Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Canção para o dia igual






















maria pobre de corpo
não tem mãos

ainda agora nasceu
não tem mãos

maria pobre de corpo
não tem cabelos

viajam no vento as tranças
com selos de nostalgia

maria pobre de corpo
entorna os braços pelo dia

longo ritmo de sede
e vida maria

Luiza Neto Jorge
A Noite Vertebrada
1960, ed. autora, col. A Palavra
desenho de Daniela Gomes

terça-feira, 16 de abril de 2013

Dois poemas de Eduarda Chiote


NA MORTE ESTÁ DOENDO INCRIVELMENTE

Vontade de ter perdido a vontade,
acabei por me enfiar por um corredor à minha procura,
a enfermaria usava nesse dia chinelos azuis e bata da mesma cor,
emocionei-me com os meus passos
no céu
e desejei que as seringas me recusassem as veias: a porta do quarto 
                                                       [entreaberta sorriu-me
como se ela mesma tomada de espanto
me garantisse nada é tão terrível como imaginas,
evadiste-te.
E já nem os teus
órgãos _em tempestade. O vidro do soro balançava no vazio
como quando as minhas palavras gota
a gota.
Quero agora esquecer que há poemas com muitas receitas,
contas por pagar,
unhas que se esgotam
nos dedos; páginas separadas do livro _são as contingências,
as contingências.
Nada pode ser assim tão ruim: tive alta, mas aqui,
na morte,
está doendo incrivelmente.
«A vida corrói mesmo»,
é uma iniquidade, uma iniquidade: tornei-me tão
insuficiente
que se ninguém
aparecer
não tem importância nenhuma.
Só te peço que guardes de mim uma pequena recordação, pois nela
permaneceremos: a tua escrita e a minha
autobiografia


O POTENCIAR DO REAL

Fica em silêncio. Escuta. Ouve o que te digo.
Não duro sempre. Não duro
sempre. Hoje, vi um morto. Constatei
caber dentro dele: o cancro (observei-o do caixão)
foi o seu melhor amigo: o único que sofreu
a mesma dor.

Órgãos Epistolares
2011, ed. Afrontamento
fotografia de Peter Hujar

Naufrágio


No fundo do mar,
perdidos,
estão os sonhos,
dia a dia, inutilmente, dobados.
Carne de medusa,
lacerada pelos corais,
oculta entre as algas,
quem poderá sabê-los?
ou encontrá-los?

Luísa Dacosta
A Maresia e o Sargaço dos Dias
2002, ed. Asa
pintura de Luis Caballero

quinta-feira, 11 de abril de 2013

'Modo Mudando' de Vasco Graça Moura, 50 anos depois

A par de um percurso literário bastante intensivo, em particular na poesia, Vasco Graça Moura tem sido conhecido também, ou nalguns casos principalmente, pela sua participação na política portuguesa e pelo seu trabalho ligado a várias instituições como a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, a Gulbenkian e, mais recentemente, o CCB, entre outras.
Da sua bibliografia, poder-se-iam destacar vários títulos, mas a atenção, por norma, recai sobre livros como ‘A Furiosa Paixão Pelo Tangível’ (1987), ‘Uma Carta no Inverno’ (1997), ‘Poemas Com Pessoas’ (1997) ou ‘Laocoonte, Rimas Várias, Andamentos Graves’ (2005), livros mais recentes para um autor que publica os seus primeiros livros a partir do princípio da década de 60.
Uma leitura de livros mais recentes de Vasco Graça Moura revela-nos alguns fios condutores na poesia do autor: uma reinvenção das estruturas clássicas, a utilização simultânea de léxicos eruditos e quotidianos, o diálogo constante com as artes plásticas e a música, o rigor rítmico, a preocupação política e um jogo obsessivo com o real, que passa pela sua transformação, pela sua reinvenção e pelo processo denso e complexo que liga o real ao poético.


Em 2013 assinalam-se os 50 anos de produção literária de Vasco Graça Moura, assinalados tanto pela edição em dois volumes da sua ‘Poesia Reunida’ como pelo livro de ensaios ‘Discursos Vários Poéticos’. Será uma boa ocasião, talvez, para revisitar o primeiro livro do autor, ‘Modo Mudando’, cuja primeira edição, do autor, de 1963, é recordada num dos melhores poemas de ‘O Concerto Campestre’ (1993).
‘Modo Mudando’ é um conjunto de 40 poemas (38 dos quais estão presentes no primeiro volume da ‘Poesia Reunida’.) que abrem com uma citação de T.S. Elliot:

