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sábado, 4 de janeiro de 2014

Paragem

























O pássaro fendeu os ares e tombou morto.
Caiu sobre um canteiro onde floresciam lírios
E imediatamente as vísceras comunicaram a desagregação.
Então vieram as formigas.
Assaltaram-no,
Sugaram-no em milhões de partículas...
E o pássaro foi coberto de negrura movediça
Foi diminuindo de volume
Esquecido dos sóis que procurara.


Egito Gonçalves
Um Homem na Neblina
1950, ed. Germinal
desenho de  Hubert Duprilot

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O excesso da criação




















A penumbra é o movimento do poeta
atravessando a obra. Em cada poro
a sua respiração está na folha
entre a nervura do dedo pequenos sinais
despontam na visibilidade da terra

há uma seara extensa na penumbra
filamentos de rio, rosas
figuras móveis do meu corpo abrindo
todo se converte em folha
folhas, pedaços de lua, longe
mas está no movimento do poeta
multiplicar as sombras
que são o excesso da criação.

Rosa Alice Branco
Monadologia Breve
1991, ed. Limiar
desenho de Francesco Balsamo

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O que aponto



1
Conversa muda...
A falada cessou, cessara.
Começou a muda, encadeada, sem presenças, solitá-
ria, gostosa, inteligente, reminiscente, recriada.
Ai, as mãos...
O pensamento, ou aquilo que durante os silêncios
connosco fala, evocava as mãos, regalava-se de não sei
que especiosos contactos!
Os que pouco antes se tinham falado, entendidos e
afectuosos, cautelosos...
Falariam, falavam... Mas o que deles mais deli-
cado e mais secreto falava eram as mãos... ligeiras,
tocando-se invisivelmente, buscando-se.
E ainda agora elas falavam, se tornavam lembra-
das! Carnais e etéreas. Irreais e ligadas!

Pois sim.
Mas não será o meu pensamento que tudo materia-
liza, ou inventa?
Impulsos, movimentos, transposições...
Que prolonga as ínfimas sensações, tais, que um
entendimento brusco e claro anularia?
Pensamento! Que necessidades as tuas, e que pra-
zeres! Reanimares e dares extensão a um quasi nada,
aparente...


2
Subtil, como um papel, uma pena, uma folhita de
árvore, um trapo, eu seja, ou fosse!
E não o sou?
Serena, prudente, desconfiada...
Sou.
Só a minha agastada, descolorida serenidade não
tem, não pode ter, nunca terá aquela mansidão, aquele
ar leve, indiferente, descansado, aquele poisar da doce
pena...
A minha serenidade é... e cada vez mais, daqui
para o resto, para o meu sempre, uma serenidade de
decadência.


3
Belo homem, arisco, violento!
A fala seca, imodulada; o olhar claro; e uma agi-
tação, uma irregularidade, uma leonia!
Animal de presa.
Mas eu, a minha imaginação ou o meu corpo, eu,
tão fria!
Pessoa que nada ufana, nada agita, nem sequer
quebranta...
Mas isto percebendo, sofro, dá-me dor!
Espírito... trabalhas sempre, e talvez te contentes,
te iludas como um delicado.
Pobre! Mesquinho! Impotente!
Relojoeiro, que te distrais e te ocupas com o isocro-
nismo e a finura das rosas, agulhas, pinças, lentes...


4
Pela orla marítima tranquila, tranquila, os namo-
rados, passageiros, despreocupados, de mãos dadas, ou
passadas pelas cintas, pelos ombros, chegados...
Os namorados, tão jovens! renovam não sei que
mitos.
Pela areia húmida, para o sul, para o norte...
Elas, tão finas e castas!
Tantas perspectivas...

Tarde amável, mas indistinta, do acaso, tirada sem
propósitos do calendário.
Velha... É velha a terra, a areia, tudo isto. Mais
eu!
Novos, e espirituais, só os namorados.


5
Eu cantava, havia de cantar...
Mas com que voz?
Falta-me a voz, e os temas.

Eu havia de cantar briosamente (se tivesse voz), o
amor!
Nunca um amor apoetado e correntio...
O amor! O êxtase, o arrebatamento! Ou talvez só
a ternura.

