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quinta-feira, 26 de maio de 2011

The Machinist de Brad Anderson

A VELHA AMIGA INSÓNIA






Já por várias vezes aqui falei do trabalho cinematográfico de Brad Anderson. É, a meu ver, o seu filme "Session 9" (2002), o melhor filme do género de terror da primeira década de 2000. De sua autoria são ainda duas interessantes propostas distribuidas por duas séries dedicadas ao mesmo género, Masters Of Horror e Fear Itself, respectivamente "Sounds Like" (2005) e "Spooked" (2006); além de ser um dos realizadores duma das melhores e mais originais séries que têm passado na TV nas duas últimas décadas, Fringe.






É também de Brad Anderson este "The Machinist", de 2004. O tema geral, pessoalmente, não me poderia ser mais grato: a insónia. Já em 2002, um outro realizador bastante interessante, Christopher Nolan, focara o assunto em "Insomnia". Ainda que a película de Nolan não seja desinteressane, acaba por se revelar pouco criativa na abordagem do assunto que lhe dá título.


Bem pelo contrário, este filme de Brad Anderson é perfeitamente capaz de explorar os limites ou ilimites da insónia em favor da criação de um objecto inteligentemente confuso e que tem ainda a altivez de não nos oferecer, nalguns aspectos, respostas claras.


E não é apenas o argumento, escrito por Scott Kosar, que, efectivamente está escrito de maneira a dar-nos uma ideia que lentamente percebemos não ser tão linear quanto isso; mas também os aspectos que dizem respeito especificamente ao filme estão pensados para nos fazer deambular por ele, algo condenados a não atingir aquilo a que se pudesse chamar a verdade.


Encontramo-nos perante a vida estranha de Trevor Reznik (Christian Bale), um operário maquinista que não dorme há um ano. A estranheza quer dos seus hábitos e das suas relações vai-se tornando razoável aos nosso olhos quando o vemos dar continuamente sinais de inércia, astenia, lentidão e de uma debilidade quase incomodativa; mesmo a nível físico. É aqui de assinalar o empenho de Christian Bale neste papel, sendo que, para o interpretar, perdeu 28 kilos, conseguindo, efectivamente, ter o corpo de um esfomeado, de uma magreza grotesca.


Além do trabalho como maquinista, a vida de Trevor passa pela companhia de Stevie (Jennifer Jason-Leigh), uma prostituta; e de Marie (Aiatana Sánchez-Gijón), uma empregada de café com quem Trevor acaba por criar uma relação de amizade.


Depois de um acidente de trabalho provocado por Trevor, que custa a um dos seus colegas um braço; e do cruzamento com Ivan (John Sharian), um colega de trabalho que ninguém mais havia visto, Trevor começa a acreditar que está a ser vítima de uma conspiração que, percebemos, poderá vir a revelar algum segredo que ele esconda. Esta ideia é reforçada pela estranha apiração de post-hit com o jogo do enforcado, que Trevor vai preenchendo com várias possíveis palavras. E é através destes elementos que nos vamos aproximando do segredo de Trevor.


A sinopse consegue facilmente enredar-nos no estado de espírito deprimente e destrutivo de Trevor e, quer sem excessos quer sem predicabilidades, consegue, gradualmente, aproximar-nos da origem de todo o mal-estar que rodeia Trevor e que este parece espalhar à sua volta.


Nota-se que "The Machinist" está pensado ao pormenor, mesmo a nível visual (Ou principalmente a nível visual.): a fotografia parece-nos quase a preto e branco, sempre esbatida, os planos são longos quando nada de especial se passa e fugazes nos momentos decisivos, como se entrássemos na cabeça de Reznik, onde a verdade parece, de alguma forma, inacessível. E é ao filmar essa incapacidade de chegar ao real que Brad Anderson se mostra, uma vez mais, muito competente, tal como já havia acontece na maioria dos seus filmes. Isto é indicador claro de que Anderson tem mesmo um universo particular, e, como "The Machinist" confirma, muito rico.


Como acima dizia, ao contrário do que acontecia com o filme de Christopher Nolan, neste a insónia consegue mesmo ser assunto central e dominar todo o filme. Não seria fácil tornar tão clara a "visão" de uma pessoa incapaz de dormir, mas Anderson consegue-o. Será talvez por isso que "The Machinist" se torna tão angustiante e quase doloroso: há nele algo de realismo psicológico, pois é pelos olhos afectados de Reznik que atravessamos o filme; com bastante eficácia.






