinge em pleno uma característica que procurava desde “Medusa”: mesclar a sonoridade dos 80´s com métodos de produção mais actuais. E se, por um lado, os arranjos nos soam perfeitamente a 2003, os ritmos, muitas vezes, levam-nos a 83(+-). “A Thousand Beautiful Things”, “Oh God (Prayer)” ou “Loneliness” são exemplos claros da sonoridade dos anos 90 a impor-se, ao passo que outras como “Honestly”, “Wonderful” ou “Bitter Pill” vivem mais no passado. Nada contra. Bem pelo contrário.
É, enfim, um regresso em grande, que não é por ter sido ignorado que é menos bom. Um destaque também para a capa, com uma foto da autoria de Allan Martin: um grafismo perfeito. Equilíbrio!!!
Veredicto Final: 17/20
António Lobo Antunes: Ontem Não Te Vi Em Babilónia
28 anos depois (Visto eu ter gostado do filme “28 Dias Depois”.), com todas as inevitáveis (E ainda bem.) evoluções, a escrita de António Lobo Antunes é uma das mais importantes e apreciadas quer no contexto da literatura portuguesa, quer no contexto da literatura mundial.
“Ontem Não Te Vi Em Babilónia” é o romance mais recente do autor. Nas entrevistas, Lobo Antunes afirma não querer contar histórias, mas sim vidas, e foi o que fez, no seu 18º romance: ele conta as vidas destas pessoas, e entrelaça essas vidas, mas sem criar um enredo, colocando-as a deambular por uma terra sem dono.
Uma noite, estas pessoas não adormecem, têm insónias. Deitadas na cama, revisitam o seu passado, relatam-no, comentam-no, descobrem-no e por vezes, inventam-no. Nem todos os personagens falam o mesmo número de vezes, havendo quatro que se destacam, e essas quatro têm em comum o facto de terem sido testemunhas do suicídio de uma rapariga, que se enforcou numa macieira.
São encontros e desencontros, mas há sempre uma tremenda melancolia, em cada linha, em cada frase que se repete como um eco (Característica muito lobo-antuniana.), há o sofrimento de quatro pessoas vítimas de si mesmas e das suas escolhas. Todas têm um segredo. E vão revelando o seu segredo, sem pressa, aos poucos.
A força do livro é impressionante. É honesto e realista, chegando por vezes a ser agressivo ou a atingir quem lê (O exemplo de uma das personagens que acusa quem lê de ir esquecer-se dela quando terminar a leitura do livro.), revelando-se, no fim, um texto que ultrapassa as potencialidades reais que tem: aquilo que o livro é, na realidade, não oferece muitas possibilidades de este ser um romance assinalavelmente bom, nem sequer no contexto da obra do seu autor; mas a verdade é que é tão bem conduzido, e de uma forma tão pouco enganadora, que acaba por contornar essa condenação prévia.
Ao fim de 479 páginas (Algumas a menos, ainda assim, não seriam fatais.), Lobo Antunes afirma que o que escreve pode ler-se no escuro. E pode. Infiltra-se e morde de tal forma o leitor, que pode ser lido no escuro, talvez seja melhor que nos morda no escuro.
“Ontem Não Te Vi Em Babilónia” é obviamente incapaz de ultrapassar a grandiosidade do magma de romances como “Eu Hei-de Amar Uma Pedra” ou “O Manual dos Inquisidores”, mas é igualmente óbvio que é um dos melhores livros do ano.
Veredicto final: 18/20
quinta-feira, 24 de maio de 2007
camera
sábado, 21 de abril de 2007
Os Anéis do Meu Cabelo
Se passares pelo adro
No dia do meu enterro
Diz á terra que não coma
Os anéis do meu cabelo
Já não digo que viesses
Cobrir de rosas o meu rosto
Ou que num choro dissesses
A qualquer um do teu desgosto
Nem te lembro que beijásses
Meu corpo delgado e belo
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.