So here I am (…)
(…)
Trying to learn to use words (…)

ideia que é talvez tutelar neste primeiro livro. Tutelar porque, dela, se podem extrair dois conceitos básicos, ambos muito presentes nestes poemas: por um lado as palavras, enquanto elementos específicos de valor próprio, e, por outro, as experimentações com esses elementos e com os seus valores.
Os poemas, ora longos e torrenciais, ora breves e contidos, contêm imagens fortes e contundentes que se conseguem, essencialmente, pelo isolamento de certas palavras, que ficam como que suspensas num verso, ganhando significação própria e, com ela, um poder transformador sobre a imagem de que falam.

imprevista   magnética
elástica
             como novelos
surgiste com novo ser
do sábio jogo dos membros

lemos em a contorcionista. Outro exemplo deste isolamento transformador pode encontrar-se em tu, entre poemas:

refluem como alíseos    ou gaivotas
esvoaçam como folhas    ou cabelos

lisos   ovais   a seixos
se assemelham

Neste aspecto, a poesia de Graça Moura nos pareceria, em 1963, perfeitamente alinhada com as experiências do ‘Poesia 61’, bem como com as experiências que, na década de 50, surgiram com o Surrealismo e a Poesia Concreta. No soneto nova meditação sobre a palavra, encontramos esta ideia que pode confirmar essa herança

assim a palavra se prestasse
ao jade    ao jogo    ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka

assim nunca o poema se traísse
na trama aleatória de uma aposta
perdida    no seu hábil mecanismo
traria o juro ao artesão que o monta

                trata-se, de facto, de uma herança e não de uma filiação. Isto porque a poesia de Graça Moura, nesta altura ainda em fase inicial, parece aceitar uma certa estranheza e a justaposição de imagens e linguagens aparentemente opostas, mas sabe evitar os excessos em que muitas vezes caíram as experiências da poesia Surrealista e, talvez mais ainda, da Concreta. Ao longo de ‘Modo Mudando’ sente-se vários ecos mais eruditos, não só através da reincidência na forma do soneto, como também numa série de pequenos detalhes em que há uma espécie de piscar de olhos a um certo classicismo (Exemplo disso são poemas como para a poesia da água guardada, still life and da vinci ou mordaz mordendo.). Este conhecimento profundo da história da poesia, que haveria de proporcionar livros tão impressionantes como ‘Quatro Sextinas’ (1973), as ‘Sequências Regulares’ (1978) ou os ‘Sonetos Familiares’ (1995) só para citar os exemplos mais evidentes, é precisamente aquilo que impede Vasco Graça Moura de, nestes poemas, se deixar levar pelo erro do non-sense abstracto que votou ao fracasso as experiências de vários autores nas correntes já citadas.


                Anos depois deste livro, em um cão para pompeia do livro ‘A Furiosa Paixão Pelo Tangível’, diz o autor, com refrescante ironia:

«você é um cerebral», disse-me cloé, flava e enervada.
«sim», disse-lhe eu com prudência, «mas há tantos,
e o amor e a morte sempre foram pensáveis».

e é interessante constatar como, no primeiro livro, estes princípios são já notórios. Já nestes primeiros poemas, Graça Moura, ainda que por vezes apaixonado, se revela também extremamente cerebral e, diga-se, também bastante irónico por vezes. Não falta a ‘Modo Mudando’ uma carga emotiva (Leia-se um poema como substância.), mas a todo o momento ressalta dos poemas uma carga intelectualizada, muitas vezes conseguida através da aspereza das próprias palavras que tornam a leitura quase agreste, e também uma carga algo sarcástica, uma espécie de desvio em relação àquela emotividade, quando esta parece prestes a aproximar-se do sentimentalismo (O caso do poema to a murdered girl é um dos mais claros.).
Para finalizar esta nota, penso que seria interessante pensar no poema inaugural de Graça Moura, chamado precisamente poema,

silenciosamente aproximo-me do poema
circundo-o duma palavra     faço nela
uma incisão deliberada

e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique

de resina   ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce    ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro    liso    adstringente   sinuoso

mas
todo o poema é perfeitamente impuro

funciona como uma espécie de arte poética cujos princípios são ainda os da poesia do autor, mesmo da mais actual que, afinal, tão distante parece estar deste primeiro livro. No entanto, nestes poucos versos, está presente a ligação do real com a escrita poética, a infecção que esta sofre e que vai ampliá-la, e essa impureza que faz parte do poema e cujos sentidos parecem variar de texto para texto mas que, no geral, parece ser um símbolo de como o poema se encontra entre duas realidades: uma a do real propriamente dito e outra a do real poético. Impuro, o poema pode ser, então, o lugar entre os dois, que nos permite oscilar de um para o outro. Não nos esqueçamos que, ao infectar, a ferida que vem do poema frutifica, enriquece-nos.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

