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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Eléctrico


XI


(Que vontade de esbofetear estes palermas
a meu lado nos cafés e nos eléctricos, a
fingirem Vida Acesa!)


Antes os mortos hirtos, de pé, por dentro dos ciprestes
a beijarem a caveira da lua,
do que estes, do que estes
a nosso lado na rua.

São mortos sem cemitério,
mortos da Morte Arrefecida
_a quem tiraram todo o mistério
para lhe chamarem vida.

José Gomes Ferreira
Eléctrico
1956, Iniciativas editoriais
pintura de James Ensor

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Elegia Fria (com lírios inventados)



I

(Enterraram-no hoje e volto a correr para
casa. Oxalá ninguém tenha reparado nos meus
olhos secos e gelados. Solidão.)


Meti a chave na fechadura,
abri a noite
e entrei no palco onde me espero
a chorar nos espelhos
desgrenhado pelos subterrâneos do vento
da treva impura.

Solidão é teatro,
dor que se despenteia
e só parece sincera
quando a represento
diante dos mortos com insónias
sentados na plateia.

José Gomes Ferreira
Poesia IV
1970, ed. Portugália
vídeo com fotografias vitorianas post-mortem

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Cabaré VI



Olho-me ao espelho,
enredo de lâmpadas e chamas do outro lado
na tontura de melodias às avessas
dos cristais do ruído...


Olho-me ao espelho
e vejo-me a cantar
-sim, a cantar!-
com três bocas na cara,
quentes do entusiasmo vazio
dos violinos do silêncio...


(Homens: porque não nasci apenas no espelho,
sem alma deste lado?)

José Gomes Ferreira
Poesia I
1948, ed. Portugália
imagem de Julião Sarmento