A quem eu amo... J.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
The Nobodies
I want to be pretty
Tomorrow, I know
I'm just dead
Today I am dirty
I want to be pretty
Tomorrow, I know
I'm just dead
We are the nobodies
we wanna be somebodies
we're dead,
they'll know just who we are
Yesterday I was dirty
wanted to be pretty
I know now that I'm forever dead
Yesterday I was dirty
wanted to be pretty
I know now that I'm forever dead
We are the nobodies
we wanna be somebodies
we're dead,they'll know just who we are
Some children died the other day
we fed machines and then we prayed
puked up and down in morbid faith
you should have seen the ratings that day
MARILYN MANSON sobre o Massacre de Columbine, 20 de Abril de 1999 para o álbum HOLY WOOD (IN THE SHADOW OF THE VALLEY OF DEATH)
terça-feira, 27 de março de 2007
"Dois Espaços" de Helena Almeida
Ou isto só veio a público agora, ou sou eu que ando muito distraído ultimamente.
"Dois Espaços" surge depois de um "Estudo Para Dois Espaços" dividido entre uma colecção de fotografias e um vídeo apresentado no Bienal de Veneza de 2005, que foi, aliás, a última colecção de que ouvi falar da artista.
Ficam algumas das imagens que integram a colecção mais recente, em que, após uma fase em que utilizava apenas o seu corpo fotografado, Almeida volta ao vermelho com que se estreou na série "Sem Título" de 1994/95.
E por falar no Bienal de Veneza, não posso deixar de gabar a escolha de Ângela Ferreira para a representação portuguesa de 2007.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Blind Zero- Time Machine: Memories Undone 1993-2007
Ao fim dos primeiros 13 anos de carreira, de seis discos, e de muitos palcos percorridos, os Blind Zero editam "Time Machine: Memories Undone 1993-2007", uma espécie de Best Of ao vivo. O conceito de fazer uma retrospectiva ao vivo não é inédito (Olhemos para "Vivo" dos Clã ou "Fácil de Entender" dos The Gift.) mas merece, claro, o seu mérito, principalmente quando se fala de uma banda como esta, em que os concertos conseguem ultrapassar, e sem dificuldades, os álbuns de estúdio. "MTV Live In Milan" era uma (Literalmente.) pequena demonstração. "Time Machine..." é outra abordagem. Para começar, cobre os álbuns de uma forma mais abrangente, e depois, a selecção é calculada sem atender ao sucesso comercial etc, sendo uma colecção das melhores canções, ou pelo menos, com mais potencial ao vivo, sem a ideia de promover um dos álbuns que é necessária ao alinhamento de um concerto.
Algumas canções, obrigatórias, estão presentes ("The Down Set Is Tonight", "Skull".), outras surgem, ainda que não fosse previsível, mas ainda bem ("Absent Without Permission"; "Another One") e algumas... faltam... claro que isto é só uma opinião pessoal, mas faltava ali "Criminal Grace" ou "Nothing Else Goes", ou uma das minhas preferidas de sempre: "Wish Tonight". O álbum está muito bem equilibrado entre as canções mais melancólicas, as mais calmas ("Super8") e as mais agressivas ("You Owe Us Blood"), e é de notar a presença de um dos momentos mais intimista (Senão o mais intimista.) de toda a discografia da banda do Porto, "Sad Empire", numa versão que tem um interessante efeito secundário: perguntamo-nos qual das versões é a melhor: a de estúdio ou esta?
No fim... nem todas as bandas se podem orgulhar de memórias assim. As escolhas da banda de Miguel Guedes podem nem sempre ter sido as mais óbvias, mas acabaram sempre por se revelar tão coerentes como decisivas na evolução que a banda atravessou e que, neste álbum, mais do que nunca, se torna evidente. Só essa visão periférica já faz a compilação valer a pena. Mas este disco é algo mais... um retrato de momentos dispersos que, ao serem colocados juntos, como uma manta de patchwork, conseguem, sem dificuldade fazer uma unidade. Ainda bem.
