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quarta-feira, 11 de maio de 2011
terça-feira, 10 de maio de 2011
A Nightmare on Elm Street de Samuel Bayer
TRÊS COISAS CONTRA O RESTO
Desde os Nirvana aos The Cranberries a Marilyn Manson aos The Strokes a Justin Timberlake, entre muitíssimos outros, desde 1991, Samuel Bayer já realizou videoclips -alguns deles bastante criativos -para imensos músicos e de estilos muito variados.
A decisão de realizar um filme chega só em 2010 e, diga-se de passagem, Bayer não se propõe um desafio qualquer: trata-se nem mais nem menos do que o remake de "Pesadelo em Elm Street" (1984) de Wes Craven, um dos mais aclamados clássicos do slasher.

O argumento fica entregue a Wesley Strick e a Eric Heisserer: o segundo é praticamente um principiante e o primeiro, de entre vários filmes, foi responsável pelo argumento de dois que interessa aqui destacar: um é "Aracnophobia" (1990), um dos filmes mais realmente parvos que o cinema já viu; o segundo é "The Glass House" (2001), um suposto thriller que acaba por resultar em pouco mais que um drama familiar com uma banda sonora empolgante. Interessa referir as tentativas do argumentista de se aproximar do cinema de terror, para que se perceba que, se aqui havia alguma esperança, era ainda o facto deste filme ser um remake.
Pessoalmente, sou contra os remakes, principalmente remakes de filmes que ganham o estatuto de clássicos: não por achar que isso os torna intocáveis, mas que os torna delicados e difíceis. Portanto, ou o realizador da nova versão é realmente muito bom e consegue produzir uma película aceitável, ou temos a receita certa para um filme desastroso que será visto por milhões de adolescentes que adoram filmes de terror mas não têm qualquer tipo de gosto formado.
Deixando de lado o meu cepticismo, ao começar a ver este "Pesadelo em Elm Street" até descansei um pouco: depois de um genérico bastante interessante a nível gráfico, a primeira sequência, em que vemos Dean (Kellan Lutz) a vaguear num café e percebemos imediatamente tratar-se de um sonho está muitíssimo bem conseguida, em termos de luz, de cenário, de tempo, enfim: absolutamente perfeita. Aí nos surge Kris (Katie Cassidy), com quem Dean fala sobre os problemas que tem tido com o sono e com os pesadelos. Vemos ainda um grupo de amigos numa outra mesa, entre os quais Jesse (Thomas Dekker) e Quentin (Kyle Gallner) e a empregada, Nancy (Rooney Mara), que acabará por ser a protagonista do filme. Interessa falar deles aqui, ainda que não tenham grande importância nesta cena em concreto porque, logo nos primeiros minutos, há ainda outra coisa positiva que eu tenho que assinalar neste filme: é que os actores escolhidos e a respectiva caracterização estão muito longe de serem as típicas de um filme de terror sobre adolescentes. Não há aqui propriamente rapazes atléticos nem com ar de top-model, e as raparigas idem-aspas, ainda que sejam menos, ao longo do filme. Uma das coisas que, a meu ver, mais tem estragado o género do cinema de terror é a esteriotipia em que caíram os personagens, dando um pouco a impressão de que o medo tem que ser contrabalançado pela perfeição física.
Posto isto, agora há que dizer que, logo aqui, o filme começa a ganhar contornos estranhos. A morte de Dean surge-nos como perfeitamente inusitada e seriamente mal resolvida e, a partir dela, as coisas começam a desenvolver-se com uma aceleração excessiva e que não passa despercebida. Para se ter uma ideia, o clima de pânico e de estranheza e secretismo já acontece quando o filme conta ainda 12 minutos. É como se lhe faltasse noção do real e, principalmente, subtileza.
Não deve também passar despercebido ao espectador atento que, no genérico, nos é dada a indicação de que este "Pesadelo em Elm Street" é baseado em personagens criadas por Wes Craven. Esta é, evidentemente, a maneira mais segura de um filme destes se apresentar, quase lavando as mãos de tentar recriar o original. No entanto, é mesmo isso que acontece: tenta-se recriar o filme de Wes Craven.
Surpreendentemente ou não, Samuel Bayer demonstra-se bastante incompetente para recriar as cenas mais importantes do filme de 1984. E digo surpreendente porque, afinal de contas, passaram vinte e cinco anos desde o filme original, o que significa que os meios para criar certos efeitos mais inverosímeis são agora mais e melhores: no entanto, em vez destas cenas nos parecerem mais credíveis, parecem-nos claramente digitais e também realizadas com uma incipiência que não suspeitaríamos num sujeito que conta com vinte anos de trabalho -mesmo que não em cinema. Serve de exemplo a famosa cena em que Fred Krueger aparece atrás do papel de parede.
Em relação às mortes, elas aqui também surgem com uma falta de intensidade que só pode irritar-nos; principalmente a de Kris, que deixa uma sensação de ejaculação precoce que raramente se encontra no cinema de terror: é que dá impressão de que Bayer nem tentou fazer daquilo uma boa cena.
Com os sonhos, principalmente os primeiros, acontece o oposto: parece que Bayer está a esforçar-se demasiado: esses primeiros sonhos -principalmente o da aula- são tão excessivos e sofrem de tamanha falta de subtileza que nem por delírios podem passar: são mesmo cenas de filme.
Por outro lado, a nível do argumento, é de notar um esforço por aqui aprofundar um pouco a questão do sono e essa opção é boa. No que toca, depois, à história de Fred Krueger, acontece o contrário: surge-nos como uma versão distorcida da de Craven, que estava perfeitamente construída. É que nem sequer mudam os factos, apenas mudam o tratamento que se lhes dá, mas a mudança, neste caso, não é para melhor.
O gore que se vai vendo ao longo do filme também não está propriamente bem conseguido: ele parece sempre estar algo deslocado, faz falta nalgumas situações, noutras está a mais e, ainda por cima, os níveis de gore variam tanto que nem se pode dizer que haja nisso um equilíbrio.
Há que destacar, no entanto, a cena em que Quentin tem o sonho que lhe dará acesso à verdadeira história de Freddy: essa cena está tão bem pensada e tão bem filmada que quase se podia dizer que, isolada do resto do filme, daria uma excelente curta-metragem.

O que parece acontecer é que as melhores cenas deste "Pesadelo em Elm Street" (Esse sonho de Quentin e o sonho primeiro de Dean.) são precisamente aquelas que foram feitas especificamente para este filme e que não faziam parte do de 1984.
O final do filme também foi alterado, pelo menos em grande parte, e diga-se que o final original fazia muito mais sentido no contexto da história do que este faz. É que o final de Wes Craven era um final para "Pesadelo em Elm Street", ao passo que o final que Bayer agora nos propõe poderia ser o final de qualquer filme de terror e nem sequer se afasta muito do final de muitos deles, e serve de exemplo o final de "Friday the 13th".
Ainda que neste filme haja três aspectos positivos a apontar, no geral, está longe de ser uma boa razão para quem, como eu, detestar remakes mudar de opinião.
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domingo, 8 de maio de 2011
Fear Itself: Spooked de Brad Anderson (1x02)
FANTASMAS E GRAFITTIS


Já por várias vezes aqui falei de Brad Anderson, cujo trabalho considero de excepção, como atestam filmes como "Session 9" (2002) ou "Sounds Like" (2005), a média-metragem com que participou em "Masters of Horror", além do seu envolvimento numa série que também me parece absolutamente genial: "Fringe".

Ele é um dos realizadores que transita de "Masters of Horror" para "Fear Itself". E ainda bem. O seu filme é o segundo episódio, que tem como título "Spooked".
E este filme também contribui para que se perceba que, efectivamente, Anderson tem um estilo, quer-se dizer, um padrão que pode unir todos os seus filmes (Ou pelo menos os seus filmes ligados a este género.). Por norma, ele lida com situações traumáticas e com perturbações psíquicas, desfocando bastante o limite entre estas últimas e o sobrenatural. Em "Spooked", isso volta a acontecer, ainda que, ao contrário do que acontece em "Session 9" e em "Sounds Like", desta feita, o realizador não assine o argumento, entregue neste caso a Matt Venne.
Conta-nos a história de Harry Seigel (Eric Roberts), um polícia cujos métodos assaz cruéis levam à reforma antecipada e que, quinze anos mais tarde, ganha a vida como investigador privado, ocupação em que continua a usar alguns métodos um tanto ao quanto discutiveis do ponto de vista ético.
É neste contexto que é contactado por Meredith (Cynthia Watros), uma mulher que suspeita que o marido tem uma ou várias amantes. Harry instala-se numa casa abandonada em frente da casa de Cynthia a fim de gravar algumas imagens que ajudem Meredith no suposto divórcio.
A casa onde Harry se instala está num verdadeiro estado de decadência, cheia de grafittis e de estranhos símbolos místicos. Depois de descobrir que há alguns adolescentes a passarem lá a noite por causa de uma aposta, Harry descobre que aquela casa, suposto, terá assassinado quatro crianças há vários anos atrás, o que é corroborado por um dos grafittis que apresenta quatro figuras com facas. Como começa a ter alucinações e flashbacks do seu passado, nomeadamente no que toca ao facto de, acidentalmente, ter alvejado o irmão, quando eram ainda crianças, Harry decide desistir do caso. Meredith consegue convencê-lo a não desistir, e é assim que Harry regressa à casa que parece mesmo estar a afectar o seu discernimento relativamente ao real. Daí até que Harry descubra não só os verdadeiros efeitos da casa, mas também a verdadeira razão que o colocou ali, desenvolve-se toda a trama do filme, particularmente tensa e com uma dimensão psicológica distorcida, que vem confirmar um pouco os princípios a que Brad Anderson nos habituou, como acima já tinha dito.