De louvar é também a direcção de actores, sendo que, mesmo assim, se destaca Christian Bale, que está sempre muitíssimo à vontade em papéis melancólicos (Como vemos, por exemplo, em "Velvet Goldmine" de Todd Haynes.) e volto a assinalar o lado físico do seu personagem, que, de tão esquálido, quase parece um cadáver.


Feitas as contas, este é mais um muito bom filme de Brad Anderson. Esperemos que sejam todos assim, futuramente.




domingo, 8 de maio de 2011

Fear Itself: Spooked de Brad Anderson (1x02)

FANTASMAS E GRAFITTIS



Já por várias vezes aqui falei de Brad Anderson, cujo trabalho considero de excepção, como atestam filmes como "Session 9" (2002) ou "Sounds Like" (2005), a média-metragem com que participou em "Masters of Horror", além do seu envolvimento numa série que também me parece absolutamente genial: "Fringe".




Ele é um dos realizadores que transita de "Masters of Horror" para "Fear Itself". E ainda bem. O seu filme é o segundo episódio, que tem como título "Spooked".

E este filme também contribui para que se perceba que, efectivamente, Anderson tem um estilo, quer-se dizer, um padrão que pode unir todos os seus filmes (Ou pelo menos os seus filmes ligados a este género.). Por norma, ele lida com situações traumáticas e com perturbações psíquicas, desfocando bastante o limite entre estas últimas e o sobrenatural. Em "Spooked", isso volta a acontecer, ainda que, ao contrário do que acontece em "Session 9" e em "Sounds Like", desta feita, o realizador não assine o argumento, entregue neste caso a Matt Venne.

Conta-nos a história de Harry Seigel (Eric Roberts), um polícia cujos métodos assaz cruéis levam à reforma antecipada e que, quinze anos mais tarde, ganha a vida como investigador privado, ocupação em que continua a usar alguns métodos um tanto ao quanto discutiveis do ponto de vista ético.

É neste contexto que é contactado por Meredith (Cynthia Watros), uma mulher que suspeita que o marido tem uma ou várias amantes. Harry instala-se numa casa abandonada em frente da casa de Cynthia a fim de gravar algumas imagens que ajudem Meredith no suposto divórcio.

A casa onde Harry se instala está num verdadeiro estado de decadência, cheia de grafittis e de estranhos símbolos místicos. Depois de descobrir que há alguns adolescentes a passarem lá a noite por causa de uma aposta, Harry descobre que aquela casa, suposto, terá assassinado quatro crianças há vários anos atrás, o que é corroborado por um dos grafittis que apresenta quatro figuras com facas. Como começa a ter alucinações e flashbacks do seu passado, nomeadamente no que toca ao facto de, acidentalmente, ter alvejado o irmão, quando eram ainda crianças, Harry decide desistir do caso. Meredith consegue convencê-lo a não desistir, e é assim que Harry regressa à casa que parece mesmo estar a afectar o seu discernimento relativamente ao real. Daí até que Harry descubra não só os verdadeiros efeitos da casa, mas também a verdadeira razão que o colocou ali, desenvolve-se toda a trama do filme, particularmente tensa e com uma dimensão psicológica distorcida, que vem confirmar um pouco os princípios a que Brad Anderson nos habituou, como acima já tinha dito.





Não é difícil encontrar aqui algumas semelhanças com "Session 9". Primeiro, pela própria concepção espacial, que, apesar da escala bastante menor, tem algumas semelhanças com o hospício de Denver, onde se passava o filme de 2002; e também pela própria relação entre o indivíduo e um espaço inóspito que despontará dentro dele uma série de processos desviantes que acabarão por constituir o cerne de todo o filme.

Mais ainda, a situação dos fantasmas do passado volta a ter importância, e aí, é mais fácil lembrarmo-nos de "Sounds Like", ainda que aqui tudo surja de uma maneira diferente.

O que Anderson tem de realmente bom é que, partindo de um argumento já de si interessante, tem suficiente inteligência visual para transformá-lo num filme ainda melhor. E ainda que neste filme se façam sentir negativamente os efeitos da limitação de tempo (45 minutos.), Anderson consegue contornar tudo e encontrar uma série de imagens fortes e invulgares que, definitivamente, falam por todo o filme.

O que é facto é que "Spooked" beneficiaria de mais tempo, ou seja, seria provavelmente mais equilibrado e mais pungente se fosse uma longa-metragem. Acontece com alguns dos filmes, já desde "Masters of Horror".

