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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

[Com os seus nomes há-de chegar a morte,]



Com os seus nomes há-de chegar a morte,
e neles se desprende outro sentido
para envolver agora qualquer réstia
de luz, o que nos cerca como o vento


preso a leves perfis de novo erguidos
assim como veias, lábios que procuram
apenas a surpresa da palavra
mais cedo abandonada noutra súbita


manhã que se transforme no vestígio
da voz quase desperta ao recordar
o que nos pertencia e foi mais nosso


que a suspeita, o lamento onde se apaga
o limite de tudo, um gesto ao longo
da nudez, que era a sombra de a mostrar.

Fernando Guimarães
Casa: O Seu Desenho
1985, ed. Imprensa Nacional- Casa da Moeda
desenho de Henry Moore

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Do Extermínio



24.
Tudo está a ser desenhado por um arquitecto.
Primeiro as casas, depois os homens. E só então
se define o leito de todas as mortes. Os pássaros
removem a palha por entre os tijolos, enquanto
o arquitecto olha para o espelho e revê a cidade
antiga. Como o reflexo acaba nas margens do vidro,
ele constrói para cima em direcção ao sol até que
os prédios ardam e as cinzas transformem o chão
numa cintura de veludo.

Jaime Rocha
Do Extermínio
1995, Black Sun editores
desenho de Frank Lloyd Wright

sábado, 10 de setembro de 2011

97. A Superscription



Look in my face; my name is Might-have-been;
         I am also call'd No-more, Too-late, Farewell;
         Unto thine ear I hold the dead-sea shell
Cast up thy Life's foam-fretted feet between;
Unto thine eyes the glass where that is seen
         Which had Life's form and Love's, but by my spell
         Is now a shaken shadow intolerable,
Of ultimate things unutter'd the frail screen.


Mark me, how still I am! But should there dart
         One moment through thy soul the soft surprise
         Of that wing'd Peace which lulls the breath of sighs,—
Then shalt thou see me smile, and turn apart
Thy visage to mine ambush at thy heart
         Sleepless with cold commemorative eyes.

Dante Gabriel Rossetti
'The House of Life'
Poems by D.G. Rossetti, 1870
gravura de Dante Gabriel Rossetti

sábado, 16 de abril de 2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

Cidades


Grandes cidades afogadas em fumo

e ruído exprimem

na nossa mente o seu silêncio

límpidos, edifícios

simples emanações da luz

que nos queima as retinas

fictícias Pensamos os lugares como

uma irrealidade O não visto apodera-se

da névoa que nos cega

Gastão Cruz

As Pedras Negras

1995, ed. Relógio d´Água

desenho de Paul Noble

sábado, 12 de março de 2011

Pela Mão de Alguém


Olham pela vigia. Parados nas nuvens.
Atados a uma cadeira presa ao chão.
O tempo sobre com o aroma do café,
rodopia na colher que os vai adoçando.
Turbulência, cintos apertados.
Dez horas a passarem nas vozes em surdina.
Se eu soubesse, se pudesse saber tudo o que levam
nas malas. Mas também eu vou no porão.
Hei-de rolar no tapete até que peguem em mim.
Como um livro de bolso vou espreitar a cidade
pela mão de alguém. Tenho um segredo,
digo, uma combinação. Tenho os órgãos
espalhados pela cama de um quarto de hotel.
Mãos viajantes fecham-me os pulmões.
A cidade retalhada pelo clique da máquina
será deles por uns dias. Resta-me a tumba
do armário até à próxima reencarnação.

Rosa Alice Branco
O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos
2009, ed. Quasi
desenho de Júlio Resende

Monotone


Antes de saíres para o trabalho, arrumas à pressa o dia anterior
para debaixo da cama.
Guardas o coração ainda adormecido bem dentro do teu corpo
e esqueces essa canção que já não passa na rádio
mas que vive secretamente dentro de ti.
Fechas a porta à chave com duas voltas e sais.

