Mostrar mensagens com a etiqueta Albums. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Albums. Mostrar todas as mensagens

domingo, 8 de julho de 2007

Delta Goodrem: Mistaken Identity

IOGURTE DE PEDAÇOS





Tal como acontece com Vanessa Carlton, julgo que também o segundo álbum de Delta Goodrem não está publicado em Portugal. De qualquer maneira, "Mistaken Identity" merece que se lhe dê uma oportunidade, nem que seja por respeito a "Innocent Eyes", o álbum de estreia desta pianista australiana.
"Innocent Eyes" era o álbum de uma menina de 18 anos, um fresco e agradável devaneio pop, com traços mais elaborados, demonstrando que Goodrem e os respectivos produtores não ficariam satisfeito por uma típica construção "voz, guitarra, bateria, baixo, piano". Além disso, continha grandes canções, baladas principalmente, como "Will You Fall For Me", "In My Own Time", "My Big Mistake" ou "Not Me Not I", e momentos que só davam vontade de repetir a audição do álbum, como ouvir a letra de "Not Me Not I", ou o arranjo de "Will You Fall For Me".

Em "Mistaken Identity" isso muda. Ou não muda, e o problema é esse: o segundo álbum parece-se mais do que devia com o primeiro. Não é que sejam iguais, mas a evolução não é tão grande como seria de esperar.
Para começar algumas das canções recusam-se a fazer o que em Delta Goodrem era tão bom: recusar os traços típicos pop. Agora, Delta aceita-os e encoropora-os, o que é uma pena, em mais canções do que devia. "Out Of The Blue" é uma delas, "Almoust Here" que canta com um lamechas Brian McFadden é outra.
Depois, aposta demasiado na sua própria voz, deixando para segundo plano as suas brilhantes interpretações ao piano. Para se salvar, nessas canções em que deixa entrar os commonplaces da pop, acaba por revelar-se melhor pianista do que cantora. Isto porque certas canções, como o brilhante "The Analyst" têm excelentes partituras para piano. Resultado, ficamos com uma espécie de iogurte de pedaços: temos uma massa homogénia, mas, pelo meio, encontramos algo mais sólido e saboroso, que, neste caso, são estes momentos de piano, e ainda algumas canções como "Sanctuary".
Se há momentos a referir, eles são, logo a segunda faixa, "The Analyst", uma rara composição pop; o titletrack, de uma força surpreendente, "Electric Storm", um momento mais romântico, "Fagile", e "Sanctuary".
Enfim, aquilo que era avassalador e surpreendente em "Innocent Eyes", já não é novidade em "Mistaken Identity", ainda assim, não deixa de ser um álbum pop de aplaudir, por preservar a qualidade.


Nota Final_ 14/20

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Maria de Medeiros: A Little More Blue

ELA CANTA







Quando soube que Maria de Medeiros ia gravar um álbum, fiquei indiferente. Gostei dela em "Capitães de Abril" que relizou e protagonizou, gosteu dela em "Pulp Fiction" de Quentin Tarantino, gostei de lhe ouvir a voz na declamação de um poema de Vasco Graça Moura no "Drama Box" de Mísia. Mas a cantar, não a conhecia. Depois, soube que o álbum seria de clássicos brasileiros, e não achei piada. Também Teresa Salgueiro e Maria João o iam fazer. Três álbuns de três mulheres portuguesas a cantar canções brasileiras, fazem-me fazer uma pergunta: não temos nós, cá em Portugal, bons compositores, bons músicos??? Temos que ir resgatar os braileiros. Parece-me uma escolha natural em Maria João, salvaguardo-a, porque, conhecendo o seu percurso com e sem Mário Laginha, sempre fez umas escolhas muito ao lado, mas muito certeiras. Quanto a Teresa Salgueiro não ouvi ainda o seu álbum, mas não era bem isto que esperava dela, fora dos Madredeus. E quanto a Maria de Medeiros, parece-me uma escolha perigosa para uma estreia, mas, devo confessar, que "A Little More Blue" me seduziu.
Não sendo eu consideravelmente fã de MPB, devo dizer que o álbum de Maria está produzido com perfeccionismo, a escolha dos temas é claramente pessoal, e, por isso, pouco pretenciosa, e a sonoridade coloca-nos esses temas no campo do jazz, o que acaba por se revelar uma transmutação agradável, a juntar á voz da filha do Maestro António Victorino d´Almeida, também ela suave e agradável.



Dá particular atenção a Chico Buarque de quem intrepreta nove composições, mas encontramos ainda Caetano Veloso no tema que dá título ao álbum, e no fantástico "O Quereres", Ivan Lins com "Começar de Novo", Gilberto Gil com "O Seu Amor" e Dolores Duran com "A Noite do Meu Bem". Sendo a qualidade das faixas pouco oscilante, sempre se destacam os temas de Caetano Veloso, "Acorda Amor" e "Tanto Mar" de Chico Buarque.
Maria de Medeiros surge-nos acompanhada por três músicos, o pianista Jeff Cohen, veterano da ópera, o percussionista Joel Grare, vindo da música barroca, e o contrabaixista Emek Evcil, pertencente ao jazz e á world music.
É de louvar o facto de Maria não ter a pretensão de parecer brasileira: imita o sotaque, que felizmente não lhe sai perfeito, mas não tenta nunca cantar como se cantasse samba, abordando, como a própria admite, estas canções como actriz e não como cantora.
O resultado é excelente. Entra em nós com suavidade, mas entranha-se. Maria de Medeiros tem aqui mais um trunfo, e eu, ainda que mantenha a minha pergunta sobre os compositores portugueses, só tenho que lhe dar os parabéns, porque ela fez um disco quase perfeito.