Sons de música...
É a telefonia das minhas vizinhas, das meninas boni-
tas.
São realmente bonitas.
Pois assim, ao som de uma valsa lânguida, de uma
valsa velha e excitante, eu havia de cantar, glosar, as
fantasias, os sonhos de dois jovens pré-amantes.

Havia de cantar?
Não!
Chorar, chorar!
O meu desejo verdadeiro é de chorar, por querer
cantar sem poder.

Irene Lisboa
in «Presença» nº 50
desenho de Robbert Van Wynendaele

domingo, 7 de julho de 2013

Desvios




















Surdem da infância medos totais 
Nem mesmo o tempo ou o riso os sara. 
Homens que tinham jeito de pais 
entreabriram com arte rara 

O sobretudo, mostrando o sexo; 
E os ciganos vinham aos quintais. 
Mas foi no quarto grande o reflexo, 
Quando era noite, em dois frontais, 

Infindos espelhos o que me trouxe 
Pavores maiores, os do diabo: 
Fugas pela casa, gritos, não fosse 
Ir-me às orelhas ou ver-me o rabo



Luiza Neto Jorge
A Lume
1989, ed. Assírio e Alvim
desenho de Emma Kwiatkowska

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Canção para o dia igual






















maria pobre de corpo
não tem mãos

ainda agora nasceu
não tem mãos

maria pobre de corpo
não tem cabelos

viajam no vento as tranças
com selos de nostalgia

maria pobre de corpo
entorna os braços pelo dia

longo ritmo de sede
e vida maria

Luiza Neto Jorge
A Noite Vertebrada
1960, ed. autora, col. A Palavra
desenho de Daniela Gomes

quarta-feira, 20 de março de 2013

Um 'Apontamento'


Muitas vezes me pergunto a mim mesma o que é um livro.
O mesmo que as pessoas! apetecia-me responder. Ou: são tão diversos os livros como elas... Mas estabelecendo uma comparação destas eu daria grandes âmbitos à obra escrita, dar-lhe-ia foros de extraordinária variedade. E não me sinto com esse direito.
Eu penso nos livros, lembro-os, distingo-os, com a maior calma. Um livro é sempre uma mensagem entregue, por mais banal que seja o dito. E uma pessoa, qualquer que seja, é uma verdadeira incógnita... É um ser incompleto, defendido e misterioso, sempre apto a desdobrar-se, a confundir-nos.
Um livro tem uma conclusão e uma única alma, aquela que lhe deu existência numa dada época. E as pessoas são eternamente variáveis! Complicadas e irregulares. Não vamos nós tantas vezes com bondade ao seu encontro, para lhes oferecermos o que temos acumulado no coração; doçura ou virilidade? E não voltamos desiludidos? A alma alheia é uma perfeita antagonista da nossa.
Podemos fazer dela a ideia que se faz de um livro, julgá-la definida e característica... mas enganamo-nos. Um livro deixa-nos umas tantas impressões, que se guardam ou que lentamente se dissolvem. E as pessoas têm mil pequenas almas, todas elas vivas e contraditórias. Constantemente inquietas, vaidosas, reprimidas e prontas a saltar.
As pessoas são infinitamente desanimadoras e diversas. E os livros não; são simples. São uns produtos artificiais e ocasionais dos nossos estados; passaram a viver fora de nós, tornam-nos apenas lembrados.