Os teus passos na escada fria soam ligeiros e apagam-se,
perde-se o rasto, easy listening,
guardas tudo para ti como um ex-DJ. ..
Assim partes, quase a correr.

Parada junto à passadeira, protegida num gesto ledo
fixas o olhar na sombra dos carros que passam.
Esperas pelo Sábado,
pelo Feriado e as suas pontes,
pelas Férias para ouvires as tuas canções.
Sentes-te longe, silenciosa de luz.


João Miguel Queirós
Veludo 038
1998, ed. &etc

desenho de Tony Bevan

A Matéria Simples


Os brilhos que na noite vêm
são dos olhos dos que sonham,
viagens pelos mares de outras águas.
São os que não gostam de se elevarem
no ar sobre os antigos oceanos
e amam os pequenos riachos
e o fundo invisível dos poços.

Fiama Hasse Pais Brandão
A Matéria Simples*
in Obra Breve
2007, ed. Assírio e Alvim
desenho de Henri Michaux
*conjunto dos últimos três poemas escritos pela autora

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Antes Peso da Cinza


no tempo em que os animais falavam
ficávamos ímpares de monotonia
na margem.
o barqueiro das evidências depunha-nos aos pés mais um morango cinzento
que nos dizia ainda respeito na espera e na maternidade desconhecida.
sob a sebe de damasco amarelo e dourado da orla da colina
os carteiros descreviam arcos de sub-nutrição e de paixoneta
ferindo os tímpanos da chuva com o embrião da roda da bicicleta suprema.
enquanto flatulentos flirtavam tubarões na tranquilidade.

por mais que não nos queiramos impedir
assiste-nos a dor:
a tampa do bule tem a sua circunferência,
na tampa do bule reproduz-se o lírio das tuas nádegas fumegantes.
assiste-nos anterior a ânsia.
Regina Guimarães
Abaixo da Banalidade, Abastança
1980, ed. Hélastre
desenho de Henry Moore

quarta-feira, 2 de março de 2011

China Doll


Eu ia na passadeira com um propósito mas

a gravata de um homem atirou-me para o coração
do abismo. Uma insuspeitada gravata de seda
com pintas discretas, o catalizador

da vertigem. Aquilo que o vento levantava
na avenida era uma espécie
de música, um barulho de sinos remoto

e descompassado, viam-se algumas flores
a entrar na boca do esgoto como se fosse ali
a casa delas. E sem deixar eco qualquer coisa ruía

nas fachadas, o próprio oxigénio era nesse instante
como uma língua estrangeira. Eu sentia na garganta os tambores
do sangue e os prédios enfadonhos pulsavam
na taquicardia, caíam em desamparo

para a cova do meu peito. Do outro lado da rua
um sinal de trânsito foi a minha âncora.

Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze Cidades
1997, ed. Presença
desenho de Tony Bevan

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Arte Poética


Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.

O que é então o poema?
um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?

Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.

Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.

O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!


Rosa Alice Branco
Soletrar o Dia, poesia reunida
2002, ed. Quasi
desenho de Júlio Resende

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Três Fibrilações


O espelho partiu
a moldura ficou
Agora vemo-nos
furiosamente

Meu coração e eu
vivemos juntos
mas não lado a lado
e nunca nos vemos
O sangue é um acordo vivo
que nos ata.

Agudas fibrilações
alteram a vermelha torrente
A pergunta é:
desaparecer porquê?


Ana Hatherly
Fibrilações
2005, ed. Quimera
poema visual de Ana Hatherly

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Espinha Dorsal

E.M. de Melo e Castro
Ideogramas
1962, ed. Guimarães

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Poema 7


à minha frente caminha
uma silhueta de mulher,
linha esquecida, em passo lento,
na palidez do asfalto

(compadeço-me e pergunto-lhe
as horas. respondo que é
fim de tarde. contemplo o
meu desenho terra dentro).

assim se prova que
a um corpo abandonado
nada resta além da sombra.

Renata Correia Botelho
Avulsos, Por Causa
2005, separata da revista Magma
desenho de Artur do Cruzeiro Seixas