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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Lacrimatória 49


Os seus braços desistem, a sua visão já não alcança
sequer a sombra que a mulher deixa fugir pelos
contornos do corpo. As lágrimas caem num vaso e
solidificam com as cinzas que ele foi guardando
ao longo dos dias. Só existe lugar para a errância,
para um hino fúnebre. Um violino atravessa-lhe o
cérebro num desafio grandioso. A mulher dança
nesse território, no lado vertiginoso da boca, como
uma concha que se fecha para o vento da noite. Há
ali um mal, um fogo incurável, uma fenda. A mulher
transforma a sua morte num terreiro, empurrando o
homem para o abismo, sozinho, perseguido por um
polvo. É o ajuste de contas. Os ciprestes movem-se
na sua direcção, indiferentes ao chamamento da carne.

Jaime Rocha
Lacrimatória
2005, ed. Relógio d'Água
desenho de John Everett Millais


terça-feira, 8 de maio de 2012

Ophélie (I)



Sur l'onde calme et noire où dorment les étoiles,,
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles...
_On entend dans le bois de lointains hallais.


Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc sur le long fleuve noir;
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir...


Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s'inclinent les roseaux.


Les nénuphars froissés soupirent autour d'elle;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort
Quelque nid, d'où s'échappe un léger frisson d'aile...
_Un chant mystérieux tombe des astres d'or...
............................................................................

Jean Arthur Rimbaud
[Le Dossier Izimbard], Poésies Complètes
ed. Pierre Brunel, Le Livre de Poche
pintura de John Everett Millais

domingo, 20 de novembro de 2011

[Sempre te procurei na solidão mais funda, o seu]



Sempre te procurei na solidão mais funda, o seu
novelo_ uma figura destacou-se. Seria
apenas uma imagem de espera, o grande
e nervoso esqueleto de faia desfolhada. Vinhas
longe, ainda sem abrigo, sem paredes, os lábios
frios entre os poderosos castanheiros. Pretendias
trocar as estações, a posso dum lugar escolhido, ser
uma folha de chama no rastilho de uma ideia poída,
fender a água como fissura aberta
onde se afundaram os barcos solenes do passado.

Egito Gonçalves
Luz Vegetal
1975, ed. Limiar
pormenor de uma pintura de John Everett Millais