Juízo Final_ 19/20
segunda-feira, 5 de março de 2007
Bjork: Drawing Restraint 9
Vasculhando os livros de arte na Fnac, descobri uma peça imprescindível, que não podia deixar de ter: um livro com imagens (E não só.) do filme de Matthew Barney "Drawing Restraint 9". Não vi (Ainda.) o filme, e (Ainda.) não sei como o vou ver, mas sei que vou. Serve isto de introdução para o comentário ao álbum da banda sonora, composta pela mulher do realizador, a não menos invulgar Björk, de quem eu tanto gosto. Quando comprei "The Music From Drawing Restraint 9", em Agosto de 2005, sabia muito pouco sobre o seu contexto. O que li, depois, em termos de críticas, não foi bom. No Blitz ainda admitiam a hipótese da música nos soar de uma outra forma após termos apreciado o filme, mas, por exemplo, na Magazine das Artes, chamaram-lhe um naufrágio. Escrevo, mais de um ano depois, para contrapor tudo isto.
Diga-se de passagem que não é fácil gostar deste álbum da pequena islandesa mais famosa do mundo. "Drawing Restraint 9" é feito de sons estranhos, aguçados e por vezes quase hostis. Mas, na sua essência o álbum é bom.
Mas bom não quer dizer perfeito, e esta banda sonora tem vários erros: é muito dispersa, de maneira que o disco em si não é uma obra, mas 11, cada faixa é individual e não encaixa nem na anterior nem na seguinte (Com excepção de Hunter Vessel e Vessel Shimenawa, em que o segundo é quase uma continuação do primeiro, ou de Shimenawa e Antarctic Return, idem aspas.), algumas faixas têm menos do que se anuncia ( Onde se ouve a harpa de Shimenawa?), e outras contêm, de facto, menos do que seria de esperar (Holographic Entrypoint quase á capella pedia por um outro fundo instrumental.), e, quando se acaba de ouvir o álbum fica uma pouco agradável sensação de que há uma predisposição para colar nestas canções conceitos de álbuns passados de Bjork: o caso da importação de Tanya Tagaq de "Medúlla" para o tema "Pearl", do som de "Frosti" do álbum "Vespertine" para "Cetácea", etc.
Mas não é só de manchas que é feito "Drawing Restraint 9": "Gratitude" com a voz de Will Oldham enrolada na harpa de Zeena Parkins não podia ser um melhor início, os estados de espírito misturam-se, faixa a faixa, a sonolência de "Bath", a isaltação de "Hunter Vessel", o dramatismo de "Storm" ou a felicidade de "Cetácea". A nível das composições, elas são simples, melodiosas, gravadas e arranjadas de maneiras pouco óbvias, com bastante energia, e principalmente, um perfeccionismo pouco exagerado.
"Drawing Restraint 9" é incapaz de fazer sombra a "Debut" ou "Homogenic", os seus sons não conseguem ser tão celestiais como em "Vespertine", não há nem réstias da agressividade de "Post", nem da soltura de "Gling Glo", nem da sobriedade de "Medulla", mas a banda sonora deste filme de Matthew Barney está bem longe de ser um mau disco, bem pelo contrário. Só não deixa um caminho muito óbvio pela frente. E depois???
Veredicto final: 16/20
"Oculto" de António Hernandez
Fui ao Rivoli, uma das minhas salas preferidas, na Sexta Feira, ver o filme "Oculto" que passava no Grande Auditório no âmbito do Fantasporto 2007. A película, de António Hernandez é protagonizada por uma actriz de novelas colombianas, Angie Cepeda, e por Leonardo Sbaraglia, actor de nacionalidade argentina.