Não é difícil encontrar aqui algumas semelhanças com "Session 9". Primeiro, pela própria concepção espacial, que, apesar da escala bastante menor, tem algumas semelhanças com o hospício de Denver, onde se passava o filme de 2002; e também pela própria relação entre o indivíduo e um espaço inóspito que despontará dentro dele uma série de processos desviantes que acabarão por constituir o cerne de todo o filme.
Mais ainda, a situação dos fantasmas do passado volta a ter importância, e aí, é mais fácil lembrarmo-nos de "Sounds Like", ainda que aqui tudo surja de uma maneira diferente.
O que Anderson tem de realmente bom é que, partindo de um argumento já de si interessante, tem suficiente inteligência visual para transformá-lo num filme ainda melhor. E ainda que neste filme se façam sentir negativamente os efeitos da limitação de tempo (45 minutos.), Anderson consegue contornar tudo e encontrar uma série de imagens fortes e invulgares que, definitivamente, falam por todo o filme.
O que é facto é que "Spooked" beneficiaria de mais tempo, ou seja, seria provavelmente mais equilibrado e mais pungente se fosse uma longa-metragem. Acontece com alguns dos filmes, já desde "Masters of Horror".
No entanto, não seria justo dizer que "Spooked" é alguma coisa, senão um bom fime.
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sábado, 7 de maio de 2011
Fear Itself: The Sacrifice de Breck Eisner (1X01)
O VAMPIRO ATLETA


A génese de "Fear Itself" é basciamente a mesma de "Masters of Horror". Depois de terminada a segunda época da série dos mestres, Mick Garris surge-nos com esta nova versão, de que é, de novo, o criador. A diferença mais substancial será que, em "Fear Itself" encontramos muitos mais nomes desconhecidos, ao passo que "Masters of Horror" conseguiu reunir nomes mais sonantes como John Carpenter, Dario Argento e Tobe Hooper a nomes mais recentes como Brad Anderson.

A iniciar a série nova, temos este "The Sacrifice", de que Garris assina o argumento (Baseado num conto de Del Howinson.); realizado por Breck Eisner. Eisner é precisamente um realizador emergente, que, entretanto, já realizou dois filmes, sendo que apenas um deles se insere no género do horror, e foi realizado já depois da sua participação em "Fear Itself". Por aqui se vê já alguma diferença em relação a "Masters of Horror".
Onde não se vê a diferença é na qualidade dos argumentos de Garris: o deste filme é tão mau como "Valerie on the Stairs" ou "Chocolate", só não consegue ser pior do que o de "The V Word", ainda que seja deste que, tematicamente, "The Sacrifice" mais se aproxima.
Ainda que se demore bastante a entender isso, "The Sacrifice" é um filme de vampiros. Conta s história de quatro traficantes de armas que, para tentar ajudar um que está ferido, perdidos no meio da neve, se refugiam num forte isolado, onde conhecem três raparigas que nunca haviam saído dali. Logo se percebe que, por alguma razão, estas raparigas estão a tentar encurralar os quatro visitantes, de maneira a dá-los de comer a uma criatura que ali vive também.
Na premissa, não há nada de novo, mas também não há nada de errado.
O problema, no argumento, é a questão dos diálogos, que muitas vezes peca pela predicabilidade e pela tendência para o desperdício de palavras. O que acontece é que Mick Garris é pouco capaz de nos surpreender, usando as artimanhas mais frequentes que uma sinopse destas poderia proprocionar, nomeadamente no que toca ao facto de as raparigas usarem a sugestão sexual como forma de fazerem os rapazes cair nas suas armadilhas.
Visualmente, o filme não está mal pensado, sendo que, aqui e ali consegue alguns planos bastante interessantes, ainda que se fique com a sensação de que o espaço do forte das três irmãs tinha potencial para proporcionar planos bastante mais desenvolvidos e poéticos.

O que realmente vem arruinar "The Sacrifice" é a figura do vampiro que, ainda que tenha uma história interessante, nos surge como uma espécie de atleta ensanguentado. Daqui até aos lugares comuns das dentadas e das presas e dos contágios é apenas um pequeno passo que nem Garris nem Eisner parecem ter pudor em dar.
Como resultado, temos aqui algumas cenas supostamente empolgantes de perseguições, ataques e armadilhas.
A única coisa que realmente corre bem é a sequência final: não a nível de argumento onde, apesar de lógico, o final não tem nada de surpreendente, mas através do uso da metáfora que é o portão da fortaleza, que nos indica exactamente aquilo que aconteceria depois do fim do filme.
A verdade é que "Fear Itself" bem que poderia ter um início mais agradável do que este, que mais não é do que uma prova da falta de jeito de Mick Garris, a que se acrescenta uma certa inépcia por parte de Breck Eisner. Esperemos que haja melhores dias para esta série.
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Masters of Horror: Dream Cruise de Norio Tsuruta (2x13)
DRAMA COM ASSOMBRAÇÃO



A fechar "Maters of Horror" encontramos este "Dream Cruise", realizado por Norio Tsuruta, cujo trabalho cinematográfico mais conhecido será, eventualmente, "Ringu 0: The Birthday", a prequela para o famoso "Ringu" de Hideo Nakkata, que viria a dar origem ao remake de Gore Verbinski, "The Ring".
A média que Tsuruta apresenta para o encerramento desta série conta com uma sinopse interessante, que faz uso de algumas das técnicas mais eficazes para tornar um filme de terror forte; a saber: a criação de um drama pessoal que será decisivo para o desenrolar da história, a colocação dos personagens numa situação de isolamento e a consequente impossibilidade de fuga.
Jack Miller (Daniel Gillies) é um advogado americano radicado no Japão, que carrega consigo o trauma de infância de não ter sido capaz de salvar o irmão de morrer afogado. Por causa do seu trabalho, acaba por reunir-se nas docas com um cliente, Eiji (Ryo Ishibashi). Isso é um pouco constangedor, dado que Jack se encontra amantizado com a mulher de Eiji, Yuri (Yoshino Kimura). Os três acabam por ir para o barco, a fim de discutirem assuntos legais, por mais que Jack não pareça satisfeito com a ideia.
À medida que se torna claro que Eiji tem conhecimento do envolvimento da mulher com o advogado, vem ao de cima o mistério do desaparecimento súbito da primeira mulher de Eiji, que redunda numa espécie de assombração sobre aquele mar e aquele barco.
A sinopse em si tende muitíssimo mais para o drama, familiar e passional, do que propriamente para o filme de terror. Não é, aliás, muito claro, qual a parte deste argumento que continuaria a ser terror sem as imagens. Nada contra, até porque se o cinema é cinema é porque não é livro nem coisa assim.

"Dream Cruise" está longe de ser um mau filme, mas também não está perto de ser muito bom. O que acontece é que o dramatismo da premissa se torna tão forte que, quando as imagens nos colocam perante o medo, o grotesco e o paranormal, sentimos que estamos a assistir a um drama que conta com assombrações; e há momentos em que, se não nos esforçarmos, não distinguimos a assombração do enfrentar dos fantasmas pessoais; e isto tem particular ênfase na personagem de Jack.
Também creio que este filme sobrevive por ter sido realizado por um realizador não americano. Goste-se ou não, a verdade é que os japoneses têm concepções de cinema de terror redondamente diferentes das americanas, nomeadamente no que toca ao aspecto visual do filme, aos detalhes gráficos e à violência bruta mas subtil. É assim que "Dream Cruise" consegue os seus momentos de esgar e de calafrio, ainda que não seja um filme particularmente gore.
O que mais chateia neste "Dream Cruise", mesmo assim, é o seu desenlace, onde parecem faltar algumas explicações; e o final em si é bastante desinteressante.
Não posso dizer que ache que este filme seja algo de assinalável, mas, ao mesmo tempo, safa-se bastante melhor do que muitos dos filmes que integraram a segunda época de "Masters of Horror".
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quinta-feira, 5 de maio de 2011
Masters of Horror: The Washingtonians de Peter Medak (2x12)
SLEEP DURING IT
"Zorro, The Gay Blade" (1981) e "Romeo Is Bleeding" (1993) são filmes que, goste-se ou não, deixam mais ou menos uma impressão sobre Peter Medak: essa impressão é a de que ele aprecia um certo humor negro e crítico sobre a sociedade e os seus mitos; que bem pode ser um estilo interessante em cinema.

"Zorro, The Gay Blade" (1981) e "Romeo Is Bleeding" (1993) são filmes que, goste-se ou não, deixam mais ou menos uma impressão sobre Peter Medak: essa impressão é a de que ele aprecia um certo humor negro e crítico sobre a sociedade e os seus mitos; que bem pode ser um estilo interessante em cinema.