No entanto, não seria justo dizer que "Spooked" é alguma coisa, senão um bom fime.


sábado, 12 de março de 2011

Session 9 de Brad Anderson

FILME DE TERROR DA DÉCADA




Agora que chegamos a 2011 e que a década entre 2000 e 2010 terminou, penso que é uma boa altura para falar daquele que me parece ter sido o melhor filme de terror produzido nesse período. Refiro-me a "Session 9" de Brad Anderson.
O único filme capaz de ombrear com este será "Jeepers Creepers" de Victor Salva. Ainda que este seja, como disse, um grande filme, parece-me que, pela sua subtileza, "Session 9" consegue ser melhor.
Relativamente à história, ela é, em parte, baseada em factos verídicos. Trata-se do Asilo Psiquiátrico de Denvers, Massachussets, aberto em 1878 e fechado em 1984. Na realidade, muitos afirmam que foi neste hospital que se desenvolveram as lobotomias pré-frontais, bem como uma série de outros métodos utilizados para o tratamento de doenças mentais. No filme, acrescenta-se a história particularmente tétrica de Patricia Willard, que iniciou um escândalo cujo desenvolvimento custou ao hospital o encerramento.
O edifício propriamente dito, projecto da autoria do arquitecto Nathaniel Jeremiah Bradlee, existe efectivamente, e o filme foi rodado aí mesmo. Acrescento que o filme, feito em 2002, é uma boa oportunidade de apreciar o edifício, que em 2006 foi demolido parcialmente, encontrando-se agora em reabilitação.
Tudo isto aponta-nos já uma interessante característica deste filme. Ele é feito com meios muito parcos: uma equipa muito pequena, com poucos actores, e, maioritariamente, sem utilização de cenários feitos especificamente, utilizando-se nas mais das vezes cenários reais.
A história propriamente dita começa quando a câmara de Denvers se mostra interessada em reabilitar o asilo. Gordon Fleming (Peter Mullan) é o dono de uma pequena empresa de remoção de amiantos, que se encontra perto da falência. O seu desespero é em muito enfatizado pelo facto da sua filha bebé sofrer de meningite e precisar de tratamentos. Assim sendo, consegue o trabalho, a partir da promessa de um trabalho eficaz e executado em apenas uma semana (Incrível para um edifício de tão grandes dimensões.).
Da sua equipa fazem parte Phil (David Caruso), Hank (Josh Lucas) e Mike (Stephen Gevedon), aos quais se junta ainda Jeff (Brendan Sexton III), o sobrinho de Gordon, contratado pela necessidade de trabalho rápido.
Desde a primeira vez que entra no asilo, Gordon ouve uma estranha voz, que o cumprimenta e lhe pergunta se o consegue ouvir.
À medida que o trabalho se inicia, cada um dos elementos da equipa vai encontrando pequenas distrações: Hank descobre acidentalmente um compartimento secreto onde estão guardadas grandes quantidades de moedas de ouro e prata, bem como outros pequenos objectos de valor. Por seu turno, Mike, que deixou a meio o curso de Direito mas se mostra um intelectual, foca o seu interesse numa pequena dependência de um consultório, onde encontra uma caixa com 9 sessões gravadas em fita sonora de uma paciente chamada Mary Hobbins. Utilizando o gravador que está ainda no consultório, Mike vê-se perante um caso de esquizofrenia, em que a paciente estaria possuida por três espíritos: Billy, a Princesa e Simon. Ao longo das sessões, intervêm Billy, que diz viver nos olhos porque vê tudo; e a Princesa, que diz viver na boca, por ser ela quem fala. Simon mantém-se silencioso. O objectivo do psiquiatra parece ser que um deles conte em voz alta o que se terá passado numa noite de Natal em Lowell, algo que terá sido suficiente para que Mary fosse internada e de que a própria não tem consciência.
A tensão vai crescendo entre os personagens pois todos, de uma forma ou outra, se sentem pressionados pelas condições em que estão a trabalhar e um certo ambiente de loucura se cria, principalmente a partir do momento em que Hank desaparece sem explicações, depois de durante a noite ter invadido o asilo para recolher os valores que havia encontrado, sem que se perceba sem se foi ou não atacado ao sair.
Com todas as situações estranhas que vão acontecendo, Mike parece ganhar a convicção de que o que se passa presentemente está de alguma forma relacionado com o caso de Mary Hobbins.
Esta tensão vai crescendo, até ao ponto em que finalmente ouvimos a nona sessão, em que Simon conta o que sucedera na tal noite de Natal em Lowell.
O esquema da história é na verdade bastante simples, apostando sempre que possível numa descoberta progressiva dos factos, que nunca parece inusitada e que é bastante eficaz em enredar-nos na tensão criada entre os personagens.