Em traços gerais, a história é a seguinte: o Centro Cultural onde trabalha Beatriz recebe uma palestra sobre o significado e poder dos sonhos. No final, Natália, designer de moda, expõe as suas dúvidas em relação a três sonhos envolvendo monólitos com inscrições, que acredita serem premonições. Mais tarde, Natália conhece Beatriz, através de um jornalista, uma vez que a última acredita que uma tatuagem que (Supostamente.) havia feito há seis anos atrás a relaciona com a primeira. Á medida que a história e a psicose de Natália avançam, vamos descobrindo que a conexão de Beatriz com Natália não advém dos sonhos, mas sim de uma situação mal resolvida que envolve o desaparecimento de Javier, o antigo marido de Beatriz que a havia deixado por Natália, que, por sua vez, o havia deixado a ele, precisamente no dia em que ele desaparece.
Num enredo assim, não deixa de ser irónico que a protagonista seja uma actriz de telenovelas da América Latina, conhecidas pelas seus enredos de faca e alguidar, uma vez que, por vezes, a história de "Oculto" não tem pejo em aceitar lugares-comuns de todo dispensáveis. No final do filme, também é inevitável uma sensação de que afinal, o "oculto" em que supostamente o filme vivia não passa de uma desculpa para uma narrativa que tem como assunto uma vingança, perdendo-se o tão promissor assunto dos sonhos, da sua influência e do seu significado. Referências directas a Kubric (2001:Odisseia no Espaço.) ou indirectas ao "Pesadelo em Elm Street" de Wes Craven ficam assim em suspenso, existindo sem um motivo real, mas apenas para mascarar a verdadeira massa do filme. Tudo isto exposto em sequências que não surpreendem, á mistura com frases filosóficas que se revelam descontextualizadas, misticismos sem razão de ser e cenas de sexo explícito. Resultado: uma pergunta: O que faz este filme no Fantas???
Juízo Final: 7/20
sábado, 3 de fevereiro de 2007
José Luís Peixoto: Cemitério de Pianos
O título do terceiro romance de José Luís Peixoto é "Cemitério de Pianos". Se a experiência da leitura de "Nenhum Olhar" ou "Uma Casa Na Escuridão", os dois romances anteriores do autor, não nos levasse á temática da morte, mais uma vez o título levaria. E isso é importante, porque o assunto da morte percorre cada uma das 314 páginas do romance, ou não fosse a primeira frase do livro
"Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer."
Mas não só de morte é feita a história deste livro, ou, se se quiser ser mais preciso, a(s) história(s) deste livro, porque há duas entidades que monologam, que olham e relatam as suas vidas. É assim, como um shampoo, dois em um... Partilham o nome, Francisco Lázaro, e um Francisco Lázaro é pai do outro. Mas é impossível perceber quem é quem. José Luís Peixoto garantiu na apresentação do livro, na Fnac de Sta. Catarina, que não era importante perceber-se qual dos dois fala, e certificou-se de que isso seria impossível, ao passar nomes de uns familiares para os outros, por exemplo: uma Marta é filha do que parece ser o Francisco filho, mas depois é tia do que parece ser o pai... confuso. Não que isto retire qualidade ao livro, pelo contrário, apesar de tornar a leitura muito confusa, torna-a também mais intensa.
Em relação ao enredo propriamente dito, Peixoto partiu da personagem real de Francisco Lázaro, primeira participação portuguesa nos Jogos Olímpicos, em Estocolmo, em 1912. Este curioso personagem morreu devido á brilhante ideia de untar a própria pele com óleos e graxa, o que, em vez de lhe manterem o corpo a uma temperatura amena, só impediram a pele de transpirar e de respirar. Resultado: morreu, após os trinta quilómetros corridos. A maneira como JLP pegou nesta figura e lhe inventou uma vida (E, num dos casos, uma morte.) é fantástica. O único defeito fica no facto de se deixarem algumas pontas soltas (O caso da morte de Maria.), que, ainda que não retirem nada de importante á história, por certo acrescentariam qualquer coisa.
A nível da escrita, o vocabulários é simples, as frases desligam-se umas das outras criando um "efeito poesia" e a história move-se passo por passo, e, ainda que se avancem anos, nada é precipitado: nem revelado antes de tempo, nem revelado tarde demais...