A média-metragem com que se apresenta na segunda época de "Masters of Horror" não foge a esta regra. O argumento de "The Washingtonians", baseado num conto de Bentley Little, e assinado por Richard Chizmar e Johnathon Schaech, sendo que este último é também o protagonista, tem alguma coisa de ousado e de chamativo: Mike Franks (Schaech) muda-se com a mulher, Pam (Venus Terzo) e a filha, Amy (Julia Tortolano) para a casa da sua falecida avó. É lá que encontra um antigo retrato de George Washington, atrás do qual está escondida uma carta, assinada G.W., que sugere que o pai da América seria um canibal e um infanticida. A carta chega ao conhecimento de alguns habitantes locais, e logo Mike começa a receber visitas de homens mascarados de revolucionários que exigem que ele lhes dê a carta. Através da ajuda de um amigo, o professor Harkinson (Saul Rubinek), um historiador, Mike toma conhecimento de um clube de canibais, os Washingtonians, que vive naquela localidade e protege o segredo da verdadeira vida de George Washington, sendo, para eles, essencial que a carta não seja divulgada.
Pode haver aqui um sentido crítico bastante apurado; principalmente no que toca aos bastidores da História e da mitologia política americana e isso poderia ter resultado num filme interessante; e também num filme de terror interessante, ou pelo menos um bocadinho gore, já que o assunto do canibalismo, não sendo novo, também não tem sido dos mais explorados.
No entanto, "The Washingtonians" é tudo menos isso. Ainda que o argumento apresente algumas fragilidades, nomeadamente no que toca a clichés ligados às conspirações (Como a repetição da expressão "Sleep on it".); tinha potencial de resultar num filme bom, mas Medak parece, literalmente, dar cabo dele.
A começar pelo momento em que Mike descobre a carta, que parece seriamente mal resolvido em termos de aspecto; passando pelos gritos constantes de Amy que mais não são do que irritantes e forçados; a acabar na abordagem visual do tema do canibalismo. As cenas em que vemos os Washingtonians comer carne humana são realmente repugnantes, não no sentido em que geram um calafrio, mas no sentido em que se limitam a ser pura e simplesmente asquerosas, além de um tanto ao quanto incredíveis.
A própria concepção dos integrantes daquele clube não passa de uma teatralidade mal disfarçada, com uma maquilhagem bastante taxativa e nada realista, principalmente nos dentes, que mais parecem de um fumador compulsivo de haxixe do que de um canibal. Particularmente a cena em que pela primeira vez os Washingtonians batem à porta da família de Mike revela uma falta de jeito incrível: mais parece uma cena estranha para assustar crianças. Lembro-me que havia um episódio de CSI: Las Vegas que mostrava aqueles clubes que fazem re-encenações de guerras; esse episódio de CSI estava bastante mais conseguido do que este filme está.
A ideia de forjar algumas pinturas onde a verdade sobre George Washington fica expressa é boa, e provavelmente será das coisas que melhor corre neste filme, ainda que se trate de uma sequência de cerca de três minutos.
A própria resolução do problema, e aqui se revela outra fragilidade no argumento, peca por ser tão ambígua que se torna incompreensível. A sequência final parece realmente vir reforçar a ironia que o argumento pretende, mas a reação de Amy à troca de George Washington por George W. Bush nas notas de 1 dólar, francamente não fica bem.
É curioso ver que, na segunda época de "Masters of Horror", há uma série de filmes que parecem ter sido feitos para assustar criancinhas de 6 ou 7 anos. Eu não percebo bem como pode um realizador defender um filme destes, quanto mais mostrá-lo.
Por mais que ao longo do filme repitam "Sleep on it", para ser sincero, eu fiz um enorme esforço por não adormecer durante ele. E é tudo.
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terça-feira, 3 de maio de 2011
Scream 4 de Wes Craven
ACTO FALHADO


Tive ontem a infelicidade de ir ver a quarta parte da saga "Scream", assinada, como todas as outras, por Wes Craven.
Convém relembrar que, em 1996, quando se achava que a fórmula do slasher movie estava já esgotada e mais não se fazia do que repetir as receitas dos grandes clássicos como "The Texas Chainsaw Massacre" de Tobe Hooper (1974), "Halloween" de John Carpenter (1978), "Friday the 13th" de Sean S. Cunningham (1980) e "A Nightmare on Elm Street" do próprio Wes Craven (1984); Craven traz-nos um filme que, ao mesmo tempo, renova e analisa esse mesmo esquema que orienta os filmes citados. Assumida que ficava a influência doentia do cinema na vida real, o filme resultava muitíssimo bem e não deixava de nos parecer uma boa maneira de contornar o bocejo em que o cinema de terror, em particular na sua variante slasher, se havia tornado.
Já nessa altura, "Scream" era-nos apresentado como uma trilogia e, portanto, prossegue em "Scream 2" em 1997 e "Scream 3" em 2000. Enquanto que a segunda parte ainda nos soava credível e uma continuação bastante inteligente das questões apresentadas no primeiro filme, a terceira parte era já de si bastante inusitada e seriamente mal-resolvida, ainda que, num ou outro aspecto, conseguisse continuar as mesmas problemáticas da fronteira entre o cinema e o real.

Oito anos depois de encerrada a trilogia, Wes Craven vem anunciar que, afinal, haverá um "Scream 4". Tendo em conta a qualidade duvidosa do terceiro capítulo e a contradição que uma terceira sequela representaria, seria de ficar alarmado em relação a ela; mas sempre se dava o benefício da dúvida por se entender que o elenco principal integraria mais este filme: Neve Campbell como Sidney Prescott, Cortney Cox como Gale Weathers e David Arquette como Dewey Riley.
No entanto, chegados a 2011, o filme estreia finalmente, e diga-se de passagem que o facto em si é uma infelicidade.
A película abre com várias cenas dos filmes "Stab", adaptações cinematográficas dos crimes de Woodsboro (Relembre-se que "Scream 3" se passava na produção de um desses filmes.), cada uma mais ridícula do que a outra, com imensos clichés. Quando, finalmente, temos o início de "Scream 4" propriamente dito, a coisa não corre melhor. Para cena passada "no real", Wes Craven escolhe uma sequência absolutamente dejá-vu, que repete um pouco a maneira como morria Tatum Riley (Rose McGowan) no primeiro filme.
Assim, enquanto Ghostface parece estar de volta, Sidney Prescott acaba de lançar "Out of Darkness", a sua autobiografia, e vem apresentá-la a Woodsboro, a sua terra natal, precisamente no aniversário do massacre de que ela fizera parte.
No lançamento do livro, encontra os seus velhos amigos, o casal Gale Weathers e Dewey Riley, que se encontram já a par do duplo homicídio que ocorrera.
Desta vez, no centro de tudo, encontra-se a prima de Sidney, Jill, que é aluna no colégio da cidade. São as suas amigas que começam a ser assassinadas, duma forma que parece repetir o primeiro massacre.
"Scream 4" passa grande parte do seu tempo a analisar as regras de filmes de terror, quer de sequelas quer de remakes; mas o que no primeiro filme dava conta de um estilo e de um objectivo, neste filme não deixa de parecer uma auto-justificação que nunca seria necessária se o filme fosse bom.
É de notar uma enorme falta de criatividade quer nas mortes dos personagens, quer nas resoluções que o próprio filme procura, limitando-se a repetir de uma forma aborrecida não só aquilo que já vimos nesta saga, como aquilo que temos visto numa série de outros filmes: aqui temos as adolescentes mamalhudas que não trancam as portas de casa, o parque de estacionamento, a maratona de filmes de terror, os nerds, a questão estúpida da virgindade, etc.
Mais ainda, se há algo de perturbante neste "Scream 4" são os diálogos: nunca antes se viu nada de tão amador, parecendo conversinhas entre crianças, com mais de ridículo do que de aterrador.
As personagens também nos aparecem como um pouco desfiguradas: a escrita de uma auto-biografia parece-nos, inicialmente, um tanto fora de sítio em Sidney Prescott, ainda que depois isso seja suavizado. Mas a relação entre Dewey e Gale surge-nos com uma frieza completamente deslocada, Dewey praticamente não tem importância ao longo do filme; sendo que Gale ainda vai sendo aquela que, na continuidade, mais se parece consigo mesma. No entanto, o ataque que fazem à antiga jornalista no Stabathon parece completamente despropositado e também bastante vão, no sentido em que se percebe logo à partida que é um ataque mal-sucedido.

O final também não se nos afigura particularmente surpreendente. Nota-se um certo esforço para que assim seja, e até poderia, em parte, ter sido. Mas depois a quantidade de justificações estúpidas e irrealistas estragam tudo, bem como a repetição descarada do desenlace de "Scream 2". A personagem que se revela ser o assassino também não chega a merecer qualquer tipo de sentimento da nossa parte, senão o de uma profunda irritação, não nos parecendo mais do que um excesso de mimo, como uma criança que faz uma birra.
Neve Campbell e Cortney Cox continuam perfeitamente capazes de incarnar os seus personagens. Já David Arquette parece completamente apagado ao longo do filme, o que faz com que, nas suas poucas e ridículas aparições, não nos pareça mais que um atrasado mental.
Hayden Penattiere e Nico Tortorella estão bem nos seus papéis, que aqui surgem pela primeira vez, bem como Rory Culkin e Eric Knudsen também, sendo que estes dois têm papéis ligeiramente mais exigentes. Quanto a Emma Roberts, que tem afinal um papel central, a única coisa que há a dizer é que é pura e simplesmente má, parecendo sempre que está a tentar exageradamente, perdendo qualquer credibilidade.
Deste filme, creio eu, não se salva quase nada, senão algumas boas interpretações. Wes Craven realiza este filme com uma falta de jeito que é o que mais surpreende.
Fui vê-lo em nome dos meus anos de iniciação ao cinema de terror, mas acabei por me rir como se estivesse a assistir a uma comédia. É raro ver-se um filme tão ridículo.
O nome a fixar é o que Kevin Williamson, o argumentista. É esse o nome do homem a abater.
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domingo, 13 de março de 2011
Masters of Horror: The Black Cat de Stuart Gordon (2x11)
AQUI NÃO HÁ GATO


Na primeira época de "Masters of Horror", Stuart Gordon realizou um dos piores filmes que já vi. Falo de "Dreams In The Witch House", uma mistura muito duvidosa de Edgar Allan Poe com "The Amytiville Horror" que pura e simplesmente não conseguia evitar assemelhar-se a uma história para crianças e nem particularmente bem feita.