Veredicto Final_ 18/20

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Jewel: Goodbye Alice In Wonderland

O RETORNO DA FILHA PRÓDIGA






Só eu sei o choque que tive quando ouvi "0304", o quarto álbum de originais de Jewel, lançado no final de 2003, sob a produção de Lester Mendez (Shakira, p.e.). Todos sabemos que ninguém é perfeito, e Jewel nunca foi perfeita, nunca, desde o início, em 1994, mas também nunca fez nada de realmente mau. Mas no quarto álbum, abandalhou completamente as coisas, explorava bem a sua voz, e procurava novos registos, mas esses registos não lhe acentavam bem, e eram incongruentes com os três e muito bons álbuns anteriores. O lado pop de Jewel, o lado de "Intuition", de "Stand", de "Run 2 U", não estava, simplesmente, ao nível de composições tão grandiosas como "Down So Long", como "Foolish Games", como "I Won´t Walk Away", essas sim, perfeitas.
Explicações? Só encontro uma. Jewel é versátil, o que leva diferentes produtores a levá-la a adaptar-se a eles. Mas ao passo que Ben Keith, Patrick Leonard e Dan Huff, produtores respectivamente de "Pieces Of You" (1994), "Spirit" (1998) e "This Way" (2001) a levaram sempre por diferentes caminhos, mas sempre dentro do rock, Lester Mendez decidiu ser o mecenas de um projecto de a própria Jewel Kilcher define como "uma combinação de dance, urban e folk", e o resultado é fora de linha, e nada á altura, como já disse.
Mas, enfim, três anos volvidos, Jewel retorna aos estúdios, na companhia de Rob Cavallo, que, por muito que tenha estado envolvido em projectos tão vergonhosos como os Green Day ou os My Chemical Romance, era uma pessoa possível para aquilo que Jewel tinha que fazer: retornar ao rock, simples, brilhante, e suave, por vezes acústico, mas que era o seu estilo.


O resultado chega-nos ás mãos com o premonitório título de "Goodbye Alice In Wonderland", e não se pode deixar de respirar de alívio ao ouvi-lo. Afinal, Jewel não perdeu completamente a cabeça. Consegue, com o seu quinto álbum, uma abordagem pessoal, muito intimista, onde cada canção pertence a uma fase diferente da vida da senhora Kilcher.
Não deixa de haver refrões orelhudos que são herança directa de "0304", como acontece com "Drive To You" ou com "Again and Again", mas, pelo menos, são encorporados em canções claramente Jewel, e não Jewel-não-tarda-nada-Britney. São as canções simples, bonitas, melodiosas a que nos habituou desde sempre.
"Again and Again" é o primeiro single, uma escolha óbvia, por se tratar de um dos temas mais mainstream do álbum, ainda que, não deixando de ser uma razoável canção, não tenha genica para ultrapassar a energia de "Good Day", o tenebrismo de "Last Dance Rodeo" ou o poder de "Words Get In The Way".
Talvez a melhor canção seja mesmo "Stephenville TX".
Claro que há defeitos: por vezes, Jewel abusa das vocalizações inocentes e harmoniosas, acontece por exemplo no (meloso) refrão de "Again and Again", as letras não evitam, por vezes, commonplaces dispensáveis, e alguns refrões vêm estragar as canções, ou pelo menos retirar-lhes alguma qualidade, por serem demasiado acessíveis- again, "Again and Again".
Se tentarmos situar este álbum nos anteriores, este ficaria entre "Spirit" e "This Way". Falta-lhe uma atitude mais expedita para ser "This Way", mas tem mais complexidade do que "Spirit".
Enfim, nenhuma canção aqui pode ensombrar potências como "Barcelona", "Do You", "You Were Meant For Me" ou "Till We Run Out Of Road", para não dizer outras, mas não deixamos de ter aqui um regresso de Jewel a Jewel, e por isso, "Goodbye Alice In Wonderland" já vale a pena.
Esperemos que a menina bonita do Alasca não volte a perder a cabeça.