A ler, sem dúvida, mas só se se tiver uma fortíssima crença na máxima que diz
"Quem muito pensa pouco acerta"
porque, se se pensa demais, a questão da divisão dos Franciscos tornará a leitura secante.
Juízo Final: 17/20
terça-feira, 23 de janeiro de 2007
morreu Fiama Hasse Pais Brandão

Iniciou o seu percurso com as prosas poéticas de "Em Cada Pedra um Voo Imóvel", 1958, edição de autor, que conquistou o prémio de poesia Adolfo Casas Monteiro. Continuou pela prosa poética em "O Aquário", de 1959. Em 1961, integra o grupo "Poesia 61" com o folheto "Morfismos". A partir daí, publica poesia, de onde se destacam por exemplo "Barcas Novas" (1967), "Melómana" (1979) ou "Âmago 1: Nova Arte" (1985); no domínio da prosa poética acaba por esbater as separações entre a poesia e ficção com "Falar Sobre o Falado" (1988) e "Movimento Perpétuo" (1991); produz abundantemente para teatro, iniciando o seu percurso como dramaturga com "Os Chapéus de Chuva" (1961); e escreveu ainda um único romance, "Sob o Olhar de Medeia" (1998).
Reuniu a sua obra em 1974, "O Texto de Joao Zorro" e em 1990, "Obra Breve".
Foi-lhe atribuído o Prémio APE para poesia por duas vezes, "Epístolas e Memorandos" (1997) e "Cenas Vivas" (2000).
O seu último livro de poesia foi publicado em 2002 pela Quasi, "As Fábulas".
Morreu ontem, aos 69 anos, e lega-nos uma obra que não é breve, nem em quantidade nem em qualidade.
Aqui fica um poema do seu úlltimo livro
URBANIZAÇÃO
Tudo o que vivêramos
Um dia fundiu-se
com o que estava
a ser vivido.
Nao na memória
Mas no puro espaço
Dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.
Depois alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo
ou a sós em silêncio,
ou narrando esse meu ver.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
Arcade Fire: Funeral
A vida é mesmo assim, há discos menos felizes e outros mais. O primeiro LP dos canadianos Arcade Fire é um bom exemplo de um disco muito feliz. E este feliz não quer dizer que o som de "Funeral" é sempre alegre, ao longo das dez canções que o constituem, mas sim que a qualidade é omnipresente. O som é rock, um rock caótico, agressivo, enérgico, sobrexaltado, esquizofrénico e acentuado. No entanto, não estamos perante um álbum simples e muito menos minimalista... todas as canções vivem de grandiosos arranjos de cordas, de pequenos pormenores criados com a harpa, o xilofone ou o upright bass. Os Arcade Fire são seis, mas fazem-se acompanhar por mais nove músicos, logo, a nenhum momento do álbum falta complexidade. Como em qualquer álbum, há canções melhores que outras, sem que nenhuma seja má. "Neighborhood #2 (Laïka)" é um excelente representante dos conceitos-base da música dos Arcade Fire, "Neighborhood #3 (Power Out)" idem aspas, "Neighborhood #1 (Tunnels)" (Bonita história de amor.) ou "Wake Up" são indispensáveis, sem dúvida.
No final do disco, o que fica é uma sensação de satisfação que dá vontade de ouvir de novo. De discos assim é feita a música alternativa. A prova disso são as críticas tão positivas a projecção que os Arcade Fire adquiriram desde o lançamento de "Funeral", além de terem dado também visibilidade a músicos que colaboram neste, o exemplo de Owen Pallett aka Final Fantasy, violinista, que publicou em Julho de 2006 o seu segundo álbum de originais, "He Poos Clouds".
O próximo álbum dos Arcade Fire tem de título provisório "Neon Bible", e está a ser gravado numa igreja. Independentemente do resultado, uma coisa os Arcade Fire já têm: uma estreia como poucas, e a oportunidade de, mantendo a fasquia, terem o nome entre os nomes dos grandes. Veremos...
Veredicto-20/20