Na segunda época, Gordon traz-nos este "The Black Cat", onde a influência de Poe é assumida, visto que Poe é o personagem central do filme, que, não tendo nada de biopic, não deixa de se centrar na vida pessoal do escritor, em vez de num dos seus contos. Terreno pantanoso, portanto, principalmente se tivermos em conta que o mais provável é uma personalidade complexa e, em muitos aspectos, inexplicável como parece ter sido a de Poe, não caber numa média-metragem.
Infelizmente, essa suspeita com que podemos ficar ainda antes de vermos o filme, confirma-se nele.
Encontramos aqui Poe (Jeffrey Combs) em pleno bloqueio criativo, mas com necessidade de produzir, uma vez que se encontra praticamente falido, situação particularmente desesperante dado que a esposa Virginia (Elise Levesque) se encontra gravemente doente. Na mesma casa, vive ainda um gato preto que se demonstra bastante hostil para Edgar.
Este gato será, por um lado, razão de grande desequilíbrio para o escritor, ao mesmo tempo que acabará por lhe dar inspiração para aquele que viria a ser um dos seus contos mais conhecidos.
A tarefa que Stuart Gordon se auto-propõe é difícil, e a verdade é que o senhor não se mostra muito competente em resolvê-la da melhor maneira.
Em "The Black Cat", o que mais encontramos são cenas que surpreendem pela puerilidade, inaceitável num realizador com a experiência de Gordon. Serve de exemplo a cena em que Poe, tentando matar o gato preto, acaba por acidentalmente assassinar a mulher. Raramente em cinema vi uma cena tão mal aproveitada, tão desastrosamente filmada. Isto torna-se particularmente bizarro quando sabemos que Stuart Gordon já tem vindo a inspirar-se em Poe vezes e vezes sem conta ao longo do seu percurso, quer no cinema quer no teatro.
O mais difícil neste filme seria construir a personagem de Edgar Allan Poe. O Poe que aqui encontramos é excêntrico, de facto, mas parece sê-lo acima de tudo por incompetência, mostrando-se pouco mais que um bêbado ridículo e cheio de delírios estúpidos e ficamos com a sensação de que qualquer semelhança entre este Poe e o génio que o verdadeiro Poe foi, é pura coincidência. E qualquer caracterização da época não fica atrás da superficialidade com que o personagem central é tratado.

Uma vez mais, tenho que reconhecer que há realizadores que não distinguem o cinema de terror das histórias assustadoras que se contam às criancinhas para adormecer. Porque tudo aqui tem um lado muito infantil, mas que não soa a frescor, antes a falta de jeito.
Jeffrey Combs é parecido fisicamente com Poe, é um facto, mas a sua interpretação não vai muito além do óbvio e só contribui para desacreditar o filme.
Como se nada disto fosse suficiente, um final à conto de fadas e também muito mal resolvido coroa um filme que nada de interessante parece ter para dar.
Entre este "The Black Cat" e "Dreams in the Witch House", não me parece possível eleger um como o pior.
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sábado, 12 de março de 2011
Session 9 de Brad Anderson
FILME DE TERROR DA DÉCADA




Agora que chegamos a 2011 e que a década entre 2000 e 2010 terminou, penso que é uma boa altura para falar daquele que me parece ter sido o melhor filme de terror produzido nesse período. Refiro-me a "Session 9" de Brad Anderson.
O único filme capaz de ombrear com este será "Jeepers Creepers" de Victor Salva. Ainda que este seja, como disse, um grande filme, parece-me que, pela sua subtileza, "Session 9" consegue ser melhor.
Relativamente à história, ela é, em parte, baseada em factos verídicos. Trata-se do Asilo Psiquiátrico de Denvers, Massachussets, aberto em 1878 e fechado em 1984. Na realidade, muitos afirmam que foi neste hospital que se desenvolveram as lobotomias pré-frontais, bem como uma série de outros métodos utilizados para o tratamento de doenças mentais. No filme, acrescenta-se a história particularmente tétrica de Patricia Willard, que iniciou um escândalo cujo desenvolvimento custou ao hospital o encerramento.
O edifício propriamente dito, projecto da autoria do arquitecto Nathaniel Jeremiah Bradlee, existe efectivamente, e o filme foi rodado aí mesmo. Acrescento que o filme, feito em 2002, é uma boa oportunidade de apreciar o edifício, que em 2006 foi demolido parcialmente, encontrando-se agora em reabilitação.
Tudo isto aponta-nos já uma interessante característica deste filme. Ele é feito com meios muito parcos: uma equipa muito pequena, com poucos actores, e, maioritariamente, sem utilização de cenários feitos especificamente, utilizando-se nas mais das vezes cenários reais.
A história propriamente dita começa quando a câmara de Denvers se mostra interessada em reabilitar o asilo. Gordon Fleming (Peter Mullan) é o dono de uma pequena empresa de remoção de amiantos, que se encontra perto da falência. O seu desespero é em muito enfatizado pelo facto da sua filha bebé sofrer de meningite e precisar de tratamentos. Assim sendo, consegue o trabalho, a partir da promessa de um trabalho eficaz e executado em apenas uma semana (Incrível para um edifício de tão grandes dimensões.).
Da sua equipa fazem parte Phil (David Caruso), Hank (Josh Lucas) e Mike (Stephen Gevedon), aos quais se junta ainda Jeff (Brendan Sexton III), o sobrinho de Gordon, contratado pela necessidade de trabalho rápido.
Desde a primeira vez que entra no asilo, Gordon ouve uma estranha voz, que o cumprimenta e lhe pergunta se o consegue ouvir.
À medida que o trabalho se inicia, cada um dos elementos da equipa vai encontrando pequenas distrações: Hank descobre acidentalmente um compartimento secreto onde estão guardadas grandes quantidades de moedas de ouro e prata, bem como outros pequenos objectos de valor. Por seu turno, Mike, que deixou a meio o curso de Direito mas se mostra um intelectual, foca o seu interesse numa pequena dependência de um consultório, onde encontra uma caixa com 9 sessões gravadas em fita sonora de uma paciente chamada Mary Hobbins. Utilizando o gravador que está ainda no consultório, Mike vê-se perante um caso de esquizofrenia, em que a paciente estaria possuida por três espíritos: Billy, a Princesa e Simon. Ao longo das sessões, intervêm Billy, que diz viver nos olhos porque vê tudo; e a Princesa, que diz viver na boca, por ser ela quem fala. Simon mantém-se silencioso. O objectivo do psiquiatra parece ser que um deles conte em voz alta o que se terá passado numa noite de Natal em Lowell, algo que terá sido suficiente para que Mary fosse internada e de que a própria não tem consciência.
A tensão vai crescendo entre os personagens pois todos, de uma forma ou outra, se sentem pressionados pelas condições em que estão a trabalhar e um certo ambiente de loucura se cria, principalmente a partir do momento em que Hank desaparece sem explicações, depois de durante a noite ter invadido o asilo para recolher os valores que havia encontrado, sem que se perceba sem se foi ou não atacado ao sair.
Com todas as situações estranhas que vão acontecendo, Mike parece ganhar a convicção de que o que se passa presentemente está de alguma forma relacionado com o caso de Mary Hobbins.
Esta tensão vai crescendo, até ao ponto em que finalmente ouvimos a nona sessão, em que Simon conta o que sucedera na tal noite de Natal em Lowell.
O esquema da história é na verdade bastante simples, apostando sempre que possível numa descoberta progressiva dos factos, que nunca parece inusitada e que é bastante eficaz em enredar-nos na tensão criada entre os personagens.

Ao mesmo tempo, há que louvar a inteligência visual de Brad Anderson. Grande parte do medo gerado pelo filme prende-se com a escolha de planos arrepiantes do edifício, do seu abandono e da sua degradação. Parecemos ser continuamente levados para espaços inóspitos e glaciais, de uma solidão impressionante como se todos tivessem dali fugido de uma só vez, deixando tudo para trás. Aqui, tudo parece ser pensado ao pormenor, desde a luz ao tempo de cada plano. A criação de momentos aflitivos, como a cena em que Jeff, que sofria de uma nictofobia severa, corre por um estreito corredor enquanto as luzes se apagam rapidamente, é também significativa, capaz de nos suspender a respiração. Mais ainda, o prato-forte deste filme é o plano que vemos repetidamente da cadeira de forças ao meio de um corredor. É um excelente exemplo da sensibilidade de Brad Anderson, pois aquela cadeira evidentemente deslocada, causa em nós a dúvida de como ela terá ido ali parar, porque ali ficou, acrescido ao facto de a cadeira em si representar já uma situação aflitiva, pois seria utilizada para controlar pacientes violentos. Brad Anderson, como poucos realizadores, sabe tirar partido do espaço e, neste caso, como o espaço era real, Anderson tem uma perspectiva quase arquitectural sobre ele, sem abdicar de uma grande sensibilidade, sabendo o que cada espaço pode suscitar no espectador que a ele assiste filmado. Quando lemos no cartaz do filme a epígrafe "Fear is a place", isso não é gratuito. E, penso, uma das preocupações de Anderson neste filme foi filmar esse sítio que é o medo.
Outra coisa que tenho que louvar a "Session 9" é a total recusa de todos os recursos para agarrar o espectador: não temos cenas de sexo gratuitas e, mais impressionante ainda, não há no filme uma única cena realmente gore. Brad Anderson e Stephen Gevedon, autores do argumento, conseguiram definitivamente tornar o filme encantatório pelo que fica subentendido, pelo que não é mostrado, pelo que fica claro sem se mostrar. Esse é um difícil logro. Quase não há sangue neste filme.
A música, composta pelos Climax Golden Twins é também um elemento essencial para este filme. Ela é minimal e arrepiante, altiva mas não fria.