Veredicto Final_ 16/20

domingo, 1 de julho de 2007

Vanessa Carlton: Harmonium

AVÉ VANESSA






Desconheço se o segundo álbum da pianista/ cantora Vanessa Carlton, "Harmonium" está publicado em Portugal, mas duvido, uma vez que, mesmo tendo sido lançado em 2004, só agora consegui ouvi-lo, três anos depois. Se realmente não está publicado, lamento.
É pouco claro se "Harmonium" tem o que é preciso para ultrapassar o seu predecessor, o aclamado "Be Not Nobody", mas é certo que consegue, pelo menos igualá-lo. Não se depreenda disto que os álbuns são iguais. Isso é falso. "Harmonium" ganha uma identidade própria na medida em que procura composições mais harmoniosas, arranjos mais complexos, mas também vocalizações mais inocentes. Por outro lado, ao passo que em "Be Not Nobody" encontrávamos uma grande variedade de tonalidades, em "Harmonium" encontramos, acima de tudo, unidade. É o defeito mais notório.
Sentimos a falta de momentos de solo, como acontecia com "Wanted" onde Vanessa brilhava sozinha, cantando e tocando piano; sentimos a falta de uma bateria como protagonista, como acontecia em "Prince". Ainda assim, há coisas boas para ouvir no segundo álbum:
a beleza singular de "Afterglow", a paisagem romantista de "Who´s To Say", o brilho de "Streets Have No Name", a sobriedade de "Annie" ou a suavidade de "She Floats".
Lamentavelmente, Vanessa Carlton dá o mesmo tiro no escuro que deu com "Be Not Nobody": escolhe para single o tema mais mainstream, logo, um dos piores, para ser o single de apresentação. "White Houses" repete só a fórmula do sucesso de "A Thousand Miles", limitando-se a retirar-lhe o piano acelarado. Um dos piores momentos do álbum.



Ainda assim, as canções são coerentes, como se uma gerasse a outra, e funcionam bem, sendo canções pop exemplares, preocupadas com o sentido estético, sem exageros, e sem deixar de recorrer a arranjos grandiosos. Destemida, Vanessa faz-se acompanhar de uma orquestra, aceitando o lado clássico, característico da sua formação no Conservatório.
Interessante na música de Vanessa Carlton é serem pouco claras as suas influências. Sabemos onde iseri-la, mas é difícil dizer onde pensa ela em quem. Podemos citar os nomes de Joni Mitchell, Sarah McLachlan... mas onde... quando...? É pouco óbvio.
Enfim, "Harmonium" é um álbum pop como por vezes desejaríamos que muitos fossem. Vanessa Carlton está de parabéns. Graças a musiciens como ela, ainda conseguimos acreditar que a pop se pode salvar das garras de Britney Spears ou da Rhianna...


Veredicto Final_ 16/20

Ute Lemper: Punishing Kiss

EM CARNE VIVA




Alemã de nascença, Ute Lemper iniciou a sua carreira em 1986 com "Ute Lemper Sings Kurt Weill", e o seu próximo álbum está prometido para breve. Já protagonizou peças musicais como "Chicago" ou "Cats", e a sua imagem e postura vão beber a Marlene Dietrich, Jeanne Moreau, Ingrid Craven ou Edith Piaf, mas a sua forma de cantar é, felizmente, muito sua, muito própria: carnal, visceral, irrespirável, asfixiante, extrema, forte.
A versão europeia de "Punishing Kiss", o seu décimo sétimo álbum, começa com "Little Water Song" de Nick Cave. Já aqui percebemos que estamos perante um grande álbum de uma intérprete prodigiosa. A maneira rasgada, oscilante, ora deseperada, ora calma, como canta a história de uma mulher que está a ser afogada pelo namorado é tocante, e tem o condão de nos arrastar instantaneamente para dentro do que se segue. E o que se segue não desaponta: "The Case Continues", escrito por Neil Hannon e Joby Talbot, dos Divine Comedy, mais um relato pouco óbvio, neste caso de um crime passional. Encontramos, em "Tango Ballad" de Kurt Weill, um excelente dueto com Neil Hannon, o próprio, que voltaremos a encontrar ainda em "Split", composição dos Divine Comedy. Outros compositores presentes são Tom Waits com o excelente "The Part You Throw Away", em que o acordeão, num tom cavo, se enrola com a voz, melancólica e sóbria, e em "Purple Avenue"; Philip Glass com o magnânimo "Streets Of Berlin"; e Elvis Costello, com o tema que dá título ao álbum, e ainda o fantástico "Couldn´t You Keep That To Yourself?".

Neste primeiro álbum em que interpreta autores contemporâneos, Ute Lemper não podia, afinal, ter estado mais irrepreensível: tem a capacidade de nos fazer esquecer a proveniência das canções, e se o seu nome constasse nos créditos como compositora, seria fácil acreditar. É difícil ouvir Nick Cave neste "Little Water Song", como é difícil ouvir Elvis Costello neste "Punishing Kiss".

Se há maus momentos neste álbum, eles estão muito bem camuflados, não damos por eles. Mesmo a última faixa, "Scope J", que poderia pecar por ser demasiado calma para ser a última, não soa mal, nem parece deslocada.

Percebe-se, no final, porque é tão justo que Ute Lemper seja uma diva por excelênica. Primeiro porque, não fosse ela, e a tradição do cabaret alemão era já uma memória, e segundo, porque quem faz álbuns destes, tem que ser reconhecido, senão não há justiça no universo.


Veredicto Final_ 19/20

Ana Moura: Para Além da Saudade

TRATADO DAS PAIXÕES DA ALMA





Ao terceiro álbum, Ana Moura cotinua a confirmar o que afirmava em "Guarda-me a Vida Na Mão" (2002) e "Aconteceu" (2003): que o seu nome é digno de estar entre as fadistas que realmente o são, isto numa fase em que toda a gente quer cantar fado. Não é o caso de Ana Moura. Veio para ficar, o fado está-lhe na alma, e quando assim é, vê-se.
Mas se em "Guarda-me a Vida Na Mão" o que víamos era simplesmente uma boa fadista, havia uma faixa que nos prometia uma fadista original: a versão de "Lavava no Rio Lavava" de Amália Rodrigues. Gravando a canção com a voz das mulheres lavando no rio como fundo instrumental, percebia-se que em Ana Moura havia algo de diferente.
"Aconteceu" confirmou um pouco as duas coisas, principalmente a nível das participações com que contava, mas é, agora, três anos depois do segundo registo, com este "Para Além da Saudade", que vemos a confirmação da fadista original.