[ponho palavras onde vou morrer]


ponho palavras onde vou morrer
e estremeço porque a vida se dissipa
como água derramada no soalho

entre muitas outras coisas escrever
é procurar nos confins

além tempo e sucessão de espaços
a demorada nomenclatura do efémero

Miguel-Manso
Aqui Podia Viver Gente
2012, ed. Primeiro Passo
fotografia de Helena Almeida


sexta-feira, 22 de março de 2013

Harmonia das Esferas


Pelas grades das persianas a lua cheia desembolsa
Em pleno no meu quarto, vómitos jorram até manchar a cama.
Nela deitado ardo como um olho que nunca mais pode fechar,
Uma pequena poça de carne, um órfão do tamanho de uma orelha.

Lá em baixo adolescentes dão estoiros nas garagens, expõem
Com gritos as partes pudendas niqueladas num regaço
De tijolo, dão cabo das janelas e matraqueiam com taipais
Para chatear a noite, mais o bairro, toda a danada da criação.

Mais tarde o torturante gotejar dos segundos
Nas goteiras de zinco. Tlipe. Tlipe. Plom. E lá ao fundo
Nos jardins carbonizados e ermos
A invisibilidade uivante dos gatos no cio.

Desde que moro aqui, mando longas cartas
Para a casa anterior. Lá, podia dormir, vigiar, silêncio
E escuridão aí reinavam, como no sedutor vazio rítmico
E opressivo de poemas por escrever.

Leonard Nolens
trad. do neerlandês flamengo por Catherine Barel
Uma Migalha na Saia do Universo (Antologia de Poesia Neerlandesa  do Século Vinte)
ed. Assírio e Alvim
pintura de Isabel de Sá

terça-feira, 5 de março de 2013

Sextina


Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por caso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de ante os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Pois nunca uma hora viu tão longa vida
Em que possa do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que choro? Enfim, para que falo?
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos, gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena
Quanta se não compreende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
De vós me inda inflamasse o raio vivo,
Por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me há de vir a cerrar os tristes olhos,
Que Amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
Que escreverão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
Vejo tão triste género de vida
Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a pena
Que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho um contínuo fogo vivo,
Que, se não respirasse no que falo,
Estaria já feita cinza a pena;
Mas, sobre a maior dor que sofro e passo,
Me temperam as lágrimas dos olhos;
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.


Luís de Camões
pintura de Michele del Campo

segunda-feira, 4 de março de 2013

Regina Guimarães/ Ana Deus: Roupa Anterior

Justamente a dimensão de letrista de Regina Guimarães parece ser o seu lado mais divulgado. Desde as primeiras experiências nos Três Tristes Tigres, Regina já escreveu letras para os Clã, os Osso Vaidoso, os Nadadores de Inverno, entre outros projectos, muitos deles a par com Ana Deus
Tendo a publicação em livro da poesia de Regina conhecido uma publicação mais regular nos últimos anos (O que, de resto, é de louvar, uma vez que se trata de uma das vozes mais originais da poesia portuguesa surgida nos anos 80.), é interessante o trabalho mais recente da escritora, este também a par com Ana Deus.

'Roupa Anterior' é um pequeno livro manufacturado, que reúne algumas letras de Regina Guimarães interpretadas em vários projectos por Ana Deus. Mais do que compilar trabalhos musicais, esta pequena mixtape escrita e gravada junta uma série de canções feitas para filmes e espectáculos, sendo, portanto, trabalhos eventualmente mais difíceis de encontrar. Lançado no Porto e em Lisboa, o livro/CD é montado pelas autoras, com imagens de Paulo Anciães Monteiro à mistura, sendo, portanto, cada exemplar único e manuscrito.