Por fim, tenho que evidenciar determinadas subtilezas que o argumento suscita. Em primeiro lugar, relativamente à audição da nona sessão. Se repararmos bem, nenhum dos personagens chega a ouvi-la, apenas nós chegamos a ela: ou seja, de facto, nunca nenhum dos personagens chega a entender concretamente o que se passa naquele lugar. E, quanto ao conteúdo, ele aposta também muito na ambiguidade: quem acreditar em possessão, encontrará aqui um caso particularmente cruel da mesma. Quem não acreditar, tem ainda a opção de que tudo é resultado de uma doença mental. Seja qual fôr a crença do espectador, este filme não depende dela, ou seja: ao contrário do que costuma acontecer neste tipo de filmes, se não acreditarmos em demónios e espíritos, o filme continua a fazer sentido; e nem sequer perde a capacidade de nos assustar pois, seja qual fôr a causa dos acontecimentos, o resultado é arrepiante e violento.
O final do filme é pura e simplesmente desconcertante e, uma vez mais, ambíguo. Ficamos a sentir uma espécie de angústia, que nos dá uma dimensão da solidão humana e do desespero. Mais ainda, a frase final de Simon, dita enquanto vemos o edifício em planta, é digna de ficar marcada dentro de nós, pois tem no fundo tantos e tão horríveis sentidos.
Interessa ainda referir isto: na verdade, o corte original do filme tinha mais 40 minutos, que acabaram por ser cortados. Ao que pude averiguar, existiam duas histórias secundárias neste filme: a de uma velhinha que estivera internada no asilo e que, tendo conhecido Mary Hobbins, reconhece o espírito de Simon num dos personagens e o persegue, com o intuito de o matar; e uma outra, relativa a um espírito maligno que habitaria ainda as paredes do edifício. No trailer que abaixo deixo, existe uma cena que, por descuido ou de propósito, não faz parte do corte final do filme: uma sala com ossadas dispostas em hemicírculos. A versão americana do DVD, ao contrário da portuguesa, tem como extra esses quarenta minutos e, certamente, será uma das minhas compras futuras.
Claro que um filme assim passou despercebido, até porque esteve sempre fora dos circuitos comerciais habituais. No entanto, penso que a passagem do tempo mostrará que "Session 9" é realmente um filme único e raro. Isto para quem tiver estômago para o ver mais vezes, que não parece ser o meu caso.
Claro que um filme assim passou despercebido, até porque esteve sempre fora dos circuitos comerciais habituais. No entanto, penso que a passagem do tempo mostrará que "Session 9" é realmente um filme único e raro. Isto para quem tiver estômago para o ver mais vezes, que não parece ser o meu caso.
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Masters of Horror: We All Scream for Ice Cream (2x10)
PALHAÇADA

Há coisas muito básicas, que qualquer realizador devia aprender e nunca, mas nunca mesmo, esquecer. Fazer um filme de terror que está muito para lá de qualquer limite de credibilidade é uma delas.

"We All Scream for Ice Cream" é um filme que dói tanto a ver, dói no pior sentido da palavra, que quase nem consigo falar dele. Não é que eu esperasse melhor de Tom Holland que tem andado, desde 1985, entre as comédias e as pretensões de terror. Mas a verdade é que de ninguém eu esperaria um filme cuja palavra que melhor encontro para descrever é "rasca".
A história é a seguinte: nos anos 50, um grupo de crianças acorre todos os dias ao autocarro de Buster, um palhaço atrasado mental que vende gelados. Nos dias de hoje, esses rapazes são já crescidos e pais de família e, na localidade onde vivem, inicia-se um estranho fenómeno que passa por as crianças desaparecerem de casa a meio da noite. Ao mesmo tempo, uma série de homens que haviam pertencido ao tal grupo começam a desaparecer.
O que se passa é que, na verdade, esse grupo havia pregado uma partida a Buster que, em princípio, lhe havia custado a vida. Agora, o palhaço voltou dos mortos, e alicia os filhos dos que lhe fizeram mal a virem comer gelados, gelados esses que fazem com que os pais se derretam em gelado.
A história, em si, é pobre. Os actores não ajudam. Os efeitos especiais são ridículos. O desenvolvimento da história e respectivo clímax dão vontade de rir de pena. A resolução dos problemas está do amadorismo para baixo. No fundo, um sentimento de profunda piedade é o que de melhor consegui sentir por este filme.
Se quisesse encontrar referências para este filme, a que me parece mais indicada é a série de televisão "Goosebumps" que passava nos anos 90 na televisão, e que eu via, quando era puto, porque eram baseados na série de livros do mesmo título, de R.L. Stine. E, para ser sincero, alguns desses episódios que uma altura revi no YouTube têm de longe muito mais qualidade que este "We All Scream for Ice Cream".

De facto, o filme parte de um conceito que é já de si fraco, e isso condiciona tudo. É até difícil não acreditar que, no fundo, o maior desejo de Tom Holland com este filme foi gozar com a cara do espectador. E, mesmo se o objectivo era esse, havia maneiras de o fazer com mais classe.
É penoso ver um filme assim. Eu, que já atravessei filmes escritos e/ou realizados por Mick Garris, que já atravessei "Dreams in the Witch House" de Stuart Gordon, estive muito muito muito perto de pura e simplesmente suspender "We All Scream for Ice Cream".
Acho que é muito difícil encontrar um filme pior do que este; uma tão grande e tão mal feita palhaçada. O que faz este filme em "Masters of Horror" é algo que nunca, por mais que viva, conseguirei entender.
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Masters of Horror: Right to Die de Rob Schmidt (2x09)
SESSENTA BOCEJOS POR MINUTO


Na verdade, o cinema de terror tem-se tornado, na última década, uma espécie de entertenimento que se esgota a si mesmo, mais do que um tipo de cinema. O que acontece com o cinema de terror não é diferente do que acontece com a comédia. Na comédia, temos alguns realizadores que levam o género a sério, como é o caso de Woody Allen, e depois temos a maioria dos outros realizadores, que realiza comédias especificamente românticas, que servem para encher salas de cinema com pessoas que não estão minimamente sensibilizadas para a arte e se limitam a ver o filme, que não os faz pensar e nem os faz sentir. Tenho pena que tal tenha acontecido com um género que já nos deu grandes filmes, como é o caso do cinema de terror.

Este "Right to Die", de Rob Schmidt é, afinal, um belíssimo exemplo não só do vazio em que o cinema de terror tem caído, como é também um belíssimo exemplo do que acontece quando os realizadores não são criativos, que é a adopção de uma receita que se repete vezes e vezes sem conta.
Como é que um filme destes chega a "Masters of Horror", não sei. É verdade que nesta série já vimos filmes que vão do ridículo ao inaceitável, mas, nesses, pelo menos nota-se que o realizador tentou. Em "Right to Die" nem isso.
Rob Schmidt é o realizador de "Wrong Turn" (2003) que, colocando uma sensual Eliza Dushku a ser atacada por um bando de canibais, fez as delícias de milhões de adolescentes superficiais que gostam de terror, mas não percebem patavina de cinema.
"Right to Die" é a história de Cliff Addison (Martin Donovan), um dentista que, enquanto conversa com a mulher (Julia Anderson) durante uma viagem de carro, tem um acidente. Ele sai ileso, mas as mulher começa a arder, sendo levada para um hospital onde se conclui que a mulher passará o resto da vida em coma e que a totalidade do seu corpo foi consumida pelas chamas.
Indeciso sobre se desliga as máquinas, Cliff começa a ser visitado pelo fantasma da mulher, que o vai torturando e aumentando as suas dúvidas sobre se deve terminar a vida dela, quanto mais não seja porque, nos momentos entre o falecimento dela e a reanimação bem-sucedida que os médicos operam, ela se transforma num fantasma que chega até a matar o advogado e a amante de Cliff.
Se começássemos a fazer uma lista de todos os filmes que influenciam este, ela nunca terminaria. Passaríamos por "Ringu" (1998) de ideo Nakkata, por "13 Ghosts" (1960) de Rob Castle, entre muitíssimos outros. "Right to Die" limita-se a ser uma assemblage de tudo, com o condão particular de, por mais que a história desenvolva, parecer sempre nunca ter assunto.
De facto, estes são 52 minutos muito aborrecidos, cheios de abras-kadabras que já vimos em todos os realizadores sem qualidades que querem fazer filmes de terror. A história parece mudar de tonalidade sem motivo aparente, os factos desenrolam-se com uma certa inércia, a qualidade dos actores deixa muito a desejar e, como não há aqui nada que desperte o mínimo interesse no filme, temos então os dois recursos mais frequentes para resolver esta situação: cenas de sexo e de nudez, e cenas pretensamente gore. Estes são os dois refúgios de qualquer realizador sem talento especial que quer prender um mínimo da atenção do espectador.

Possivelmente, este texto é um tanto desagradável. Sou espectador de cinema de terror desde os 11 anos, e, ao longo da minha vida, tem sido dos géneros que mais tenho procurado, e tem sido também aquele que mais me parece ter caído numa vulgaridade causada pela pouca selecção e pela ideia de que é fácil suscitar medo no espectador. Discordo de tudo. Penso que muitos dos filmes mais originais já feitos foram filmes de terror, e penso que todo esse legado está a ser cada vez mais destruído, e não só por realizadores jovens.
Filmes como este "Right to Die" são o principal motivo por que muita gente já nem leva o cinema de terror a sério. E incluí-lo numa série de mestres não é errado. É pura e simplesmente criminoso.
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Masters of Horror: Valerie on the Stairs de Mick Garris (2x08)
HISTÓRIA DA CAROCHINHA


Uma vez mais, e tentando manter uma mente aberta enquanto espectador, me dediquei a ver um filme de Mick Garris, a sua participação na segunda época de "Masters of Horror".