Fausto Bordalo Dias escreve pela primeira vez para o reportório de outro artista, com "E Viemos Nascidos do Mar", Amélia Muge contribui com o "Fado da Procura", Patxi Andeon musica
Fernando Pessoa em "Vaga, No Azul Amplo Solta", e Tim Ties dos Rolling Stones participa compondo ou tocando, nos últimos dois temas, "Velho Anjo"(Que musicou.) e "A Sós Com A Noite" (Onde toca saxofone.). São estas participações improváveis que não vemos associadas a outros nomes. As escolhas de reportório são pouco previsíveis, mas sempre coerentes.
A produção fica, uma vez mais, a cargo de Jorge Fernando (Mariza- "Fado Em Mim") que já havia produzido os anteriores álbuns da fadista. Não indo muito além daquilo que já fez nesses álbuns, não deixa de tirar proveito dos potenciais da voz de Ana Moura e das canções escolhidas.
Entre as quinze canções que constituem "Para Além da Saudade", há que dar destaque a "A Voz Que Conta a Nossa História", da autoria de Jorge Fernando, momento de extrema simplicidade e beleza, que nos leva a viajar por uma espécie de noite de frio, de éter, de néon e de nevoeiro; "Primeira Vez", a letra de "Até ao Fim do Fim" é um ex-libris do álbum; o dueto com Patxi Andeon é obviamente um momento alto, em que o fado parece encontrar, sobre as palavras de Pessoa, terrenos baldios pertencentes ao flamenco (?) num tom melancólico e nostálgico; assim como o belíssimo "A Sós Com a Noite" onde vagueia o saxofone de Tim Ries.
Após uma única audição de "Para Além da Saudade", torna-se fácil perder todas as dúvidas em relação ás razões que levaram Ana Moura aos palcos dos EUA ou da Holanda, entre tantas outras. Um dos melhores discos de fado de 2007, senão de sempre.



Veredicto Final_ 17/20

sábado, 30 de junho de 2007

Amy Winehouse: Back To Black

NEGROS HÁBITOS





Quando começamos a ouvir "Back To Black", enquanto Amy Winehouse nos diz "They tried to make me go to rehab, I said no, no, no", percebemos que desde os tempos de "Frank", alguma coisa mudou. O que mais sobressai é a voz. A voz que se tornou mais grossa, mais rasgada, e, claro, mais forte. A matriz também mudou. Se em "Frank" encontrávamos traços de jazz com contaminações ligeiras de R&B, em "Back To Black", encontramos a música soul, raizada nos anos sessenta setenta, com a voz a deambular entre fantásticos arranjos de sopros.
Estamos, certamente, com um dos melhores álbuns de Soul dos últimos anos, ainda assim, o segundo álbum de Amy Winehouse não é irrepreensível. Algumas canções, como "He Can Only Hold Her" ou "Some Unholy War", por boas que sejam, ficam apagadas em comparação a outras, fortíssimas, como "Yolu Know I´m No Good", "Me and Mr. Jones" ou "Tears Dry On Their Own".
Abona também a favor da cantora londrina a atitude expedita que usa para escrever as suas letras. Enquanto poderia estar a escrever letras sobre o amor, ou a falta dele, Amy Winehouse conta-nos como engana o namorado com o ex, recusa-se a ir para a rehabilitação, chora e grita e sofre, etc, etc, etc, uma desgraça boa de ouvir, porque nos põe em contacto com as piores coisas que já fizémos.
Em vez de seguir uma linha fácil, de modernidade Alicia Keys ou Ciara, Winehouse vei eber influencias á soul de há muito tempo atrás, arranjos que lembram os de Nina Simone ou Aretha Franklin. Nada contra quem o faz, mas, enfrentemos as coisas, assim soa melhor. Canções como "Me and Mr Jones" no seu tom divertido e insultuoso, "Tears Dry On Their One" ainda a lembrar "In My Bed", ou o energético "Wake Up Alone" merecem, de certeza, os rios de tinta que têm corrido sobre Amy. Só é pena que a imprensa se distraia das canções refrescantemente boas, e se concentrem nos problemas com o álcool que a cantora tem.
Felizmente, vão longe os tempos de "Fuck Me Pumps" ou "Know You Now", que, mesmo sendo boas canções, não chegavam nem perto de "You Know I´m No Good" ou "Back To Black". Nota-se que Winehouse ainda não decidiu o que quer fazer, mas uma coisa é certa: fez dois álbuns em dois registos diferentes e não se saíu mal em nenhum. Veremos o que fará a seguir, mas se optar por seguir na linha de "Back To Black" não é uma má escolha.





