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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Sequência X


herdei de ti a máquina de barbear
(eu que não faço a barba)
para enfrentar o terror de limpar os teus
pelinhos póstumos

escanhoei o rosto e durante semanas
aleijei-o com o teu cheiro

Miguel-Manso
Supremo 16/70
2013, ed. Artefacto
imagem de Miguel Leal

[Falas-me em asas,]




















Falas-me em asas,
Em voar...

Não vês que eu não sou nada,
Nem anjo nem pessoa,
Nem ave nem engenho,
Que é totalmente outra
A minha definição?

Eu não sou mais do que o próprio chão...

Ana Hatherly
Um ritmo perdido
1958, ed. autora
imagem de Rosita Delfino

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Canard à un seul bec


Ils avaient expérimenté toutes les positions, toutes les perversions, échanges, travestis, orgies, les chaînes, le fouet, les menottes, les talons-aiguilles. Lassés, ils avaient conclu à la nécessité, pour inventer de nouvelles pratiques, de créer de nouveaux organes. Or, s'il est assez simple de taillader, à coups de bistouri, des entailles dans les cuisses, des ouvertures dans le cou, des entrées dans les entrailles, bref de multiplier les sexes féminins, par contre les greffes cutanées de clous, les piercings de pointes, le hérissement littéral de substituts phalliques plus ou moins érectiles par tout le corps, non seulement se sont avérés fragiles et instables, mais insatisfaisants, voire frustrants. Ils durent admettre, consternés, qu'ils avaient épuisé le plaisir.

Saguenail
Jeux de Lazare
2005, ed. Hélastre
fotografia de Robert Mapplethorpe

sábado, 4 de janeiro de 2014

Paragem

























O pássaro fendeu os ares e tombou morto.
Caiu sobre um canteiro onde floresciam lírios
E imediatamente as vísceras comunicaram a desagregação.
Então vieram as formigas.
Assaltaram-no,
Sugaram-no em milhões de partículas...
E o pássaro foi coberto de negrura movediça
Foi diminuindo de volume
Esquecido dos sóis que procurara.


Egito Gonçalves
Um Homem na Neblina
1950, ed. Germinal
desenho de  Hubert Duprilot

[Estou sozinho, coloco a flor de cinza]




















Estou sozinho, coloco a flor de cinza
no corpo cheio de negrume amadurecido. Boca de irmã,
tu dizes uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e sem ruído trepa, o que eu sonhei, por mim a cima.

Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico, atravessa o verão.

Paul Celan
trad. Yvette K. Centeno
Papoila e Memória
in Sete Rosas Mais Trade
1993, ed. Cotovia
pintura de Guy Denning

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Este ano


























Este ano cresceu de joelhos 
a noite conservou as quatro luas 
as crianças têm os seus cabelos 
seus gritos de paz intransmissíveis

Luiza Neto Jorge
Terra Imóvel
1964, ed. Portugália
fotografia minha (Âncora, Agosto 2013) sujeita a um filtro do Instagram

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Os catacteres góticos


é preciso precipitar o conhecimento da doença.
_entretanto muita nobreza e saltimbancos
como algas que a águas esbofeteia.
a matéria adultera-se dia a dia
recua a cartilhagem ocre das árvores
como uma sonoridade agressiva e impotente.
trompa anal do vento (vergonhas de gente com vergonha)
a ração descorada da tua pele de pêssego e de fases solares.

a primavera chega porque os fariseus a fazem fermentar
abre a boca e fecha os olhos faisões passeiam sobre os fruncos.
a manicure esfrega as pernas friorentas
e sugere um pouco mais de meiguice e má-vontade.
bendita a terra estéril e surda que não lhes paga.

letra e espírito das flores do desmaio.

Regina Guimarães
Abaixo da Banalidade, Abastança
1980, ed. Hélastre
pintura de Anne Bachelier

«É bom viver na terra?»


No parque, sobre a relva,
onde é tudo tão difuso,
eu não tenho relação
com a minha vida. Indistinto
entre as dezenas de pontos

que um mestre desconhecido
distribui por acidente
na tela crua da sorte,
não tenho nome ou idade,
nem sequer um coração

para sofrer outra ofensa:
nunca desci ao inferno
de um amor desenganado,
nada perdi que me fosse
precioso ou necessário

e de resto não conheço
os quatro cantos do medo,
nem tão-pouco me pertence
este modo de estar só
que inventei sem querer.