Ao mesmo tempo, há que louvar a inteligência visual de Brad Anderson. Grande parte do medo gerado pelo filme prende-se com a escolha de planos arrepiantes do edifício, do seu abandono e da sua degradação. Parecemos ser continuamente levados para espaços inóspitos e glaciais, de uma solidão impressionante como se todos tivessem dali fugido de uma só vez, deixando tudo para trás. Aqui, tudo parece ser pensado ao pormenor, desde a luz ao tempo de cada plano. A criação de momentos aflitivos, como a cena em que Jeff, que sofria de uma nictofobia severa, corre por um estreito corredor enquanto as luzes se apagam rapidamente, é também significativa, capaz de nos suspender a respiração. Mais ainda, o prato-forte deste filme é o plano que vemos repetidamente da cadeira de forças ao meio de um corredor. É um excelente exemplo da sensibilidade de Brad Anderson, pois aquela cadeira evidentemente deslocada, causa em nós a dúvida de como ela terá ido ali parar, porque ali ficou, acrescido ao facto de a cadeira em si representar já uma situação aflitiva, pois seria utilizada para controlar pacientes violentos. Brad Anderson, como poucos realizadores, sabe tirar partido do espaço e, neste caso, como o espaço era real, Anderson tem uma perspectiva quase arquitectural sobre ele, sem abdicar de uma grande sensibilidade, sabendo o que cada espaço pode suscitar no espectador que a ele assiste filmado. Quando lemos no cartaz do filme a epígrafe "Fear is a place", isso não é gratuito. E, penso, uma das preocupações de Anderson neste filme foi filmar esse sítio que é o medo.
Outra coisa que tenho que louvar a "Session 9" é a total recusa de todos os recursos para agarrar o espectador: não temos cenas de sexo gratuitas e, mais impressionante ainda, não há no filme uma única cena realmente gore. Brad Anderson e Stephen Gevedon, autores do argumento, conseguiram definitivamente tornar o filme encantatório pelo que fica subentendido, pelo que não é mostrado, pelo que fica claro sem se mostrar. Esse é um difícil logro. Quase não há sangue neste filme.
A música, composta pelos Climax Golden Twins é também um elemento essencial para este filme. Ela é minimal e arrepiante, altiva mas não fria.



Por fim, tenho que evidenciar determinadas subtilezas que o argumento suscita. Em primeiro lugar, relativamente à audição da nona sessão. Se repararmos bem, nenhum dos personagens chega a ouvi-la, apenas nós chegamos a ela: ou seja, de facto, nunca nenhum dos personagens chega a entender concretamente o que se passa naquele lugar. E, quanto ao conteúdo, ele aposta também muito na ambiguidade: quem acreditar em possessão, encontrará aqui um caso particularmente cruel da mesma. Quem não acreditar, tem ainda a opção de que tudo é resultado de uma doença mental. Seja qual fôr a crença do espectador, este filme não depende dela, ou seja: ao contrário do que costuma acontecer neste tipo de filmes, se não acreditarmos em demónios e espíritos, o filme continua a fazer sentido; e nem sequer perde a capacidade de nos assustar pois, seja qual fôr a causa dos acontecimentos, o resultado é arrepiante e violento.
O final do filme é pura e simplesmente desconcertante e, uma vez mais, ambíguo. Ficamos a sentir uma espécie de angústia, que nos dá uma dimensão da solidão humana e do desespero. Mais ainda, a frase final de Simon, dita enquanto vemos o edifício em planta, é digna de ficar marcada dentro de nós, pois tem no fundo tantos e tão horríveis sentidos.
Interessa ainda referir isto: na verdade, o corte original do filme tinha mais 40 minutos, que acabaram por ser cortados. Ao que pude averiguar, existiam duas histórias secundárias neste filme: a de uma velhinha que estivera internada no asilo e que, tendo conhecido Mary Hobbins, reconhece o espírito de Simon num dos personagens e o persegue, com o intuito de o matar; e uma outra, relativa a um espírito maligno que habitaria ainda as paredes do edifício. No trailer que abaixo deixo, existe uma cena que, por descuido ou de propósito, não faz parte do corte final do filme: uma sala com ossadas dispostas em hemicírculos. A versão americana do DVD, ao contrário da portuguesa, tem como extra esses quarenta minutos e, certamente, será uma das minhas compras futuras.
Claro que um filme assim passou despercebido, até porque esteve sempre fora dos circuitos comerciais habituais. No entanto, penso que a passagem do tempo mostrará que "Session 9" é realmente um filme único e raro. Isto para quem tiver estômago para o ver mais vezes, que não parece ser o meu caso.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Masters of Horror: Sounds Like de Brad Anderson (2x04)