Veredicto Final_ 18/20

Tori Amos: American Doll Posse

BONECA INTELIGENTE


Tem o brilhante nome de "American Doll Posse" o novo e décimo álbum de originais de Tori Amos, que é também, senão o melhor, o melhor de todos. Seguindo a lógica de "The Beekeeper", "American Doll Posse" está dividido, neste caso, em quatro partes, representando cada uma uma mulher que é uma das facetas de Tori Amos.
São elas: Clyde, Isabel, Santa e Pip, além da própria Tori.
Clyde, baseada em Persephone, dá voz a "Bouncing Off Clouds", "Girl Dissapearing", "Rusterspoor Brige" e "Beauty Of Speed", pertencem-lhe as letras mais idealizadas e utópicas, as que procuram a lado bom das coisas e das pessoas. Quanto ás músicas, o sentido estético e a procura da harmonia são óbvias, por exemplo em "Bouncing Off Clouds".
Isabel, baseada em Artemisa, é uma fotógrafa que alega documentar aquilo que vê, e dá voz a "Yo George", "Mr Bad Man", "Devils And Gods", "Almoust Rosey" e "The Dark Side Of The Sun; ou seja, o lado mais político (Anti-Bush.) e inetrventivo do álbum. As suas músicas são patenteadas de uma sonoridade mais agressiva, mas com um certo tom irónico. A simplicidade e crueza são também características desta artista.
Santa, a partir de Afrodite, representa o lado mais sensual, e interpreta "You Can Bring Your Dog", "Secret Spell", "Body And Soul", "Porgrammable Soda" e "Dragon"; sendo-lhe entregues as composições mais ligadas ao aspecto exterior do mundo, e á sensualidade. Assim sendo, é só coeso que as suas composições sejam as mais conseguidas e complexas em termos de ritmo, onde se procura algo de corporal, mas ao mesmo tempo de sedutor, sem ser sexual.
Pip é Atenas, uma gerreira, e é dela a voz de "Teenage Hustling", "Fat Slut", "Velvet Revolution", "Smokey Joe" e ainda acompanha Santa em "Body and Soul". As suas letras são as mais demarcadas pela ideia de luta e de resistência. As composições são as mais sorumbáticas, mas ao mesmo tempo pesadas e agressivas.
Para Tori, sobram "Big Wheel", "Digital Ghost", "Father´s Son", "Code Red" e "Posse Bonus", que parecem por vezes ser uma visão de Tori sobre si mesma, mas como se se tratasse de outra pessoa. São as letras mais ligadas ao stroytelling, e as melodias mais eclécticas, por exemplo, o ritmo de "Big Wheel" marcado pelo piano, faz uma interessante exploração dos potenciais do piano.
O álbum começa a desenhar-se-nos perfeito quando tomamos consciência de que não se trata só de música, mas também de uma coerente e fenomenal mise-en-scene em que cada personagem interfere no tempo certo, com as palavras, os ritmos e as melodias certas.
Torna-se genial quando, a tudo isto, acrescentamos composições que podem muito bem ser das melhores que esta senhora já fez para piano, os arranjos minimalistas mas certeiros, a escolha do alinhamento, coerente, e todo o imaginário do álbum, suportado pela excelente direcção de arte. Um único defeito em "American Doll Posse"- é muito longo. Ainda que algumas faixas mal ultrapassem o primeiro minuto, vinte e três faixas é uma álbum muito comprido.
Depois, musicalmente, o que há são canções simples, quase solos, como "Yo George" ou o fantástico "Devils and Gods"; canções que procuram uma estética mais profunda, como o belíssimo "Bouncing Off Clouds" ou "Secret Spell"; e registos mais rock e agressivos como o contagiante "Teenage Hustle", ou o isaltado "Body And Soul".
Como é que no décimo primeiro álbum Tori conseguirá manter a fasquia de qualidade que ela mesma colocou com "American Doll Posse", não sei. Mas acredito dela. Depois disto...



Da esquerda para a direita, Santa, Clyde, Isabel, Tori e Pip



Veredicto Final_ 20/20

domingo, 24 de junho de 2007

Katia Guerreiro: Tudo Ou Nada

CANTO DA FANTASIA




Sendo uma das mais brilhantes fadistas da corrente do chamado "novo fado" iniciada em 1990 por Mísia, Katia Guerreiro começou por "Fado Maior" e, com o timbre e a força da sua voz, acabou por chamar a atenção do público, que lhe deu toda a atenção, não só em Portugal, como no estrangeiro. A "Fado Maior" sucedeu-se "Nas Mãos Do Fado", onde interpreta António Lobo Antunes e Sophia de Mello Breyner da forma que podíamos imaginar tais escritores cantarem os seus poemas que, á partida, são os seus sentimentos.
Em "Tudo Ou Nada", Katia faz uma ponte entre o universo do fado mais contemporâneo, e o fado mais antigo, um com a utilização de letras mais eruditas, outra pela utilização de poemas mais populares. Nada contra.
O álbum inicia com "Disse-te Adeus Á Partida, O Mar Acaba A Teu Lado", com poema de António Lobo Antunes. O título diz tudo. A melancolia da letra fica perfeitamente enquadrada no fado tradicional em que foi colocada, e a voz de Katia adapta-se com toda a perfeicção a essa mesma melancolia. O tema de abertura é também, provavelmente, o de maior beleza de todos os temas. No lado oposto temos "Ser Tudo Ou Nada", que é provavelmente o pior tema de todo o disco.
De parabéns está também Dulce Pontes, autora de "Dulce Caravela", outro dos momentos de ouro do terceiro álbum de Katia Guerreiro, onde esta brilha. Bernardo Sassetti surge em "Minha Senhora das Dores", outro dos momentos cruciais. No total, eles são quatro, sendo o último "Menina do Alto da Serra" de Tonicha, surpreendentemente interessante na versão da fadista açoreana.
Ainda digno de referência são "Quando", "Canto da Fantasia" e "Talvez Não Saibas", quer pelas letras, quer pelas músicas e pelas interpretações. "Saudades do Brasil Em Portugal", de Antonio Carlos Jobim, pode parecer, á primeira vista, incongruente com o restante alinhamento, mas é uma canção tão boa que essa descontextualização acaba por se perder.
A terminar "Tenho Uma Saia Rodada" é possivelmente o tema mais alegre de todo o álbum, numa tonalidade mais folclórica.
É difícil dizer se "Tudo Ou Nada" consegue ultrapassar "Nas Mãos Do Fado", mas, sem dúvida, é uma mudança de terreno, o que, só por si, já vale a audição repetida de mais este álbum.