Depois de ver "Valerie on The Stairs", venho aqui reafirmar aquilo que afirmei a propósito de "The V Word", que Garris também escreveu. De facto, "Haeckel's Tale" foi a única boa aposta do cineasta. Se "Chocolate" era um falhanço e "The V Word" outro maior, "Valerie on the Stairs" consegue ser um falhanço maior do que os outros dois juntos.
A história é a seguinte: Rob Hanisey (Tyron Leitso) é um jovem escritor, autor de cinco livros rejeitados por todos os editores, que se muda para a Highberger House, uma espécie de retiro que acolhe apenas autores nunca editados, e até serem editados. Entre estes escritores, encontramos apenas o esteriótipo do escritor rejeitado pela sociedade, mal encarado, desligado de tudo, e muito perto de uma vida doentia.
Hanisey começa a ter alucinações com uma jovem mulher, que lhe aprece nua, e acaba sempre por ser raptada por uma figura de trevas e desaparecer para dentro das paredes.
Ao investigar esta história, Hanisey descobre não só que a mulher, Valerie (Clare Grant), e o monstro que a possui, são na verdade figuras presentes em romances de três dos escritores que ali viveram, e que todos acabam por morrer, um antes de Hanisey se mudar, e os outros dois ao longo do filme.
Cedo tudo se envolve num ambiente de loucura e de sobrenatural, que resulta numa impressionante e impressionantemente mal feita misturada entre "A Bela e o Monstro" e algum arquétipos do cinema de terror.
Deles, teria eu que salientar "In The Mouth Of Madness" (1995) de John Carpenter, em que acontece algo muito semelhante: um escritor de romances de horror descobre que o que narra nos seus livros está, na realidade, a acontecer numa localidade distante da dele. Ainda que neste filme de Garris não seja claro se os escritores seguem personagens pré-existentes ou se as criaram mesmo, acho que a referência ao filme de Carpenter é tão evidente que se diria que há aqui uma espécie de osmose.
E, ainda dentro das osmoses, encontro aqui uma que me parece ultrajante. É que este filme é em tudo semelhante a "Dreams In The Witch House", que Stuart Gordon realizou para a primeira época desta mesma série. Digo "ultrajante" porque até entendo que um realizador vá buscar influências a um realizador como Carpenter, que não é um realizador, é um mestre, com muitos momentos de genialidade. Mas quase plagiar um filme tão mau como "Dreams In The Witch House" não é, pura e simplesmente, boa ideia, porque, se o original era mau, a cópia quase obrigatoriamente é pior.
Os efeitos especiais e visuais são de um amadorismo surpreendente, não chegando a parecer verídicos nem com muito boa-vontade; o desenrolar da história está cheio de solavancos e de paragens em puros clichés comerciais como cenas de sexo fantasiadas e um beijo lésbico absolutamente inconsequente.

O final do filme prima também pela estupidez, ao ponto de me fazer pensar para mim mesmo que não me recordo quando foi a última vez que vi um realizador profissionar ser tão ingénuo, ingénuo no mau sentido. Eu percebo que a ideia do escritor se desfazer em páginas do seu próprio livro tem todo o sentido, e até levanta algumas questões muito interessantes. O problema é que a forma como está filmado é um cruzamento inesperado e que não resulta de um Mimo com o vídeo de "All Is Full Of Love" de Björk.
Salva um pouco o filme a interpretação de Tyron Leitso, que, estranhamente, é o único dos actores principais a ter uma representação credível. Porque a maioria dos outros pareces ofuscados por uma luz que, sinceramente, num argumento destes, não tem muita razão de ser.
Mick Garris é o criador de "Masters of Horror", e por isso o aplaudo. Mas no que toca a realizar filmes, estamos mal. Porque entre o conto infantil para ameaçar as crianças com o mundo e o cinema de terror vai um passo que não raras vezes é muito, muito grande. E eu acho que Garris ainda não percebeu isso.
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Masters of Horror: The Screwfly Solution de Joe Dante (2x07)
EVA SOLITÁRIA


Joe Dante está convicto de que o ser humano é mau. Eu concordo com ele.
No que toca, depois, aos filmes, há que aplicar essa ideia. Na primeira época de "Masters of Horror", ele apresentava-nos "Homecoming", aquele filme sobre zombies bons.

Na segunda época, apresenta-nos "The Screwfly Solution", adaptado de um conto de Alice Sheldon, e, como ouvimos no filme, uma vez mais vemos que, realmente "a humanidade é uma praga".
No que este filme tem de nefasto e mortífero, ele é um filme de terror. No resto, na maioria, é um filme de ficção científica. Já desisti um pouco de dar ênfase a esta questão, uma vez que a maioria dos filmes desta série não são propriamente de terror...
O filme inicia com um segmento documental acerca da screwfly, uma espécie de insecto particularmente mortífera, que elimina com grande rapidez e eficácia tanto gado como pessoas.
Depois, avança para a história de uma proliferação em massa de homicídios contra mulheres. Numa pequena comunidade no Texas, chega-se ao ponto de 1100 mulheres terem sido assassinadas. Bela (Linda Darlow), uma cientista e feminista, corre ao local para entrevistar os assassinos e recolher amostras de água e ar, convicta de que os homicídios terão uma origem biológica, ou seja, uma epidemia de loucura.
Também envolvidos nesta questão estão Alan (Jason Priestley) e Barney (Elliott Gould), dois cientistas que recentemente haviam desenvolvido uma enzima capaz de impedir a reprodução de um outro insecto mortífero.
Ainda que as localizações das áreas afectadas possam sugerir uma movimentação em enxame, tanto Alan como Barney ficam convictos de que o vírus que causava a loucura tinha origem laboratorial. Mais ainda, chegam à conclusão de que, tal como acontece com os insectos, este vírus actua sobre a sexualidade masculina, levando-a ao ponto da violência que se insurge contra o objecto de desejo.
E assim, rapidamente, a população feminina no mundo vai sendo assassinada, ao ponto de, a certa altura, sobrar apenas uma mulher, Anna (Kerry Norton), a esposa de Alan.

Este é um filme que poderia ser muito bom, apesar de nos apresentar algumas falhas. Por exemplo, não é muito clara a relação da sequência inicial sobre a screwfly com o enredo principal da história, e torna-se menos clara ainda, dada a convicção dos dois cientistas de que se trata de um vírus produzido em laboratório.
Mas, àparte estas questões, o filme vai correndo bem, até que se aproxima do fim, em particular, nos últimos dez minutos.
Confesso que, logo no princípio do filme, senti uma grande influência de "Twin Peaks" de David Lynch, em vários aspectos: uma série de corpos de mulheres deitados e enrolados em plástico, por exemplo, ou a imagem que aparece frequentemente da poeira na televisão, como acontece no genérico do filme, "Firewalk With Me". Mas, no final, se isto não é uma recriação de "Twin Peaks" então não sei o que seja. Uma série de aparições angelicais, que não primam pela qualidade dos efeitos especiais, que, de certa forma, vêm salvar a alma condenada da nossa Eva solitária, são o remate final à-la-David-Lynch.
Kerry Norton tem aqui uma prestação brutal, muito à vontade no papel de protagonista e muito capaz de se movimentar de uns ambientes para os outros, o que é particularmente importante quando estamos num filme em que a angústia e o peso da fatalidade são graduais.
Continuo sem entender muito bem o que faz Joe Dante entre os Mestres do Horror, confesso. Entendo-lhe uma certa tendência para a criação de cenários apocalípticos que têm sido assunto central de muitos filmes do género; mas não sei até que ponto a abordagem tem realmente a ver com ele. E, no fundo, um filme como este até podia ser assustador. Mas parece acima de tudo realmente ficção científica. Nada contra, até porque o filme, em muitos dos seus momentos, é bom. Mas não deixa de parecer, também ele, um tanto solitário no meio dos outros, tal como Anne termina.
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Masters of Horror: Pelts de Dario Argento (2x06)
THEY DIED FOR BEAUTY


Não é raro que Dario Argento ensaie, nos seus filmes, as relações entre beleza e morte. Se quisermos levar isto a um cúmulo freudiano, diríamos que ele analisa a relação eros-thanatos, amor e morte. A atracção como forma de cair no abismo marca muitos dos seus filmes, caso de "The Phantom of the Opera" (1988) ou até da trilogia das Mães, "Suspiria" (1977), "Inferno" (1980) e "The Mother of Tears" (2007); e, claro, de "Jenifer" (2005), a sua participação na primeira época de "Masters of Horror".