Irene Lisboa
Apontamentos
1943, ed. da autora
desenho de Dante Gabriel Rossetti

domingo, 3 de março de 2013

Infância e Palavra



No princípio, era o Verbo _pelo menos na minha infância, toda caldeada pelo encantamento da palavra.
A palavra, lengalengada, d' a pintinha põe o ovo prà menina papar todo_ das brincadeiras com que se dava à criança a consciência do rosto e das mãos, esta barba, barbadeira, esta boca, comedeira, este nariz, narizete, estes olhos de pisquete, esta testa, de giesta, este cabelinho, que não é loiro, foge, menina, que te estoiro!, que terminavam, depois de corrido todo o rosto, com uma sapatadinha na testa. Havia também o varre, varre, vassourinha, se varreres bem, dou-te um vintém, se varreres mal, nem um real_ e, pumba!, uma palmada na mão, porque, não sei porquê, se supunha sempre que a vassourinha não varria a preceito. Muito da minha predilecção era o serrobico, bico, bico, todo feito de beliscõezinhos nas costas da mão, enquanto a lengalenga ia acabando quem te deu tamanho bico, foi a velha chocalheira, que anda lá pela ribeira a apanhar ovos de perdiz para o filho do juiz, que está preso pelo nariz_ e era o nosso que se puxava no fim.
Depois, havia a palavra mimenta, tão doce e cheia de ternura! Inspirava-se nos passarinhos e no perfume das maçãs: _Minha carricinha, inquieta! Minha maçãzinha de pardo lindo. A noite trazia a palavra musical das últimas orações:

Anjo da Guarda,
minha companhia,
guardai minha alma
de noite e de dia.

A palavra-mistério, de sons desconhecidos, que estabelecia a ligação com o divino, ouvia-se no latim da missa: Dominus Tecum! Sursum corda! E na ladainha: Turris eburnea, Stela Matutina...
Quando tínhamos de ficar na cama, por sarampo ou constipação, havia a palavra fascinante e narcisíaca dos contos de fadas_ Espelho meu, espelho meu, haverá no mundo alguém mais belo do que eu? _e que podia tornar-se maléfica: _Quem isto ouvir e o for contar, em pedra se há-de tornar! Ou a palavra viva e popular das histórias tradicionais, muito do gosto de minha mãe, cheias de mãos a abanar, sem eira nem beira, mas espertalhotes, capazes de comer as papas na cabeça dos reis e de casarem com as princesas. Ai, como me lembro delas!
A palavra dos jogos tinha duas faces: uma de perder, outra de ganhar. Ferrum-fum-fum, ferrum-funfelho, quantas abelhas há no cortelho? Aqui vai uma barquinha carregadinha de aves, de abraços, de beijos... Quando se perdia, por falta de resposta pronta, dava-se prenda e no fim recorria-se ao senhor juiz sentenciador, que sentença se há-de dar ao dono desta prenda, seja ela de quem for? Juiz que, às vezes, ordenava, romântica e comprometedoramente, que se perguntasse:
_Se o meu coração fosse um bosque, quem mandavas lá passear?
Mas menina não gosta de estar sempre quieta. Menina corropia de roda. E a palavra das cantigas era dançante e anunciava o amor:
_Machadinha, minha machadinha,
quem te pôs a mão sabendo que és minha?
Havia também a Condessa-condessinha, condessa-do-Aragão, a que não dava as filhas nem por ouro, nem por prata, nem por sangue de leão, nem por sangue de lagarta. O cavaleiro tinha de dar provas, antes de poder dizer:

_Estimo e estimarei,
sentada numa almofada,
a fiar continhas de ouro,
salta cá, minha esposada!

Na infância era fácil acreditar que Deus tinha criado o mundo pela palavra. Que a luz seja! E a luz foi. Pelo poder da palavra tinha Xerazade conseguido adiar, por mil e uma noites e depois para todo o sempre, a sentença de morte que pesava sobre ela. A palavra foi para mim uma segunda placenta, aconchegante, onde na adolescência irrompeu o deslumbramento por dois poetas: Cecília Meireles, com o seu recorte visual, e Camilo Pessanha, com a água, morrente, do tempo a esvair-se na própria água do poema. E a palavra-poética tornou-se para mim a palavra-ninho, porque é realidade e é símbolo, a mais significante, polissémica no mesmo contexto, a mais texturada de conotações, e a que não admite sinónimos, já que é insubstituível. Por ela soube que a palavra é, ao mesmo tempo, música e canto e soluço _e o milagre mais próximo do bafo e do coração humano.