Juízo Final_ 17/20

sábado, 9 de junho de 2007

Arcade Fire: Neon Bible

A DECIFRAÇÃO


Serve de epígrafe ao romance “O Homem Duplicado” de José Saramago uma frase do “Livro dos Contrários” que diz que “O caos é uma ordem por decifrar”. E não, não me enganei. Este início pertence a um texto sobre o segundo LP dos canadianos Árcade Fire.
Há quatro anos atrás, os nomes de Win Butler ou de Régine Chassagne não diziam nada a ninguém, mas hoje, eles são líderes de uma das bandas mais importantes da cena musical contemporânea, não só pela indiscutível qualidade da sua música, como pelo burburinho que se gerou á volta do septeto.
O álbum “Funeral” (2004), em dez canções, conseguiu fazer correr oceanos de tinta pela imprensa da especialidade, e moveu um sem-número de fãs.


Eis que, em 2007, se dá o aguardado regresso. Chama-se “Neon Bible”. Ao ouvir, sabemos que é Árcade Fire, sabemos que é bom, que é muito bom, sabemos que a pior música de “Néon Bible” consegue ser melhor que a melhor música de muita gente, mas, ao mesmo tempo, sabemos, sem equívoco, que alguma coisa mudou, e que não foi para melhor.


Aquilo que fazia de “Funeral” indefinível, a sonoridade variada, solta, libertina, todo aquele caos, perdeu-se. É triste e cortante, mas é assim mesmo. “Néon Bible” é a decifração do caos de “Funeral”, e isso não é bom, porque, em certos momentos, por exemplo na faixa que dá nome ao álbum, ficamos com a noção de que os Árcade Fire estão perto de se tornar catalogáveis.
Como objecto individual, este segundo álbum não tem quase nada de negativo. Com a excepção de algumas canções mais previsíveis (“Néon Bible”, “The Well and the Lighthouse”.), o som é maximalista, grandioso (“Intervention”.), enérgico (“No Cars Go”.), fluido (“Windowsill”.) e, sem dúvida, agradável. É, por vezes, demasiado composto, não há muitos solos, e pouquíssimas mudanças repentinas de ritmo (Como víamos acontecer em “Crown Of Love”, por exemplo.). Win Butler cai também no erro de variar menos a tonalidade em que canta.
As comparações com o predecessor são inevitáveis, é a natureza humana: sente-se a falta do caos, da rebelião. Agora, tem-se um caos decifrado, que ainda não é ordem, mas está mais perto do que seria desejável. No entanto, não deixa (Mesmo.) de ter grandes canções, que nos rasgam alguma coisa lá dentro: como ficar indiferente a “My Body Is a Cage”, a “No Cars Go” ou a “Intervention”?

Veredicto final: 19/20

Annie Lennox: Bare

A IDADE ADULTA





Não vão assim tantos anos, Annie Lennox era metade dos Eurythmics. Depois, ela lançou-se a solo. “No More I Love You´s” foi, injustamente, o seu tema com mais projecção. Injustamente, porque outros há que mereciam tanta ou mais projecção, e não a tiveram. Mas, enfim, ninguém disse que ao que é bom todos dão atenção, e ainda bem, porque se alguém dissesse estaria a mentir.
“Bare” é a prova disso: lançado em 2003, ao longo de quatro anos, foi-lhe dada pouca importância. E em 4 anos, chegámos ao cúmulo de o Robbie Williams e os Da Weasel serem capa do Blitz, e nem uma palavra sobre Annie Lennox. Mas esqueçamos as injustiças da indústria musical, e passemos ao álbum em concreto: não se trata de um álbum feito ao acaso, longe disso. Bem pelo contrário: a evidente ausência de arestas mal limadas, e o perfeccionismo técnico de cada faixa confirma aquilo que a própria Annie escreve na contracapa do álbum, “I am not a young artist in their early twenties. I am a mature woman…” e eu acrescentaria “mature musicien”. Autora das onze canções, Lennox consegue com elas as suas melhores composições: além das letras escritas com mestria, boas não só por serem claramente intimistas, como também por estarem bem feitas, formalmente; também nas músicas Annie Lennox atinge em pleno uma característica que procurava desde “Medusa”: mesclar a sonoridade dos 80´s com métodos de produção mais actuais. E se, por um lado, os arranjos nos soam perfeitamente a 2003, os ritmos, muitas vezes, levam-nos a 83(+-). “A Thousand Beautiful Things”, “Oh God (Prayer)” ou “Loneliness” são exemplos claros da sonoridade dos anos 90 a impor-se, ao passo que outras como “Honestly”, “Wonderful” ou “Bitter Pill” vivem mais no passado. Nada contra. Bem pelo contrário.
É, enfim, um regresso em grande, que não é por ter sido ignorado que é menos bom. Um destaque também para a capa, com uma foto da autoria de Allan Martin: um grafismo perfeito. Equilíbrio!!!