domingo, 3 de março de 2013

Infância e Palavra



No princípio, era o Verbo _pelo menos na minha infância, toda caldeada pelo encantamento da palavra.
A palavra, lengalengada, d' a pintinha põe o ovo prà menina papar todo_ das brincadeiras com que se dava à criança a consciência do rosto e das mãos, esta barba, barbadeira, esta boca, comedeira, este nariz, narizete, estes olhos de pisquete, esta testa, de giesta, este cabelinho, que não é loiro, foge, menina, que te estoiro!, que terminavam, depois de corrido todo o rosto, com uma sapatadinha na testa. Havia também o varre, varre, vassourinha, se varreres bem, dou-te um vintém, se varreres mal, nem um real_ e, pumba!, uma palmada na mão, porque, não sei porquê, se supunha sempre que a vassourinha não varria a preceito. Muito da minha predilecção era o serrobico, bico, bico, todo feito de beliscõezinhos nas costas da mão, enquanto a lengalenga ia acabando quem te deu tamanho bico, foi a velha chocalheira, que anda lá pela ribeira a apanhar ovos de perdiz para o filho do juiz, que está preso pelo nariz_ e era o nosso que se puxava no fim.
Depois, havia a palavra mimenta, tão doce e cheia de ternura! Inspirava-se nos passarinhos e no perfume das maçãs: _Minha carricinha, inquieta! Minha maçãzinha de pardo lindo. A noite trazia a palavra musical das últimas orações:

Anjo da Guarda,
minha companhia,
guardai minha alma
de noite e de dia.

A palavra-mistério, de sons desconhecidos, que estabelecia a ligação com o divino, ouvia-se no latim da missa: Dominus Tecum! Sursum corda! E na ladainha: Turris eburnea, Stela Matutina...
Quando tínhamos de ficar na cama, por sarampo ou constipação, havia a palavra fascinante e narcisíaca dos contos de fadas_ Espelho meu, espelho meu, haverá no mundo alguém mais belo do que eu? _e que podia tornar-se maléfica: _Quem isto ouvir e o for contar, em pedra se há-de tornar! Ou a palavra viva e popular das histórias tradicionais, muito do gosto de minha mãe, cheias de mãos a abanar, sem eira nem beira, mas espertalhotes, capazes de comer as papas na cabeça dos reis e de casarem com as princesas. Ai, como me lembro delas!
A palavra dos jogos tinha duas faces: uma de perder, outra de ganhar. Ferrum-fum-fum, ferrum-funfelho, quantas abelhas há no cortelho? Aqui vai uma barquinha carregadinha de aves, de abraços, de beijos... Quando se perdia, por falta de resposta pronta, dava-se prenda e no fim recorria-se ao senhor juiz sentenciador, que sentença se há-de dar ao dono desta prenda, seja ela de quem for? Juiz que, às vezes, ordenava, romântica e comprometedoramente, que se perguntasse:
_Se o meu coração fosse um bosque, quem mandavas lá passear?
Mas menina não gosta de estar sempre quieta. Menina corropia de roda. E a palavra das cantigas era dançante e anunciava o amor:
_Machadinha, minha machadinha,
quem te pôs a mão sabendo que és minha?
Havia também a Condessa-condessinha, condessa-do-Aragão, a que não dava as filhas nem por ouro, nem por prata, nem por sangue de leão, nem por sangue de lagarta. O cavaleiro tinha de dar provas, antes de poder dizer:

_Estimo e estimarei,
sentada numa almofada,
a fiar continhas de ouro,
salta cá, minha esposada!

Na infância era fácil acreditar que Deus tinha criado o mundo pela palavra. Que a luz seja! E a luz foi. Pelo poder da palavra tinha Xerazade conseguido adiar, por mil e uma noites e depois para todo o sempre, a sentença de morte que pesava sobre ela. A palavra foi para mim uma segunda placenta, aconchegante, onde na adolescência irrompeu o deslumbramento por dois poetas: Cecília Meireles, com o seu recorte visual, e Camilo Pessanha, com a água, morrente, do tempo a esvair-se na própria água do poema. E a palavra-poética tornou-se para mim a palavra-ninho, porque é realidade e é símbolo, a mais significante, polissémica no mesmo contexto, a mais texturada de conotações, e a que não admite sinónimos, já que é insubstituível. Por ela soube que a palavra é, ao mesmo tempo, música e canto e soluço _e o milagre mais próximo do bafo e do coração humano.

Luísa Dacosta
Infânica e Palavra
2001, ed. Asa
desenho de Maria Keil

sábado, 2 de março de 2013

A Terceira Miséria


32.
                                      Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos,
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou.
Oh, os amigos, os abandonados,
Esses, os desatinados ao extermínio,
Esses os belos despojados, nus,
Os que, mesmo nascendo no Inverno,
Pouco sabem do frio, gente que dorme
Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
Das cigarras, o canto sobre o qual
Hesíodo escreveu. Gente do Sul
Gente que um dia se desnorteou.