Luísa Dacosta
Infânica e Palavra
2001, ed. Asa
desenho de Maria Keil

domingo, 30 de dezembro de 2012

À Force de les Voir


À force de les voir
Il y a des mots qui vous rendraient malades
Des mots connus mais très dangereux à manier
Sauf si on les entoure de musique
On met bien du sucre autour de amandes amères
Des mots comme sable, herbe
Comme soleil, comme étendus côte à côte
Comme peau dorée, comme cheveux blonds
Comme dents brillantes et lèvres salées
Et puis d'autre mots, encore plus dangereux
" Personne à l'horizon, on peut y aller "
Et les plus dangereux de tous :
" C'est encore meilleur la cinquième fois. "
Heureusement, des tripotées de vieux zingues
Fabriquent de la phénoménologie à tire-larigot
Et vous balancent des bombes atomiques par le travers de la gueule...
Je m'excuse... le souffle de l'inspiration...
C'est pas tous les jours que la muse vous visite.


Boris Vian
Cantilènes en Gelée
1949, ed. Rougerie
desenho de Henri Michaux

domingo, 23 de dezembro de 2012

Nous Deux Encore (fragmentos)


Air du feu, tu n’as pas su jouer. Tu as jeté sur ma maison une toile noire. Qu’est-ce que cet opaque partout? C’est l’opaque qui a bouché mon ciel. Qu’est-ce que ce silence partout? C’est le silence qui a fait taire mon chant. 
***
L’espoir, il m’eût suffi d’un ruisselet. Mais tu as tout pris. Le son qui vibre m’a été retiré. 
***
Tu n’as pas su jouer. Tu as attrapé les cordes. Mais tu n’as pas su jouer. Tu as tout bousillé tout de suite. Tu as cassé le violon. Tu as jeté une flamme sur la peau de soie. Pour faire un affreux marais de sang.

Henri Michaux
Nous Deux Encore
1948
desenho de João Alves

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

The Prince's Progress (fragmento)


Till all sweet gums and juices flow, 
Till the blossom of blossoms blow, 
The long hours go and come and go, 
 The bride she sleepeth, waketh, sleepeth, 
Waiting for one whose coming is slow
:— Hark! the bride weepeth. 

'How long shall I wait, come heat come rime?'
— 'Till the strong Prince comes, who must come in time' 
(Her women say), 'there's a mountain to climb, 
 A river to ford. Sleep, dream and sleep; 
Sleep' (they say): 'we've muffled the chime, 
 Better dream than weep.' 

In his world-end palace the strong Prince sat, 
Taking his ease on cushion and mat, 
Close at hand lay his staff and his hat.
'When wilt thou start? the bride waits, 
O youth.'— 'Now the moon's at full; I tarried for that, 
Now I start in truth. 

'But tell me first, true voice of my doom, 
Of my veiled bride in her maiden bloom; 
Keeps she watch through glare and through gloom, 
 Watch for me asleep and awake?'
— 'Spell-bound she watches in one white room, 
 And is patient for thy sake. 

'By her head lilies and rosebuds grow; 
The lilies droop, will the rosebuds blow? 
The silver slim lilies hang the head low; 
 Their stream is scanty, their sunshine rare: 
Let the sun blaze out, and let the stream flow, 
 They will blossom and wax fair. 

'Red and white poppies grow at her feet, 
The blood-red wait for sweet summer heat, 
Wrapped in bud-coats hairy and neat; 
 But the white buds swell, one day they will burst, 
Will open their death-cups drowsy and sweet
— Which will open the first?' 

Then a hundred sad voices lifted a wail, 
And a hundred glad voices piped on the gale: 
'Time is short, life is short,' they took up the tale: 
 'Life is sweet, love is sweet, use to-day while you may; 
Love is sweet, and to-morrow may fail; 
 Love is sweet, use to-day.'