Veredicto Final: 17/20

segunda-feira, 19 de março de 2007

Blind Zero- Time Machine: Memories Undone 1993-2007

MEMÓRIAS DE ELEFANTE


Ao fim dos primeiros 13 anos de carreira, de seis discos, e de muitos palcos percorridos, os Blind Zero editam "Time Machine: Memories Undone 1993-2007", uma espécie de Best Of ao vivo. O conceito de fazer uma retrospectiva ao vivo não é inédito (Olhemos para "Vivo" dos Clã ou "Fácil de Entender" dos The Gift.) mas merece, claro, o seu mérito, principalmente quando se fala de uma banda como esta, em que os concertos conseguem ultrapassar, e sem dificuldades, os álbuns de estúdio. "MTV Live In Milan" era uma (Literalmente.) pequena demonstração. "Time Machine..." é outra abordagem. Para começar, cobre os álbuns de uma forma mais abrangente, e depois, a selecção é calculada sem atender ao sucesso comercial etc, sendo uma colecção das melhores canções, ou pelo menos, com mais potencial ao vivo, sem a ideia de promover um dos álbuns que é necessária ao alinhamento de um concerto.
Algumas canções, obrigatórias, estão presentes ("The Down Set Is Tonight", "Skull".), outras surgem, ainda que não fosse previsível, mas ainda bem ("Absent Without Permission"; "Another One") e algumas... faltam... claro que isto é só uma opinião pessoal, mas faltava ali "Criminal Grace" ou "Nothing Else Goes", ou uma das minhas preferidas de sempre: "Wish Tonight". O álbum está muito bem equilibrado entre as canções mais melancólicas, as mais calmas ("Super8") e as mais agressivas ("You Owe Us Blood"), e é de notar a presença de um dos momentos mais intimista (Senão o mais intimista.) de toda a discografia da banda do Porto, "Sad Empire", numa versão que tem um interessante efeito secundário: perguntamo-nos qual das versões é a melhor: a de estúdio ou esta?
Momento de referência obrigatória é a versão de "Drive", dos The Cars, uma versão acústica que nem por isso deita por terra aquilo que será a alma dos Blind Zero. O vídeo está também muito bom.
No fim... nem todas as bandas se podem orgulhar de memórias assim. As escolhas da banda de Miguel Guedes podem nem sempre ter sido as mais óbvias, mas acabaram sempre por se revelar tão coerentes como decisivas na evolução que a banda atravessou e que, neste álbum, mais do que nunca, se torna evidente. Só essa visão periférica já faz a compilação valer a pena. Mas este disco é algo mais... um retrato de momentos dispersos que, ao serem colocados juntos, como uma manta de patchwork, conseguem, sem dificuldade fazer uma unidade. Ainda bem.
Mais detalhes, vídeos, etc, etc, etc no blog da banda, http://www.blindzero.blogs.sapo.pt/ por acaso bastante bom.


Juízo Final_ 19/20

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Arcade Fire: Funeral

FUNERAIS FELIZES



A vida é mesmo assim, há discos menos felizes e outros mais. O primeiro LP dos canadianos Arcade Fire é um bom exemplo de um disco muito feliz. E este feliz não quer dizer que o som de "Funeral" é sempre alegre, ao longo das dez canções que o constituem, mas sim que a qualidade é omnipresente. O som é rock, um rock caótico, agressivo, enérgico, sobrexaltado, esquizofrénico e acentuado. No entanto, não estamos perante um álbum simples e muito menos minimalista... todas as canções vivem de grandiosos arranjos de cordas, de pequenos pormenores criados com a harpa, o xilofone ou o upright bass. Os Arcade Fire são seis, mas fazem-se acompanhar por mais nove músicos, logo, a nenhum momento do álbum falta complexidade. Como em qualquer álbum, há canções melhores que outras, sem que nenhuma seja má. "Neighborhood #2 (Laïka)" é um excelente representante dos conceitos-base da música dos Arcade Fire, "Neighborhood #3 (Power Out)" idem aspas, "Neighborhood #1 (Tunnels)" (Bonita história de amor.) ou "Wake Up" são indispensáveis, sem dúvida.


No final do disco, o que fica é uma sensação de satisfação que dá vontade de ouvir de novo. De discos assim é feita a música alternativa. A prova disso são as críticas tão positivas a projecção que os Arcade Fire adquiriram desde o lançamento de "Funeral", além de terem dado também visibilidade a músicos que colaboram neste, o exemplo de Owen Pallett aka Final Fantasy, violinista, que publicou em Julho de 2006 o seu segundo álbum de originais, "He Poos Clouds".
O próximo álbum dos Arcade Fire tem de título provisório "Neon Bible", e está a ser gravado numa igreja. Independentemente do resultado, uma coisa os Arcade Fire já têm: uma estreia como poucas, e a oportunidade de, mantendo a fasquia, terem o nome entre os nomes dos grandes. Veremos...