De seguro, por agora,
só tenho o corpo que ofereço
ao calor da primavera _
e nem me custa ser eu, se sou
também qualquer homem

de qualquer tempo e lugar
que alguma vez se deitou
sem cuidados ou remorso
entre as árvores enfeitadas
pela breve luz da tarde.

Rui Pires Cabral
Oráculos de Cabeceira
2009, ed. Averno
pintura de Yuri Leonov

O excesso da criação




















A penumbra é o movimento do poeta
atravessando a obra. Em cada poro
a sua respiração está na folha
entre a nervura do dedo pequenos sinais
despontam na visibilidade da terra

há uma seara extensa na penumbra
filamentos de rio, rosas
figuras móveis do meu corpo abrindo
todo se converte em folha
folhas, pedaços de lua, longe
mas está no movimento do poeta
multiplicar as sombras
que são o excesso da criação.

Rosa Alice Branco
Monadologia Breve
1991, ed. Limiar
desenho de Francesco Balsamo

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Passo num gesto


























Passo num gesto que eu sei
Deste mundo agoniado para o espaço
Onde sou quanto serei
No tempo que sobra escasso

No outro mundo sou rei
E o meu rosto de cristal e puro aço
É o espelho que forjei
Com suor pena e cansaço

E se o mundo que deixei
Tem as marcas desenhadas do meu passo
São baralhas que enredei
São teias e vidro baço

Tantas provas cá terei
Tantas vezes do pescoço solto o laço
Se me sangraram em rei
Aceitem a lei que eu faço

Vem a ser que o homem novo
Está na verdade que movo

José Saramago
Provavelmente Alegria
4a edição, Caminho, 1998
imagem de Miguel Leal

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

[Isto é o meu corpo]
























Isto é o meu corpo
isto é o meu sangue
a miséria sexual das missas
é a miséria sexual das discotecas
mas este e o melhor tempo
de sempre
ainda muito puritano
e nada pudico
é um tempo obsceno
mas dantes era muito mais obsceno
que farei eu com esta espada?
uma foice e um martelo
oulseiras anéis e gargantilhas
que farei eu com o meu eu?
bavarder bavarder bavarder
(que farei eu com este livro?
outro livro ainda o mesmo
que farei eu com este piano?
improvisos
que farei eu comigo?
ergo-me sento-me deito-me
e faço-me
que cada um tenha a sua casa
que cada um tenha o seu piano)

Adília Lopes
A Mulher-a-Dias
2002, ed. &etc
imagem de Christopher McKenney

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Lenga-lenga


Maio, maio.
Tarde.
Vejo-me na rua.
Penso? muito pouco.
Terra escura, terra escura!
E soledade...
Pena?
De nada, de mim.
Mas desespero, fastio.
 
Soledade!
Terra escura.
Maio, maio...
 
Camions de presos,
numa rua parados.
Vazios, cheios?
Impenetráveis.
Vazias as ruas.
E as vistas...
Gastas, imutáveis!
Um rio antigo,
de aquário,
longe, estagnado.
As casas maciças,
impávidas, alinhadas.
 
Descidas, só descidas...
As mulheres, adamadas.
E eu só, só, só!
Sempre assim.
Tudo o mesmo,
o que foi.
Soledade, soledade...
 
As ruas com sêlo.
Características e incaracterísticas.
Quentes e escuras.
E eu hei-de morrer,
acabar de passar,
deixá-las.
E elas, ficar!
Sem nenhum mistério.
Corro nelas, como o seu sangue,
surdo, cego, interior.
Um sangue sem qualidade!
Desconsolado.
 
Há vida?
Não há, não a sinto.
Mas o mundo revolve-se.
Mundo de insectos!
Vai aqui uma alma,
como o sangue das ruas,
perdida,
desemparelhada,
para o nada...
 
As ruas, golfos!
De um lado e outro a vida,
mas dissimulada, aberrativa.
E eu que sou o seu sangue,
correndo,
sem olhos nem sentidos....
Afrontada,
apertada, desenganada.
 
A de sempre aqui vai,
a sem coragem!
Maio, maio...
Uma tarde como estas,
tão velha e tão simples,
me ofende e me angustia.
 
Miseráveis, miseráveis!
Tomais a vida vossa

e não me deixais nada!
Sem vos ver, pressinto-vos...
 
Estas ruas, estes golfos,
que sempre me amarguraram...
me invadiram de melancolia,
tão cara!
 