Christina Rossetti
The Prince's Progress and Other Poems
1866, ed. McMillan
gravura de Dante Gabriel Rossetti
(feita para a 1ª edição deste livro)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Elogio de Maria Teresa


Eu que às vezes encontro sem saber porquê
um simples não sei quê em estátuas retratos antigos
de límpidas mulheres desconhecidas
eu que de súbito à primeira vista me apaixono adolescentemente
por essas mulheres mortas mas contemporâneas
de um pobre poeta português do século vinte
levadas até ele talvez por um discreto gesto
às formas e às cores impresso por um homem
que na arte encontrava a única razão de vida
abro a pasta e deparo com o teu retrato
um retrato de passe anos atrás tirado
no sítio suburbano onde primeiro vivemos
e juntos suportámos com surpresa a solidão
de sermos dois e ela só vergar os ombros onde os dias nos poisavam
Conheço outros retratos teus onde também estás viva
um deles bem me lembro estava à minha espera em saint-malo
uma tarde ao voltar do monte saint michel
nesse verão bretão onde então procurava
justificação por mínima que fosse para a vida
numa das muitas fugas de mim próprio
que às vezes empreendo embora antecipadamente certo
de que só pela morte enfim me encontrarei comigo
com todos quantos verdadeiramente amei
alguns desconhecidos e alguns mesmo inimigos
sobretudo sedentos de justiça
de que depois somente de bem morto hei-de dispor daquela paz
que sempre apeteci mas nunca procurei
até por não ter tempo para isso nem sequer para saber
coisas simples como saber quem sou porque ao certo só sei
que muito mais passei naquilo em que fiquei
nem que fossem os filhos ou os versos
que fiquei muito mais naquilo onde passei
como passos na areia no inverno ou repentinas sensações
de me sentir de súbito sensivelmente bem
encher o peito de ar sentir-me vivo
São retratos diferentes de quem foste um breve instante
e nele floriste e apenas não murchaste
por haveres ficado um pouco mais em tais fotografias
Mas há em todos eles uma graça inesperada
a surpresa da corça ou restos dessa raça
que há em ti talvez um pouco mais que nas demais mulheres
expressão sempre surpreendente da surpresa
mesmo até para quem te conhece tão bem como eu te conheço
Se nuns mais do que noutros sem excepção desponta
a madrugada que era e é esse teu riso claro
quem primeiro falou de riso claro
talvez houvesse ouvido a água quando corre sobre os seixos de
um ribeiro
talvez a houvesse visto branca e fresca
mas teve de inventar pra conquistar essa metáfora
quando eu que te ouvi rir não fiz mais do que ouvir
e sei que o som da água imita o teu sorriso
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém
e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres
além de ti além de minha mãe
Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste
a tua alegre vida irrequieta
no único infeliz dos teus negócios
por um poeta pobre velho e feio como eu
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Bons dias maria teresa até depois
preciso de tomar o meu pequeno almoço
a cerveja era boa mas é bom comer
como come qualquer homem normal
e me poupa ao perigo de até pela idade
me converter subitamente num sentimental


Ruy Belo
Transporte no Tempo
1973, ed. Moraes
desenho de Elizabeth Eleanor Siddal

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

29 de Dezembro, Matosinhos [1998]

 
Duas? Três horas da madrugada?
A chuva tinha começado, tocada a vento. Depois, torrencial, acordara-a. Da janela, podia vê-la empoçar-se, junto dos passeios. Na paragem, o painel do reclame e o seu reflexo, vertical, tornava ilusória a profundidade do charco, como se tivesse a altura de um homem, mas que a luz dos faróis e os carros cortavam facilmente. Aquela ilusão impunha-lhe a terra, fofa, do cemitério. O que restaria dela? A linha tão pura, do nariz e das sobrancelhas? Na sua campa, nem o caixão lhe seria abrigo. A água estava a torná-la uma Ofélia de lama, os cabelos, que lhe enquadravam o rosto, como se estivesse apenas adormecido e não rígido e morto, teriam, agora, o visco de cobras.
Ouço a chuva a ensopar a terra e pesa-me no coração.
 
Luísa Dacosta
Um Olhar Naufragado (Diário II)
2008, ed. Asa
desenho de Tiago Manuel


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

[Le soleil n'est peut-être là]


Le soleil n'est peut-être là
que pour protejer le théâtre d'ombre
du feuillage sur la page de terre
calligraphie frémissante de la vie
que n'a pas à se justifier
Des lettres en arabesques
que je trace obstinément
sans doute pourrait-on reconstituer
l'arbre touffu de la pensée
s'il y avait qualque luimère derrière
mais j'ecris à l'encre de Chine
sur du papier de nuit

Saguenail
Le Peu de Chose
2009, ed. Hélastre
desenho de Henri Michaux

sábado, 1 de setembro de 2012

Coisas minhas II


 
 O SEGUNDO SOL
 
And the things that are flowers are dead
I keep waterind the dead flower
There's not enough of me to make a bouquet
Stop watering the dead flower
 
Marilyn Manson, Doppelherz
Sob o brilho da manhã encontro
o abismo, memória
da infância que foge para nos atormentar
ou proteger.
 