33.
De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Hélia Correia
A Terceira Miséria
2012, ed. Relógio d'Água
pintura de Paula Rego

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Florbela Espanca (algumas fotografias)


 
Florbela e o primeiro marido, Alberto Moutinho. Foram casados entre 1913 e 1921

António Guimarães, o segundo marido, com quem Florbela esteve casada entre 1921 e 1925

O terceiro marido, Mário Lage. O casamento durou de 1925 até 1930, ano em que Florbela se suicida.

Apeles Espanca, o irmão mais novo de Florbela, a quem é dedicado o ''Livro de Mágoas'' (1919). Apeles morre em 1927. Florbela escreve, em sua memória, o livro de contos ''As Máscaras do Destino'', editado postumamente em 1931.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quando os dias se movem


usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
e se escolheu os limites para a pele aderir

no fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas
e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparêcia (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

e contudo se movem se quem amamos fere
e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginário
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando

Vasco Graça Moura
Instrumentos para a Melancolia
1980, ed. O Oiro do Dia
pintura de Mário Botas

sábado, 9 de fevereiro de 2013

[de cima, de antes, de mais fundo]


de cima, de antes, de mais fundo
me suspendo, de um jardim, de um espelho
em reflexão, de um automóvel em corrida,
de mais fundo me suspendo, internamente,
de antes, de cima, do mais fundo estado,
como um dente a entrar no alimento,
como um rio a entrar no estado sólido,
recônditamente entro, reconcentro
os vários sítios no meu centro,
em reflexão.

Luiza Neto Jorge
O Seu a Seu Tempo
1966, ed. Ulisseia
gravura de Francisco Goya y Luycientes

Todos por Um


A manhã está triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza

Santos
Mártires
e Heróis

Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de recorrer à vala comum.

Mário Cesariny de Vasconcelos
Nobilíssima Visão
3a edição Assírio e Alvim,  1991
pintura de Kazemir Malevich

Decomposição das Almas


A eternidade começa na decomposição pessoal.
Quando era pequena as galinhas que passavam
sem cabeça pareciam dirigir-se a qualquer lado.
Iam apressadas na ignorância de que as galinhas mortas
estão fora do tempo porque a eternidade
só decompõe a alma.  Sacrificam-nas pelo pescoço
e o sangue espalhado guarda-se numa bacia.
Não se serve em cálice, que as galinhas não são crucificadas.
Mas graças a ti todos os dias ressuscitam no aviário.
Tal como tu, Senhor, elas também não ocupam espaço.

Rosa Alice Branco
O Gado do Senhor
2009, ed. Espiral Maior
pintura de Theodore Géricaut

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Eléctrico


XI


(Que vontade de esbofetear estes palermas
a meu lado nos cafés e nos eléctricos, a
fingirem Vida Acesa!)


Antes os mortos hirtos, de pé, por dentro dos ciprestes
a beijarem a caveira da lua,
do que estes, do que estes
a nosso lado na rua.

São mortos sem cemitério,
mortos da Morte Arrefecida
_a quem tiraram todo o mistério
para lhe chamarem vida.

José Gomes Ferreira
Eléctrico
1956, Iniciativas editoriais
pintura de James Ensor

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Para Sophia


Lua branca da madrugada
pousaste teu cinto na terra
e o mar te veio buscar.

Já lá estavas, de lá enviaste
as palavras que um tempo
fora do tempo te tinha dado
e nós à espera desse momento
alado, em que as tuas letras transformassem
linhas pretas num campo iluminado.

Agora estás lá dentro, agora desde que a lua
e o mar se unem e fazem as marés
mas só alguns o sabem, tu soubeste e
nisso és.

Voltaste à terra branca, e na cidade
um sino bate a hora como se o dia
de hoje apagasse um foco incendiário.

Teu fogo porém vivo, é de outra chama
e a cama onde te deitas, doutra cambraia
e a praia onde te banhas, de outra
água.



Lídia Jorge

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

«I Am Christina Rossetti»



Hoje comemorar-se-ia o aniversário da escritora britânica Virginia Woolf, autora conhecida por romances como 'Mrs. Dalloway', 'Orlando' ou 'Os Anos'. Ainda que tenha sido reconhecida essencialmente como romancista, a vários títulos revolucionária, Woolf foi também autora de vários contos, ensaios e reflexões.
Um pouco para celebrar esta sua data, pensei em transcrever um texto do livro 'The Common Reader', escrito em 1930, quando precisamente se celebravam os 100 anos sobre o nascimento da minha poeta preferida, Christina Rossetti [1830-1896], sobre quem Virginia fala com uma actualidade impressionante para a época, e a quem se dirige directamente.