Humilde, hei-de morrer
e elas continuar...
a receber e a desprezar...
Hei-de passar
sem reconhecer a vida,
a esquiva,
toda a sua acuidade!
De nada me desobrigarei,
não trouxe mensagens...
Vadio.
 
Passarei como o sangue,
indiferente, inconsciente,
repetida e esquecida.
Passarei.
 
Mundo de cães,
mesquinho e utilitário,
como me olhaste?
Nem me olhaste,
tudo me roubaste,
de tudo me desenganaste.
Insípido, insípido.

Irene Lisboa
in «Seara Nova»
Junho de 1938
pintura de Jeremy Enecio

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O que aponto



1
Conversa muda...
A falada cessou, cessara.
Começou a muda, encadeada, sem presenças, solitá-
ria, gostosa, inteligente, reminiscente, recriada.
Ai, as mãos...
O pensamento, ou aquilo que durante os silêncios
connosco fala, evocava as mãos, regalava-se de não sei
que especiosos contactos!
Os que pouco antes se tinham falado, entendidos e
afectuosos, cautelosos...
Falariam, falavam... Mas o que deles mais deli-
cado e mais secreto falava eram as mãos... ligeiras,
tocando-se invisivelmente, buscando-se.
E ainda agora elas falavam, se tornavam lembra-
das! Carnais e etéreas. Irreais e ligadas!

Pois sim.
Mas não será o meu pensamento que tudo materia-
liza, ou inventa?
Impulsos, movimentos, transposições...
Que prolonga as ínfimas sensações, tais, que um
entendimento brusco e claro anularia?
Pensamento! Que necessidades as tuas, e que pra-
zeres! Reanimares e dares extensão a um quasi nada,
aparente...


2
Subtil, como um papel, uma pena, uma folhita de
árvore, um trapo, eu seja, ou fosse!
E não o sou?
Serena, prudente, desconfiada...
Sou.
Só a minha agastada, descolorida serenidade não
tem, não pode ter, nunca terá aquela mansidão, aquele
ar leve, indiferente, descansado, aquele poisar da doce
pena...
A minha serenidade é... e cada vez mais, daqui
para o resto, para o meu sempre, uma serenidade de
decadência.


3
Belo homem, arisco, violento!
A fala seca, imodulada; o olhar claro; e uma agi-
tação, uma irregularidade, uma leonia!
Animal de presa.
Mas eu, a minha imaginação ou o meu corpo, eu,
tão fria!
Pessoa que nada ufana, nada agita, nem sequer
quebranta...
Mas isto percebendo, sofro, dá-me dor!
Espírito... trabalhas sempre, e talvez te contentes,
te iludas como um delicado.
Pobre! Mesquinho! Impotente!
Relojoeiro, que te distrais e te ocupas com o isocro-
nismo e a finura das rosas, agulhas, pinças, lentes...


4
Pela orla marítima tranquila, tranquila, os namo-
rados, passageiros, despreocupados, de mãos dadas, ou
passadas pelas cintas, pelos ombros, chegados...
Os namorados, tão jovens! renovam não sei que
mitos.
Pela areia húmida, para o sul, para o norte...
Elas, tão finas e castas!
Tantas perspectivas...

Tarde amável, mas indistinta, do acaso, tirada sem
propósitos do calendário.
Velha... É velha a terra, a areia, tudo isto. Mais
eu!
Novos, e espirituais, só os namorados.


5
Eu cantava, havia de cantar...
Mas com que voz?
Falta-me a voz, e os temas.

Eu havia de cantar briosamente (se tivesse voz), o
amor!
Nunca um amor apoetado e correntio...
O amor! O êxtase, o arrebatamento! Ou talvez só
a ternura.

Sons de música...
É a telefonia das minhas vizinhas, das meninas boni-
tas.
São realmente bonitas.
Pois assim, ao som de uma valsa lânguida, de uma
valsa velha e excitante, eu havia de cantar, glosar, as
fantasias, os sonhos de dois jovens pré-amantes.

Havia de cantar?
Não!
Chorar, chorar!
O meu desejo verdadeiro é de chorar, por querer
cantar sem poder.