Nesta segunda época, Dario Argento volta à questão da beleza e da atracção, como portão para a morte, com este "Pelts". O argumento de Matt Venne, baseado num conto de F. Paul Wilson, conta-nos a história de Jake Feldman (Meat Loaf Adday), dono de uma pequena fábrica de peles para moda, um indivíduo solitário, cuja vida se passa entre as instalações da fábrica, onde trata os empregados, todos imigrantes, como escravos, e um clube de strip-tease, onde alimenta a sua paixão platónica por Shanna (Ellen Ewusie), uma das strippers.
Paralelamente, encontramos Jeb Jameson (John Saxon) e o filho, Larry (Mickal Suchanek), caçadores, que se encaminham para umas ruínas no meio de uma floresta, para caçarem guaxinins, de que venderão as peles.
Ao regressarem a casa, reparam que as peles daqueles guaxinins são impressionantemente belas, e o pai prevê um bom negócio, pelo que telefona a Jake a propor-lho.
No entanto, depois de acariciar uma das peles, subitamente, Larry mata o pai, batendo-lhe violentamente com um taco de baseball na cabeça -exactamente como matavam os guaxinins-, e depois suicida-se, colocando a cabeça numa armadilha de caça -outra técnica usada para apanhar os guaxinins.
Quando Jake visita a casa dos Jameson, encontra os cadáveres e, friamente, recolhe as peles para as levar consigo, e telefona à polícia muito depois, anonimamente.
Enquanto os empregados da fábrica trabalham com aquelas peles, dois deles suicidam-se. Um deles, encarregue de cortar as peles, mutila-se grotescamente; e outra, encarregue de costurar, costura os próprios olhos, nariz e boca.
Com o casaco já feito, Jake decide oferecê-lo a Shanna, que se apaixona imediatamente pelo casaco. Claro que isto culmina com uma cena particularmente gore, muitíssimo bem calculada.
A ideia de que aquelas peles conteriam algum tipo de maldição, como se hipnotizassem pela beleza, é explicada ainda a Jake por uma mulher que vivia perto das ruínas, uma "mãe" louca (E cá temos de novo a ideia das "mães" que Dario Argento só concluíria em 2007, com "The Mother of Tears".).
Há que ressaltar deste filme grandes qualidades na realização. Acima de tudo, Argento parece estar interessado em criar uma estética, de que são bons exemplos o elevador da cena final (E que aparece no início, em flashback.), a fazer lembrar uma espécie de relicário religioso, ou então as ruínas na floresta, que parecem nitidamente inspiradas numa pintura de Caspar David Friedrich.

E, uma vez mais, Dario Argento nos vem mostrar que a atracção pela beleza leva, em último caso, à morte. Claro que este filme não se limita à morte, acrescenta-lhe grandes traços de masoquismo, com suicídios impressionantes, que permitem imagens próximas do extreme-gore. Ainda assim, não é o lado gore que se recorda deste filme, mas sim a sua inteligência, a sua subtileza, que nos relembram que Argento já traz na bagagem cerca de vinte filmes, alguns dos quais são marcos do cinema de terror, como "Profondo Rosso" (1975) ou "Phenomena" (1985), além dos citados no início deste texto.
Se este filme nos ensina que a vaidade mata, Dario Argento tem nele uma boa razão para estar perto da morte.
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Masters of Horror: Pro-Life de John Carpenter (2x05)
MÃE-CORAGEM


Faça o que fizer e esteja onde estiver, John Carpenter é sempre John Carpenter. O que significa que é sempre o Mestre do Horror por excelência. Digo "por excelência" pois ninguém como Carpenter consegue tão bem pegar no género "terror" e transformá-lo sempre em coisas originais e, em última análise, válidas também noutros sentidos, nomeadamente, o sentido político que caracteriza filmes como "Prince of Darkness" (1987), "Village of the Damned" (1995) ou "Ghosts of Mars" (2001); ou então o sentido ensaístico, sobre arte, religião ou História, como em "Prince of Darkness", "In The Mouth of Madness" (1995), "Vampires" (1998), "Ghosts of Mars" ou "Cigarette Burns" (2005) -sendo este último precisamente um dos episódios da primera época de "Masters of Horror".

Repetente na segunda época, Carpenter apresenta-nos este "Pro-Life". Apesar do argumento pertencer a Drew McWeeney e Scott Swan, sentimos, logo desde o início, a impressão digital de Carpenter, não só pela natureza da história, carregada de sentidos políticos e até religiosos, quer pelas características da realização.
"Pro-Life" é a história de Angelique Burcell (Caitlin Watches), uma rapariga que nos aparece a correr pela floresta, fugindo de alguém. Na estrada, é quase atropelada por Alex O'Shea (Mark Feuerstein). Alex é na verdade, um médico, que se encaminha para a clínica onde trabalha, e leva Angelique consigo, para ser analisada. Angelique acaba por explicar que Deus a terá levado ao caminho do médico para que ele a ajudasse a abortar.
Quando, já na clínica, Alex analisa Angelique e lhe pede que explique as razões por que quer abortar, cedo percebe que a rapariga estará muito perturbada, pois a sua barriga aparenta pelo menos três meses de gravidez, enquanto ela explica que engravidara há menos de uma semana.
Paralelamente, o pai de Angelique, Dwayne Burcell (Ron Pearlman), aproxima-se da clínica para trazer a filha, menor. Aqui entendemos que Dwayne tem na realidade uma sentença do tribunal que o impede de estar na clínica de aborto, pois, ao que entendemos, ele estaria ligado a movimentos religiosos contra o aborto, e teria tentado vandalizar a clínica.
Dentro da clínica, a barriga de Angelique cresce a um ritmo vertiginoso, e a ressonância magnética dá também indícios de a história de Angelique não ser mentira. De facto, a rapariga explica que havia sido violada por um monstro demoníaco, insistindo que teria que abortar.
No entanto, chega ao ponto em que está pronta a dar à luz, sendo já impossível abortar. Enquanto isto, Dwayne e os três filhos invadem a clínica, acabando por barricar o director dentro do gabinete, assassinando-o com requintes de sadismo.
Angelique dá à luz o seu monstro, e o pai desse monstro irrompe pela clínica.
Este filme está, de facto, cheio de pequenas subtilezas políticas, nomeadamente as ligadas ao aborto. Carpenter parece investido em demonstrar que manter uma gravidez a todo o custo pode dar mau resultado, como aqui acontece. Poderemos entender "Pro-Life" como uma parábola sobre esta questão. Afinal de contas, Angelique está grávida de um ser indesejado, e está investida a nem lhe dar vida. Quando confrontada com a impossibilidade de um aborto, Angelique acaba por matar o recém-nascido. No fundo, podemos entender que uma mulher grávida de um filho que não deseja, não o matando em estado fetal, acabará por fazê-lo depois, ainda que não literalmente, pois há muitas maneiras de matar sem necessariamente cometer homicídio, ou infanticídio.
O que neste filme há de grotesco também contribui para gerar em nós uma certa repulsa e um incómodo muito conveniente.
Também aqui Carpenter mantém um pouco a sua vontade de fundir o terror com o western, o que é particularmente evidente na invasão de Dwayne e dos filhos à clínica.

Tal como acontecia com "Cigarette Burns", o que nos chateia em "Pro-Life" é sentirmos que havia aqui material suficiente para fazer uma longa.
A realização de Carpenter é, como sempre, garrida, com uma noção muito adequada do tempo que cada sequência precisa; com grande atenção às formas de mostrar o espaço -este é, afinal, um filme muitíssimo arquitectónico-; e com criação de grandes tensões, quer entre os actores, quer entre eles e o desenrolar da história.
Uma vez mais, Carpenter prova-nos que ninguém como ele sabe resgatar o termo "terror" do aborrecimento em que ultimamente o género tem caído.
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Masters of Horror: Sounds Like de Brad Anderson (2x04)
O DIA DOS PRODÍGIOS


Aos 37 anos, Brad Anderson realizou aquilo que me parece ser uma verdadeira obra-prima do cinema de terror. "Session 9" (2001), o filme em questão, passou despercebido nos grandes circuitos, pois tratava-se de um filme independente, um low-budget, e também um filme cuja génese estava anos-luz à frente das vulgaridades que recentemente mais se vêem no cinema de terror e que são bem aceites. Precisamente por se manter fora de todas as convenções, e estar mais preocupado em denotar uma identidade, e uma tão forte, "Session 9" era um filme absolutamente prodigioso.
Aquando da sua participação em "Masters of Horror", Brad Anderson contava apenas com cinco filmes -entre os quais uma curta-metragem- e, desses cinco, apenas dois eram de terror, "Session 9" e "The Machinist" (2004). No entanto, penso que "Session 9" justificaria perfeitamente a inclusão de Anderson nesta série.

E, agora de a década terminou, posso dizer com segurança que "Session 9" me parece verdadeiramente o melhor filme de terror entre 2000 e 2010, havendo apenas um capaz de quase ombrear com ele, "Jeepers Creepers" (2002) de Victor Salva.
Interessa muito falar de "Session 9" a propósito deste "Sounds Like", pois nalguns pontos os dois filmes se aproximam.
Tal como em "Session 9", neste filme encontramos um protagonista afogado numa vida familiar difícil, e, tal como em"Session 9", comportamentos ligados às doenças mentais como psicoses ou esquizofrenias são utilizados.
"Sounds Like" conta-nos a história de Larry Pearce (Chris Bauer), um telefonista, que sofre de uma complicada doença- ouve tudo, tudo, tudo, desde os mais pequenos movimentos do corpo, como piscar de olhos. O resultado é que o seu dia-a-dia é uma infeliz cacofonia, não conseguindo nunca descansar nem isolar-se completamente. Paralelamente, a sua relação com a mulher tornara-se difícil, pois, além do desagrado de Larry por ouvir tudo o que ela fazia, o filho que tinham havia morrido, e presentemente encontram-se em desacordo sobre se devem ou não ter outro.
Larry é, desde logo, uma personagem incomunicável. O excesso de audição faz com que frequentemente ele seja incapaz de distinguir, do que ouve, o importante do insignificante. O seu cansaço, acrescido do stress pós-traumático da perda da filha, fazem dele também um indivíduo estranho, com alguns comportamentos não distantes da catatonia.
Não se pode dizer que "Sounds Like" seja propriamente um filme de terror. Mas a tensão que nele sentimos, a angústia que resulta de também nós ouvirmos a cacofonia constante que Larry atravessa, cria em nós tamanho desconforto, que, de repente, este filme assusta-nos.
À medida que a tensão cresce, prevemos que Larry cai cada vez mais numa loucura desesperada, que poderá ou não ser uma espécie de surto psicótico. É decisivo se conhecemos ou não a natureza de algumas doenças mentais para entender "Sounds Like", pois aí mesmo se traça a divisória entre o acto de desespero resultante de um colapso e a pura maldade. Tal acontecia também com "Session 9", daí que eu diga que é importante tê-lo como contraponto para falar desta média.