On the fifth of this December Christina Rossetti will celebrate her centenary, or, more properly speaking, we shall celebrate it for her, and perhaps not a little to her distress, for she was one of the shyest of women, and to be spoken of, as we shall certainly speak of her, would have caused her acute discomfort. Nevertheless, it is inevitable; centenaries are inexorable; talk of her we must. We shall read her life; we shall read her letters; we shall study her portraits, speculate about her diseases — of which she had a great variety; and rattle the drawers of her writing-table, which are for the most part empty. Let us begin with the biography — for what could be more amusing? As everybody knows, the fascination of reading biographies is irresistible. No sooner have we opened the pages of Miss Sandars’s careful and competent book (Life of Christina Rossetti, by Mary F. Sandars. (Hutchinson)) than the old illusion comes over us. Here is the past and all its inhabitants miraculously sealed as in a magic tank; all we have to do is to look and to listen and to listen and to look and soon the little figures — for they are rather under life size — will begin to move and to speak, and as they move we shall arrange them in all sorts of patterns of which they were ignorant, for they thought when they were alive that they could go where they liked; and as they speak we shall read into their sayings all kinds of meanings which never struck them, for they believed when they were alive that they said straight off whatever came into their heads. But once you are in a biography all is different.
Here, then, is Hallam Street, Portland Place, about the year 1830; and here are the Rossettis, an Italian family consisting of father and mother and four small children. The street was unfashionable and the home rather poverty-stricken; but the poverty did not matter, for, being foreigners, the Rossettis did not care much about the customs and conventions of the usual middle-class British family. They kept themselves to themselves, dressed as they liked, entertained Italian exiles, among them organ-grinders and other distressed compatriots, and made ends meet by teaching and writing and other odd jobs. By degrees Christina detached herself from the family group. It is plain that she was a quiet and observant child, with her own way of life already fixed in her head — she was to write — but all the more did she admire the superior competence of her elders. Soon we begin to surround her with a few friends and to endow her with a few characteristics. She detested parties. She dressed anyhow. She liked her brother’s friends and little gatherings of young artists and poets who were to reform the world, rather to her amusement, for although so sedate, she was also whimsical and freakish, and liked making fun of people who took themselves with egotistic solemnity. And though she meant to be a poet she had very little of the vanity and stress of young poets; her verses seem to have formed themselves whole and entire in her head, and she did not worry very much what was said of them because in her own mind she knew that they were good. She had also immense powers of admiration — for her mother, for example, who was so quiet, and so sagacious, so simple and so sincere; and for her elder sister Maria, who had no taste for painting or for poetry, but was, for that very reason, perhaps more vigorous and effective in daily life. For example, Maria always refused to visit the Mummy Room at the British Museum because, she said, the Day of Resurrection might suddenly dawn and it would be very unseemly if the corpses had to put on immortality under the gaze of mere sight-seers — a reflection which had not struck Christina, but seemed to her admirable. Here, of course, we, who are outside the tank, enjoy a hearty laugh, but Christina, who is inside the tank and exposed to all its heats and currents, thought her sister’s conduct worthy of the highest respect. Indeed, if we look at her a little more closely we shall see that something dark and hard, like a kernel, had already formed in the centre of Christina Rossetti’s being.
It was religion, of course. Even when she was quite a girl her lifelong absorption in the relation of the soul with God had taken possession of her. Her sixty-four years might seem outwardly spent in Hallam Street and Endsleigh Gardens and Torrington Square, but in reality she dwelt in some curious region where the spirit strives towards an unseen God — in her case, a dark God, a harsh God — a God who decreed that all the pleasures of the world were hateful to Him. The theatre was hateful, the opera was hateful, nakedness was hateful — when her friend Miss Thompson painted naked figures in her pictures she had to tell Christina that they were fairies, but Christina saw through the imposture — everything in Christina’s life radiated from that knot of agony and intensity in the centre. Her belief regulated her life in the smallest particulars. It taught her that chess was wrong, but that whist and cribbage did not matter. But also it interfered in the most tremendous questions of her heart. There was a young painter called James Collinson, and she loved James Collinson and he loved her, but he was a Roman Catholic and so she refused him. Obligingly he became a member of the Church of England, and she accepted him. Vacillating, however, for he was a slippery man, he wobbled back to Rome, and Christina, though it broke her heart and for ever shadowed her life, cancelled the engagement. Years afterwards another, and it seems better founded, prospect of happiness presented itself. Charles Cayley proposed to her. But alas, this abstract and erudite man who shuffled about the world in a state of absent-minded dishabille, and translated the gospel into Iroquois, and asked smart ladies at a party “whether they were interested in the Gulf Stream”, and for a present gave Christina a sea mouse preserved in spirits, was, not unnaturally, a free thinker. Him, too, Christina put from her. Though “no woman ever loved a man more deeply”, she would not be the wife of a sceptic. She who loved the “obtuse and furry”— the wombats, toads, and mice of the earth — and called Charles Cayley “my blindest buzzard, my special mole”, admitted no moles, wombats, buzzards, or Cayleys to her heaven.
So one might go on looking and listening for ever. There is no limit to the strangeness, amusement, and oddity of the past sealed in a tank. But just as we are wondering which cranny of this extraordinary territory to explore next, the principal figure intervenes. It is as if a fish, whose unconscious gyrations we had been watching in and out of reeds, round and round rocks, suddenly dashed at the glass and broke it. A tea-party is the occasion. For some reason Christina went to a party given by Mrs. Virtue Tebbs. What happened there is unknown — perhaps something was said in a casual, frivolous, tea-party way about poetry. At any rate,
suddenly there uprose from a chair and paced forward into the centre of the room a little woman dressed in black, who announced solemnly, “I am Christina Rossetti!” and having so said, returned to her chair.