Irene Lisboa
in «Presença» nº 50
desenho de Robbert Van Wynendaele

domingo, 10 de novembro de 2013

Je voudrais pas crever

 
Je voudrais pas crever
Avant d'avoir connu
Les chiens noirs du Mexique
Qui dorment sans rêver
Les singes à cul nu
Dévoreurs de tropiques
Les araignées d'argent
Au nid truffé de bulles
Je voudrais pas crever
Sans savoir si la lune
Sous son faux air de thune
A un coté pointu
Si le soleil est froid
Si les quatre saisons
Ne sont vraiment que quatre
Sans avoir essayé
De porter une robe
Sur les grands boulevards
Sans avoir regardé
Dans un regard d'égout
Sans avoir mis mon zobe
Dans des coinstots bizarres
Je voudrais pas finir
Sans connaître la lèpre
Ou les sept maladies
Qu'on attrape là-bas
Le bon ni le mauvais
Ne me feraient de peine
Si si si je savais
Que j'en aurai l'étrenne
Et il y a z aussi
Tout ce que je connais
Tout ce que j'apprécie
Que je sais qui me plaît
Le fond vert de la mer
Où valsent les brins d'algues
Sur le sable ondulé
L'herbe grillée de juin
La terre qui craquelle
L'odeur des conifères
Et les baisers de celle
Que ceci que cela
La belle que voilà
Mon Ourson, l'Ursula
Je voudrais pas crever
Avant d'avoir usé
Sa bouche avec ma bouche
Son corps avec mes mains
Le reste avec mes yeux
J'en dis pas plus faut bien
Rester révérencieux
Je voudrais pas mourir
Sans qu'on ait inventé
Les roses éternelles
La journée de deux heures
La mer à la montagne
La montagne à la mer
La fin de la douleur
Les journaux en couleur
Tous les enfants contents
Et tant de trucs encore
Qui dorment dans les crânes
Des géniaux ingénieurs
Des jardiniers joviaux
Des soucieux socialistes
Des urbains urbanistes
Et des pensifs penseurs
Tant de choses à voir
A voir et à z-entendre
Tant de temps à attendre
A chercher dans le noir
 
Et moi je vois la fin
Qui grouille et qui s'amène
Avec sa gueule moche
Et qui m'ouvre ses bras
De grenouille bancroche
 
Je voudrais pas crever
Non monsieur non madame
Avant d'avoir tâté
Le goût qui me tourmente
Le goût qu'est le plus fort
Je voudrais pas crever
Avant d'avoir goûté
La saveur de la mort...
 
Boris Vian
Je voudrais pas crever
1962, ed. Jean-Jacques Pauvert
fotografia de Francesca Woodman
 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Jeito de escrever


Não sei o que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei o que diga, não sei o que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas letras e o gesto _o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim:
uma das mãos no papel, dedos fincados, solta a outra, de pena expectante...
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
Me cerro.
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! do não, do nem, do nada, da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.

Estrela, 1950

Irene Lisboa
Vértice nº 109,
Setembro de 1952
pintura de Miguel Leal

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Tempo





















O tempo longo, longo...
Longo...
E simultaneamente tão precipitado!
Tão desordenado, tão vazio.
Este verão das ruas...
Tudo fora, além das casas,
mas invasor, invadindo-as.
Aqui mesmo, rua estreita, comum cidade...
mas...
e em Bruxelas e em Ferreira,
quiçá na China?
Sempre a mesma cálida solidão.
O tempo aniquilado mas irritante.
E a pergunta uniforme:
para que se vive, como se vive?
Isto,
monotíssimo, desenrolando.
Isto, o prazo de uma vida!
«A tua vida tecê-la-ás pela tua mão».
Ah! ah!
Blasfémia.
Estupendo ridículo, imoral até.
Que teceu e que tece,
que poderá ter tecido a minha mão?
Nunca, pelo menos,
a minha primeira vida.
Nem a segunda,
imprevista e sentimental.
Nem esta, esta, derradeira,
descansada ou como tal.

Haveria a minha pobre mão,
ferrenha, convicta e cabalística,
de fazer no ar os seus firmes traços?
Ah! ah!
Os outros apanham os frutos já maduros
e ficam a julgar,
a julgar que o seu desejo os corou.
Tolos!
Que foi que fizeram?
Levantaram este braço.
Mas esse gesto mesmo...
Não, não foi a insuficiência do gesto.
O que foi, foi o meu deserto,
os caminhos áridos.
Áridos, secos, amargos.
Mais um Verão...
Mais um Verão,
mais uma jornada,
mais uma época.
O  verão remata sempre qualquer coisa.
Depois dele é que volta a velha vida.
E quanto mais ela passa,
se repete e se eterniza,
mais ansiada é a nossa pergunta:
porque e para quê?
como se vive?
para onde é a ida?