No betão derrama-se a luz e acorda
o desejo de fuga, o drama de um exílio.
 
Há uma flor morta.
O teu perfil
tem a força da seiva, o olhar
vago traz de voltao tempo
em que o corpo se tornou vida.
 
Às vezes parece que te amo, outras
és só espelho.
Tens a mão pousada sobre a perna
como uma promessa esquecida.
Vem a laceração,
o gelo sob a pele, translúcido,
e a flor morre mais
apesar de seres água ou
um segundo sol que dá vida
mais do que a dá o primeiro.
 

Vou contra o tédio e a inércia
a imaginar o teu corpo
abraçado ao meu como se fôssemos
a mesma sombra.
 
 

[João Borges: Lisboa, 13.3.12]
 
desenho de Isabel de Sá

sábado, 25 de agosto de 2012

Lament for my Cock

 
Lament for my cock
Sore & crucified
I seek to know you
acquiring soulful wisdom
you can open walls of
mystery
strip-show


How to get death
On the morning
show


T.V. death
which the child

absorbs
 
death-well
mystery
which makes
me write

 
Slow train
The death of my cock
gives life


Guitar player
Ancient wise satyr
Sing your ode
to my cock
caress its lament
stiffen & guide
us

 
Lost cells
The knowledge of cancer
To speak to the heart
& give the great gift
words

 
power
 
trance
 
This stable friend
& the beasts of his zoo
wild, haired chicks
each color connects
to create the boat
which rocks the race

 
could any hell be more
horrible than now
& real

 
"I pressed her thigh
& death smiled"

 
death, old friend
death & my cock
are the world

 
I can forgive
my injuries
in the name of
wisdom

 
luxury
 
romance
 
Sentence upon sentence.
Words are healing.

 
Words got me the wound
& will get me well

 
If you believe it.
 
All join now in lament
for the death of my cock
a tongue of knowledge
in the feathered night

 
boys get crazy in the head
& suffer
I sacrifice my cock
on the altar
of silence


Jim Morrison
The Village Reading (gravado em fita magnética em 1970)
Últimos Escritos
1993, ed. Assírio e Alvim
desenho de Brian Kenny e Slava Mogutin

domingo, 15 de julho de 2012

[As paredes são brancas e suam de terror]


As paredes são brancas e suam de terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar

Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites

Sophia de Mello Breyner Andersen
Poemas de um Livro Destruído
in 'Fevereiro- Textos de Poesia'
1972, ed. dos coordenadores
desenho de Ana Hatherly

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Ayes del Destierro


¡Cuán triste es, Dios mío;
La vida sin ti!
Ansiosa de verte
Deseo morir. 


       Carrera muy larga
Es la de este suelo,
Morada penosa,
Muy duro destierro.
¡Oh dueño adorado,
Sácame de aquí!
Ansiosa de verte
Deseo morir.

     Lúgubre es la vida,
Amarga en estremo;
Que no vive el alma
Que está de ti lejos.
¡Oh dulce bien mío,
Que soy infeliz!
Ansiosa de verte
Deseo morir. 

       Oh muerte benigna,
Socorre mis penas!
Tus golpes son dulces,
Que el alma libertan.
iQue dicha, oh mi amado,
Estar junto a Ti!
Ansiosa de verte
Deseo morir.

         El amor mundano
Apega a esta vida;
El amor divino
Por la otra suspira.
Sin ti, Dios eterno,
¿Quien puede vivir?
Ansiosa de verte

Deseo morir.          
             La vida terrena
Es continuo duelo;
Vida verdadera
La hay sólo en el cielo.
Permite, Dios mío,
Que viva yo allí.
Ansiosa de verte

Deseo morir.
      ¿Quien es el que teme
La muerte del cuerpo,
Si con ella logra
Un placer inmenso?
¡Oh, sí, el de amarte,
Dios mío, sin fin!
Ansiosa de verte
Deseo morir.