O DIA DOS PRODÍGIOS


Aos 37 anos, Brad Anderson realizou aquilo que me parece ser uma verdadeira obra-prima do cinema de terror. "Session 9" (2001), o filme em questão, passou despercebido nos grandes circuitos, pois tratava-se de um filme independente, um low-budget, e também um filme cuja génese estava anos-luz à frente das vulgaridades que recentemente mais se vêem no cinema de terror e que são bem aceites. Precisamente por se manter fora de todas as convenções, e estar mais preocupado em denotar uma identidade, e uma tão forte, "Session 9" era um filme absolutamente prodigioso.
Aquando da sua participação em "Masters of Horror", Brad Anderson contava apenas com cinco filmes -entre os quais uma curta-metragem- e, desses cinco, apenas dois eram de terror, "Session 9" e "The Machinist" (2004). No entanto, penso que "Session 9" justificaria perfeitamente a inclusão de Anderson nesta série.


E, agora de a década terminou, posso dizer com segurança que "Session 9" me parece verdadeiramente o melhor filme de terror entre 2000 e 2010, havendo apenas um capaz de quase ombrear com ele, "Jeepers Creepers" (2002) de Victor Salva.
Interessa muito falar de "Session 9" a propósito deste "Sounds Like", pois nalguns pontos os dois filmes se aproximam.
Tal como em "Session 9", neste filme encontramos um protagonista afogado numa vida familiar difícil, e, tal como em"Session 9", comportamentos ligados às doenças mentais como psicoses ou esquizofrenias são utilizados.
"Sounds Like" conta-nos a história de Larry Pearce (Chris Bauer), um telefonista, que sofre de uma complicada doença- ouve tudo, tudo, tudo, desde os mais pequenos movimentos do corpo, como piscar de olhos. O resultado é que o seu dia-a-dia é uma infeliz cacofonia, não conseguindo nunca descansar nem isolar-se completamente. Paralelamente, a sua relação com a mulher tornara-se difícil, pois, além do desagrado de Larry por ouvir tudo o que ela fazia, o filho que tinham havia morrido, e presentemente encontram-se em desacordo sobre se devem ou não ter outro.
Larry é, desde logo, uma personagem incomunicável. O excesso de audição faz com que frequentemente ele seja incapaz de distinguir, do que ouve, o importante do insignificante. O seu cansaço, acrescido do stress pós-traumático da perda da filha, fazem dele também um indivíduo estranho, com alguns comportamentos não distantes da catatonia.
Não se pode dizer que "Sounds Like" seja propriamente um filme de terror. Mas a tensão que nele sentimos, a angústia que resulta de também nós ouvirmos a cacofonia constante que Larry atravessa, cria em nós tamanho desconforto, que, de repente, este filme assusta-nos.
À medida que a tensão cresce, prevemos que Larry cai cada vez mais numa loucura desesperada, que poderá ou não ser uma espécie de surto psicótico. É decisivo se conhecemos ou não a natureza de algumas doenças mentais para entender "Sounds Like", pois aí mesmo se traça a divisória entre o acto de desespero resultante de um colapso e a pura maldade. Tal acontecia também com "Session 9", daí que eu diga que é importante tê-lo como contraponto para falar desta média.


A sequência final é mais uma prova da mestria de Brad Anderson, pois em nenhum outro filme senão o próprio "Session 9" vimos uma cena tão comovente, tão capaz de fundir perfeitamente beleza, paz e medo.
Sendo um dos realizadores mais jovens e mais inexperientes em "Masters of Horror", Brad Anderson não deixa de nos surpreender pela sua inteligência e sensibilidade e pela estranheza absoluta do seu mundo, da sua identidade. Lembro-me de um aforismo muito interessante de Agustina Bessa-Luís, que abre o seu romance "A Jóia de Família": "Não se escreve melhor porque se escreveu muito." Brad Anderson, em "Sounds Like", vem mais uma vez provar-nos que, no que toca à arte, algumas pessoas, independentemente da experiência que têm, são naturalmente capazes de criar coisas impressionantes.
Faz todo o sentido ver com muita atenção o cinema de Brad Anderson, mais ainda agora que nos chega "Vanishing on 7th Street" (2010); e dar particular ênfase a filmes como "Session 9" ou "Sounds Like", que, por ser uma média e um episódio de uma série de televisão, não é menos importante.