A sequência final é mais uma prova da mestria de Brad Anderson, pois em nenhum outro filme senão o próprio "Session 9" vimos uma cena tão comovente, tão capaz de fundir perfeitamente beleza, paz e medo.
Sendo um dos realizadores mais jovens e mais inexperientes em "Masters of Horror", Brad Anderson não deixa de nos surpreender pela sua inteligência e sensibilidade e pela estranheza absoluta do seu mundo, da sua identidade. Lembro-me de um aforismo muito interessante de Agustina Bessa-Luís, que abre o seu romance "A Jóia de Família": "Não se escreve melhor porque se escreveu muito." Brad Anderson, em "Sounds Like", vem mais uma vez provar-nos que, no que toca à arte, algumas pessoas, independentemente da experiência que têm, são naturalmente capazes de criar coisas impressionantes.
Faz todo o sentido ver com muita atenção o cinema de Brad Anderson, mais ainda agora que nos chega "Vanishing on 7th Street" (2010); e dar particular ênfase a filmes como "Session 9" ou "Sounds Like", que, por ser uma média e um episódio de uma série de televisão, não é menos importante.
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Masters of Horror: The V Word de Ernest Dickerson (2x03)
COINCIDÊNCIAS


Ernest Dickerson tem larga experiência em televisão. O seu nome surge associado a séries tão diversas como "Weeds", "Law & Order", "The Wire", "Heroes", "Dexter" ou "The Vampire Diaries".
Em "Masters of Horror", que tem tanto de televisão como de cinema, Dickerson surge na segunda época, a realizar um argumento de Mick Garris. Já a propósito desta série elogiei "Haekel's Tale", que Garris também havia escrito, e que, a meu ver, seria um dos melhores filmes da série, em contrapartida ao filme realizado pelo próprio Garris na primera época, "Chocolate", que me parecia ser um dos piores.

Este "The V Word" vem confirmar que, afinal, "Haekel´s Tale" foi mesmo uma vez sem exemplo. "The V Word" está muito mais dentro do estilo aborrecido de "Chocolate"; ou seja, é mais um filme que nem sabe o que quer ser.
E, no que toca a dividir a culpa, a Garris cabe a de ter escrito um filme realmente chato onde a predicabilidade é palavra de ordem; a Dickerson cabe a de também não ter sido capaz de transformar um argumento vulgar nalguma coisa de mais interessante.
Para começar, é-me difícil dizer se se trata de um filme de zombies ou de vampiros. Decido-me pelos vampiros por causa do título. Percebo que Garris terá querido evitar o lugar-comum dos dentes afiados e da pele pálida, mas a invulgaridade esgota-se aqui mesmo.
A história é a de dois amigos, Kerry (Arjay Smith) e Justin (Branden Nadon) que, para escaparem à análise depressiva dos seus problemas familiares, decidem ir visitar um primo de Justin que trabalha numa morgue. Quando chegam ao local, encontram-no deserto. Enquanto procuram o primo, encontram vestígios de sangue, e, do nada, um dos mortos levanta-se e propõe-se a atacá-los. Consegue atacar Kerry, comendo-lhe literalmente parte do pescoço, e Justin acaba por fugir.
Ao chegar a casa, Kerry já o espera, transformado num zombie-vampiro, e ataca-o.
O resto do filme divide-se entre as tentativas de Justin para descobrir a origem daquela questão, o paciente zero; e os seus esforços por não atacar a mãe e a irmã mais nova que entretanto regressam a casa.
O desenlace da história é rico em facilitismos e em vulgaridades. Durante todo o filme, ficamos com a impressão de que estamos realmente apenas a assistir a qualquer coisa. "The V Word" é incapaz de mexer conosco, limita-se a estar ali, no ecrã. Quando se aproxima do fim, é com uma velocidade vertiginosa que começamos a descobrir tudo, e, mesmo assim, não deixa de nos soar a precipitação exigida pelo limite de tempo. Os efeitos visuais também não são assinaláveis, os diálogos não têm absolutamente nada de inesperado e, quando o fim aparece, ficamos, literalmente, na mesma.

Como acima disse, se o argumento por si só era fraco, a realização não fica além. Parece que estamos perante uma assemblage de técnicas já utilizadas por outros realizadores, e até na mesma série. Dou um exemplo: quando Justin, já transformado em vampiro, se aproxima da mãe e da irmã, esforçando-se por não as atacar, é difícil não pensar na cena do confronto final de Julianne Moore e Anthony Hopkins em "Hannibal" de Ridley Scott. E isto é só a ponta do iceberg. Tudo o que são lugares-comuns do cinema de terror aqui está: o bosque, o nevoeiro, o sangue, a pretensão gore...
Qualquer semelhança entre a "mestria do terror" proposta pela série e este filme é pura coincidência.
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Masters of Horror: Haeckel's Tale de John McNaughtan
AMAR DEPOIS DA MORTE


Quase no final da primeira época de "Masters of Horror", encontramos esta interessante proposta, "Haeckel´s Tale" de John McNaughtan. Ainda que o argumento, de Mick Garris, tivesse originalmente sido orientado para George Romero, McNaughtan acabou por dirigir esta média.

Percebe-se por que haviam pensado em Romero, se é ele, afinal, ainda o grande mestre dos filmes de zombies, tipologia que não é, de todo, estranha a este "Haeckel's Tale".
McNaughtan será conhecido nos meandos do cinema de terror pelo seu filme de 1990, "Henry: Portrait of a Serial Killer", ainda que, eventualmente, o seu filme mais badalado nada tenha a ver com o terror; falo, claro, de "Sex, Drugs & Rock'n'Roll" (1991).
Mas há que dizer que não há em "Haeckel's Tale" nada de amadorismo nem de imaturidade.
Pelo contrário, creio ser este um dos melhores filmes da primeira época desta série.
Trata-se de uma espécie de filme de época, decorrendo no final do século XIX. Começa com a visita de Edward Ralston (Steve Bacic) a uma feiticeira conhecida por ser capaz de devolver a vida aos mortos. Ralston enviuvara recentemente, e quereria de volta a sua mulher. Antes de aceder ao seu pedido, no entanto, a feiticeira tenta dissuadi-lo, contando-lhe a história de Earnst Haekel (Derek Cecil).
Haekel, que é a figura central do filme, é um jovem estudante de medicina, obcecado com a ideia de criar vida, um pouco ao estilo de Victor Frankenstein. Esta ideia torna-se ainda mais importante para ele quando ao pai é diagnosticada uma grave doença.
Na sua busca por encontrar as possibilidades de criar vida, Haekel cruza-se com um feiticeiro, Montesquino (Jon Polito), conhecido por ser capaz de dar vida aos mortos; e com um estranho casal, Walter Wolfram (Tom McBeath) e Elise (Leela Savasta).
À medida que Haekel percebe que o casamento de Walter e Elise tem algumas fragilidades graves, vai-se apaixonando por Elise. E é quando se encontra perfeitamente dividido que descobre que a verdadeira razão do afastamento entre Walter e Elise reside no facto de ela não se encontrar capaz de se satisfazer sexualmente com nenhum homem, uma vez que está ainda fixa na vida que teve com o seu primeiro marido, entretanto falecido.
Criam-se então todas as condicionantes para que Elise tente reavivar o falecido marido, e finalmente ser feliz.

Este filme tem, evidentemente, algumas raízes bem profundas nos clássicos dos filmes de zombies, e também, claro no romance de Mary Shelley, "Frankenstein". Mas, em vez de se limitar a criar boas referências ou de a elas prestar homenagem, McNaughtan mostra-se definitivamente interessado em criar uma história que valha por si só, ou seja, auto-suficiente.
Assim sendo, aposta fortemente na cenografia, muitíssimo bem construída, com grande atenção aos detalhes, reforçados também pelo tipo de diálogos, perfeitamente capazes de nos transportar para a época em que o filme pretende acontecer. Mais ainda, o argumento de Mick Garris apresenta-se muitíssimo competente em abordar as questões essenciais para entender esta história: a morte, o luto e a necrofilia. Tanta mestria de escrita não deixa de surpreender, tendo em conta que Garris é responsável por aquele que me parece o pior filme desta série, "Chocolate", e também de um dos piores filmes que, pessoalmente, já vi.
É de um filme necrófilo que estamos a falar. A questão desse "amor dos mortos" é uma das mais fortes de toda a arte, desde sempre, e aqui temos dela um ponto de vista interessante, que está para além do amor, e parte para a obsessão, para o "dar a vida por alguém" de que tanto se fala.
Podemos entender este filme como algo de mórbido, mas também será isso a torná-lo adequado ao contexto em que surge.
E acima de tudo, levanta uma interessante questão: até que ponto será realmente benéfico trazer de volta os mortos? A resposta a esta pergunta não deixa de nos soar, aqui, satírica, terminando o filme de uma forma que, apesar de ser mais ou menos óbvia, é também a mais lógica.
Definitivamente, esta é uma proposta interessante, e também um dos filmes mais criativos de "Masters of Horror". Lamento apenas que Garris não tenha sido capaz de fazer um filme tão bom como aquele que escreveu para outro realizador.
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