Irene Lisboa
Diário Ilustrado,
8/10/1957
pintura de Michele del Campo

terça-feira, 20 de agosto de 2013

449






















I died for Beaty _but was scarce Adjusted in the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In an adjoining Room _

He questioned softly ''Why I failed''?

''For Beauty'', I replied _
''And I _for Truth _ Themself are One_
We Brethren, are,'' He said _

And so, as Kismen, met a Night _

We talked between the Rooms _
Until the Moss had reached our lips_
And covered up _our names _

Emily Dickinson
1862
pintura de Gail Potocki

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

[Nous voici parvenus à la froidure,]


Nous voici parvenus à la froidure,
qui est gel, neige et boue,
les oisillons restent muets
à chanter aucun n'incline
Les branches sont sèches dans les haies,
ni fleur ni feuille n'y éclot
ni rossignol n'y chante,
lui que j'aime lorsqu'en mai il m'éveille.

J'ai le cœur si désabusé
qu'à tous je suis étrangère ;
je sais que l'on perd
beaucoup plus vite qu'on ne gagne.
Si je donne le change avec des mots sincères,
c'est que d'Orange me vint la douleur
qui me laissa consternée :
j'en perds en partie la joie.

Une dame place très mal son amour
en plaidant contre un homme de haut parage,
de meilleure noblesse qu'un vavasseur
et, en agissant ainsi, elle commet une folie.
On dit en Velay
que l'amour ne s'accommode pas de l'orgueil,
et je tiens pour déshonorée
la dame qui se distingue de cette manière.

Je possède un ami de grand mérite
qui surpasse tout le monde en noblesse ;
ne me montre pas un cœur infidèle
celui qui m'accorde son amour.
J'affirme que mon amour lui revient,
à qui prétend le contraire
que Dieu donne mauvaise fortune,
ar je me sens fort bien protégée.

Bel ami, bien volontiers
je me suis engagée avec vous pour toujours,
courtoise et de belles manières,
à condition que vous ne me réclamiez rien de déshonorant.
Nous en arriverons bientôt à l'essai
où je me mettrai à votre merci ;
vous m'avez fait la promesse
que vous ne me demanderez pas de faillir [à l'honneur].

A Dieu je recommande Beau-Regard
et plus encore la cité d'Orange,
la Gloriette et le château,
et le seigneur de Provence,
et tous ceux qui là-bas veulent mon bien,
et l'arc où sont représentés les exploits
J'ai perdu celui qui détient ma vie,
j'en resterai à jamais affligée.

Jongleur, vous qui avez le cœur gai,
du côté de Narbonne, portez là-bas
ma chanson avec sa chute
à celle à qui Joie et Jeunesse servent de guides.


Azalaïs de Porcairagues
Trata-se de uma das poucas mulheres trovadoras do século XII, de quem sobreviveu até aos dias de hoje apenas um poema, escrito em occitano (provençal), que aqui se apresenta numa tradução para francês moderno.
pintura de Jacek Malczewski

[Nada mais belo e difícil]





















Nada mais belo e difícil
que os olhos de alguém que olha
assim transformando o mundo
em quarto nunca habitado
e em cama sempre estranha.

Se a cobra nos morde a cauda
e a obra nos morde a corda
por instantes quero ver
como quem já só acorda
por excepção e não por regra.

Do invisível vestida
te arrenego castidade
do destino abusadora.
Pois moro dentro do corpo
onde me aperta a demora.

Regina Guimarães
Cadernos do Eclipse 2 (novembro 2008 a janeiro 2009)
2013, ed. Helastre
imagem de Igor Kozlovsky e Marina Sharapova

A Minha Rua


Uma velha invisível trauteando
no reduto a que chama seu jardim
juízos, juras, injúrias,
sem começo meio ou fim.

Fala de um amor refém
ganindo como se visse
entrar em si o ladrão
sem poder escapulir-se

Da mulher que não tem filhos
se diz que não alcançou...
Que dizer desta surpresa
de só conhecer na vida
as cordas do estendal
esticadas em sobrecarga
para que jamais se enrede
seu cordão umbilical?

Regina Guimarães
Cadenos do Eclipse 1 (junho a outubro de 2008)
2013, ed. Hélastre
pintura de Dario Puggioni