With those words the glass is broken. Yes [she seems to say], I am a poet. You who pretend to honour my centenary are no better than the idle people at Mrs. Tebb’s tea-party. Here you are rambling among unimportant trifles, rattling my writing-table drawers, making fun of the Mummies and Maria and my love affairs when all I care for you to know is here. Behold this green volume. It is a copy of my collected works. It costs four shillings and sixpence. Read that. And so she returns to her chair.
How absolute and unaccommodating these poets are! Poetry, they say, has nothing to do with life. Mummies and wombats, Hallam Street and omnibuses, James Collinson and Charles Cayley, sea mice and Mrs. Virtue Tebbs, Torrington Square and Endsleigh Gardens, even the vagaries of religious belief, are irrelevant, extraneous, superfluous, unreal. It is poetry that matters. The only question of any interest is whether that poetry is good or bad. But this question of poetry, one might point out if only to gain time, is one of the greatest difficulty. Very little of value has been said about poetry since the world began. The judgment of contemporaries is almost always wrong. For example, most of the poems which figure in Christina Rossetti’s complete works were rejected by editors. Her annual income from her poetry was for many years about ten pounds. On the other hand, the works of Jean Ingelow, as she noted sardonically, went into eight editions. There were, of course, among her contemporaries one or two poets and one or two critics whose judgment must be respectfully consulted. But what very different impressions they seem to gather from the same works — by what different standards they judge! For instance, when Swinburne read her poetry he exclaimed: “I have always thought that nothing more glorious in poetry has ever been written”, and went on to say of her New Year Hymn that it was
touched as with the fire and bathed as in the light of sunbeams, tuned as to chords and cadences of refluent sea-music beyond reach of harp and organ, large echoes of the serene and sonorous tides of heaven
Then Professor Saintsbury comes with his vast learning, and examines Goblin Market, and reports that
The metre of the principal poem [“Goblin Market”] may be best described as a dedoggerelised Skeltonic, with the gathered music of the various metrical progress since Spenser, utilised in the place of the wooden rattling of the followers of Chaucer. There may be discerned in it the same inclination towards line irregularity which has broken out, at different times, in the Pindaric of the late seventeenth and earlier eighteenth centuries, and in the rhymelessness of Sayers earlier and of Mr. Arnold later.
And then there is Sir Walter Raleigh:
I think she is the best poet alive. . . . The worst of it is you cannot lecture on really pure poetry any more than you can talk about the ingredients of pure water — it is adulterated, methylated, sanded poetry that makes the best lectures. The only thing that Christina makes me want to do, is cry, not lecture.
It would appear, then, that there are at least three schools of criticism: the refluent sea-music school; the line-irregularity school, and the school that bids one not criticise but cry. This is confusing; if we follow them all we shall only come to grief. Better perhaps read for oneself, expose the mind bare to the poem, and transcribe in all its haste and imperfection whatever may be the result of the impact. In this case it might run something as follows: O Christina Rossetti, I have humbly to confess that though I know many of your poems by heart, I have not read your works from cover to cover. I have not followed your course and traced your development. I doubt indeed that you developed very much. You were an instinctive poet. You saw the world from the same angle always. Years and the traffic of the mind with men and books did not affect you in the least. You carefully ignored any book that could shake your faith or any human being who could trouble your instincts. You were wise perhaps. Your instinct was so sure, so direct, so intense that it produced poems that sing like music in one’s ears — like a melody by Mozart or an air by Gluck. Yet for all its symmetry, yours was a complex song. When you struck your harp many strings sounded together. Like all instinctives you had a keen sense of the visual beauty of the world. Your poems are full of gold dust and “sweet geraniums’ varied brightness”; your eye noted incessantly how rushes are “velvet-headed”, and lizards have a “strange metallic mail”— your eye, indeed, observed with a sensual pre-Raphaelite intensity that must have surprised Christina the Anglo-Catholic. But to her you owed perhaps the fixity and sadness of your muse. The pressure of a tremendous faith circles and clamps together these little songs. Perhaps they owe to it their solidity. Certainly they owe to it their sadness — your God was a harsh God, your heavenly crown was set with thorns. No sooner have you feasted on beauty with your eyes than your mind tells you that beauty is vain and beauty passes. Death, oblivion, and rest lap round your songs with their dark wave. And then, incongruously, a sound of scurrying and laughter is heard. There is the patter of animals’ feet and the odd guttural notes of rooks and the snufflings of obtuse furry animals grunting and nosing. For you were not a pure saint by any means. You pulled legs; you tweaked noses. You were at war with all humbug and pretence. Modest as you were, still you were drastic, sure of your gift, convinced of your vision. A firm hand pruned your lines; a sharp ear tested their music. Nothing soft, otiose, irrelevant cumbered your pages. In a word, you were an artist. And thus was kept open, even when you wrote idly, tinkling bells for your own diversion, a pathway for the descent of that fiery visitant who came now and then and fused your lines into that indissoluble connection which no hand can put asunder:
But bring me poppies brimmed with sleepy death
And ivy choking what it garlandeth
And primroses that open to the moon.
Indeed so strange is the constitution of things, and so great the miracle of poetry, that some of the poems you wrote in your little back room will be found adhering in perfect symmetry when the Albert Memorial is dust and tinsel. Our remote posterity will be singing:
When I am dead, my dearest,
or:
My heart is like a singing bird,
when Torrington Square is a reef of coral perhaps and the fishes shoot in and out where your bedroom window used to be; or perhaps the forest will have reclaimed those pavements and the wombat and the ratel will be shuffling on soft, uncertain feet among the green undergrowth that will then tangle the area railings. In view of all this, and to return to your biography, had I been present when Mrs. Virtue Tebbs gave her party, and had a short elderly woman in black risen to her feet and advanced to the middle of the room, I should certainly have committed some indiscretion — have broken a paper-knife or smashed a tea-cup in the awkward ardour of my admiration when she said, “I am Christina Rossetti”.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A Pequena Morte (9)