          Mi alma afligida
Gime y desfallece.
Ay! ¿Quien de su amado
Puede estar ausente?
Acabe ya, acabe
Aqueste sufrir.
Ansiosa de verte
Deseo morir.

          El barbo cogido
En doloso anzuelo
Encuentra en la muerte
El fin del tormento.
iAy!, también yo sufro,
Bien mío, sin ti.
Y Ansiosa de verte

Deseo morir.
            En vano mi alma
Te busca, oh mi dueño!;
Tu siempre invisible
No alivias su anhelo.
iAy!, esto la inflama
Hasta prorrumpir:
Ansiosa de verte
Deseo morir.

      iAy!, cuando te dignas
Entrar en mí pecho,
Dios mío, al instante
El perderte temo.
Tal pena me aflige
Y me hace decir:
Ansiosa de verte
Deseo morir. 
        Haz, Señor, que acabe
Tan larga agonía,
Socorre a tu sierva
Que por ti suspira.
Rompe aquestos hierros
Y sea feliz.
Ansiosa de verte
Deseo morir.

         Mas no, dueño amado,
Que es justo padezca;
Que expíe mis yerros,
Mis culpas inmensas.
iAy!, logren mis lágrimas
Te dignes oír
Ansiosa de verte
Deseo morir.


Santa Teresa de Ávila
La Poesia de Santa Teresa
1975, ed. Biblioteca de Autores Cristianos

A infância! Esse musical falar. De morte.


Falas de amor.
Não conheço tal cadência,
nunca estive completa,
nunca teve forma
a forma servilíssima da forma.
E quem a nota? «Não te amo, quero-te
com o furor cego que o sangue me devora?»
Não conheço essa gota _devocional_
de um verso em rima.
Preparavas a mesa, o pão
de cego oiro _gramaticais acentos
de vertigem,
mas havia o som agudíssimo das trevas
e grave, com ternários, se medindo.
Repara!, no altar em que tocámos a súplica
pungentíssima do vinho.
Iam assim correndo, sem abrandar, Eysinga,
na musical execução do trecho,
cravos _nuances
de pianos e piedades,
cordas de desprezo: martelos de ignonímia.
Não conheço essa cova
que ao dares-me vida, honraste
a doce perdição da minha morte e só por isso,
ó meu lugar deserto de erros, míseras
generosidades _cordas, linhas,
compaixão sem paixão,
meu canto breve o corpo,
pois tê-lo enchido de desprezo nobre
foi infantil recuperá-lo enigma.

Eduarda Chiote
Branca Morte
1994, ed. &etc
desenho de Jorge Pinheiro


Algumas 'Irreflexões'


Deus é um deus cinzento
que não se manifesta

Deus é. Mas só existe
quando se manifesta em mim.

Não há comunicação.
A pessoa que morre separou-se.

É pouco a pouco
que os mortos se separam.

Não são vários. É um único
permanente.

Escrever: forma de ir resistindo.

O amor: continuação nos outros
de nós mesmos.

Eis que o corpo é o único templo
verdadeiro


Yvette K. Centeno
Irreflexões
1974, ed. Ática
desenho de Robbert van Wynendaele

terça-feira, 10 de julho de 2012

O spectabiles viri / Antiphon for Patriarchs and Prophets




Spectacular men! you see
with the spirit's eyes,
piercing the veil.
In a luminous shade you proclaim
a sharp living brightness
that buds from a branch
that blossomed alone
when the radical light took root.

Holy ones of old! you foretold
deliverance for the souls
of exiles
slumped in the dead lands.

Like wheels you
spun round in wonder as you spoke
of the mysterious mountain
at the brink of heaven
that stills many waters, sailing
over the waves.

And a shining lamp
burned in the midst of you!
Pointing,
he runs to the mountain.



Hildegard von Bingen
trad. Barbara Newman
desenho de Edward Burne-Jones