Pode a serenidade destas rosas
atravessar a noite
sem que a esfolhem
os comovidos ares?

Sem que este perigo
_este sabor a perigo_
empalideça as mais
sombrias pétalas?

Ou esperarão, acaso,
com seus olhos
impotentes de flor,
com seu disforme e pútrido
alimento,
esperarão, inclinados,
exalando perfumes tumulares?

Vigiarão teu cerco, salivando,
escorrendo ânsias carnais;
seguirão o teu corpo,
palpitando
inchadas como um sexo
ouvindo as garras?

Assistindo ao amor,
aos instrumentos
e paixões do amor,
à crueldade,

mordem, pedindo sangue,
essas obscenas,
ferozes bocas:

com sua antiga vocação
de rosas
_a de vestir
cadáveres,
a de ornar
os vencidos despojos,
virão, sorrindo,
sobre a minha morte.

Hélia Correia
A Pequena Morte
(publicado com 'Esse Eterno Canto' de Jaime Rocha)
1986, ed. Black Sun
pintura de Constant Montald

domingo, 30 de dezembro de 2012

À Force de les Voir


À force de les voir
Il y a des mots qui vous rendraient malades
Des mots connus mais très dangereux à manier
Sauf si on les entoure de musique
On met bien du sucre autour de amandes amères
Des mots comme sable, herbe
Comme soleil, comme étendus côte à côte
Comme peau dorée, comme cheveux blonds
Comme dents brillantes et lèvres salées
Et puis d'autre mots, encore plus dangereux
" Personne à l'horizon, on peut y aller "
Et les plus dangereux de tous :
" C'est encore meilleur la cinquième fois. "
Heureusement, des tripotées de vieux zingues
Fabriquent de la phénoménologie à tire-larigot
Et vous balancent des bombes atomiques par le travers de la gueule...
Je m'excuse... le souffle de l'inspiration...
C'est pas tous les jours que la muse vous visite.


Boris Vian
Cantilènes en Gelée
1949, ed. Rougerie
desenho de Henri Michaux