Veredicto-20/20

domingo, 31 de dezembro de 2006

Maria Rita: Segundo

SEGUNDOS DE OSCILAÇÃO

De Maria Rita já se disseram maravilhas, e já se disseram palavras menos boas. A estreia da filha de Elis Regina aconteceu há três anos atrás, com um álbum homónimo muito bem sucedido. O disco não era nada mau, ainda que não fosse exactamente a maravilha que muitos proclamavam. O reportório era coerente, e cada canção era obviamente escolhida a dedo. Um problema: Maria Rita tentava levar a sua voz para lugares onde ela não pode chegar. Sim, isso era um problema, e principalmente ao vivo. Não é que a menina desafine, mas a voz é que se nota muito mais insegura, e claramente inadaptada. Em "Segundo", as coisas mudam um pouco de figura, mas só algumas coisas.



Há, numa primeira audição, a sensação de que "Segundo" intenta ser a versão corrigida e refeita de "Maria Rita". Vejamos: os músicos são os mesmos, o principal compositor continua a ser Marcelo Camelo, e a sonoridade mantém a complicada mescla de MPB com jazz. E em "Segundo", Maria Rita repete até um tiro no escuro (Que não acerta em bom sítio, por sinal.) que já tinha dado no primeiro disco: cantar em castelhano. Em "Maria Rita", "Dos Gardenias" já soava a um intervalo para descansar, e o sotaque da cantora já deitava por terra a genuinidade da canção. Em "Segundo", a diferença é que o intervalo com "Mal Intento" chega uma faixa mais cedo.

Apesar deste aspecto, há que referir que o segundo álbum de Maria Rita não é mau, e, em certos aspectos, consegue até utrapassar o seu antecessor. A questão dos terrenos que a voz desta brasileira explora é agora abordada de uma forma mais realista, contentando-se a cantora com os registos adequados ao seu timbre. A sonoridade, de um modo geral, não regista muitas diferenças, o que não é bom, a não ser a nível do ritmo, que é aqui muito mais forte.

No fim, a ideia principal de "Segundo" é a oscilação. Somadas e/ou subtraídas todas as correcções, todas as aceitações, todas as mudanças, e todos os conceitos mantidos, o resultado tanto dá em canções muito boas, o caso da abertura com "Caminho das águas", "Ciranda do Mundo" e principalmente "Muito Pouco", como resulta em momentos indefinidos ("Despedida".) ou até mesmo momentos maus, como "Sem Aviso" ou "Feliz".

Em geral, "Segundo" parece, em certos momentos, ser melhor que "Maria Rita", mas, bem vistos todos os aspectos, esta colecção de canções, colocada ao lado da primeira que incluia pérolas como "A Festa", "Santa Chuva", "Pagu" ou "Agora Só Falta Você", pode no máximo igualá-la, mas ultrapassá-la... ultrpassá-la ainda não.

Juízo final: 14/20

sábado, 30 de dezembro de 2006

Massive Attack: Collected

COLECÇÃO DE ATAQUES MASSIVOS



Tenho que falar de um disco que me ofereceram no Natal, e que, por acaso, eu já devia ter adquirido há muito tempo, ou não fosse uma colectânea do melhor de uma das minhas bandas de eleição e numa edição excelente. Falo de "Collected" dos Massive Attack, ou dos senhores Robert Del Naja (3D), Grant Marshall (Daddy G) e Andrew Vowles (Mushroom).
A edição especial contém, além do disco do best of, um outro dual side, que é um DVD com a videografia completa do trio que depois ficou duo, e um CD com inéditos, raridades e temas de OSTs.

Aparentemente, seria incoerente juntar canções do longínquo "Blue Lines" (1990) com "100th Window" (2003), mas, a verdade é que até nem soa mal. Bem pelo contrário. Traça-se uma evolução jeitosa, e temas antigos como "Safe From Harm" ou "Unfinished Sympathy" não ficam mal perante outras como "Butterfly Caught" ou "Special Cases". Pelo meio há "Protection" (1994) e "Mezannine" (1998).
O álbum cobre quase todos os vocalistas que já trabalharam com a banda: Shara Nelson (Que entretanto segue uma carreira a solo.), Horace Andy (Emblemático músico da Jamaica, tocou no Porto há pouco tempo.), Tricky (Colaborou com Björk em "Post".), Liz Fraser (Cocteau Twins.), Tracey Thorn (Anything But The Girl.), Nicolette (Nigeriana/ Escocesa, tem uma carreira a solo no acid jazz.), Terry Callier (Guitarrista de Jazz e Funk.), Sinead O´Connor (Quem não a ouviu em "Nothing Compares 2 U"?) e Mos Def (Rapper com pouca projecção em Portugal, ainda assim.), além de outras vozes que participam aqui por outras razões, o caso de Madonna em "I Want You", e de Damon Albarn (Blur, Gorillaz.) em "Small Time Shotin Em Up". Fica de fora Sara Jay, a minha preferida em "Dissolved Girl" e isso é pena.
Quanto aos vídeos, encontramos aqui Dani Levi, Michael Gondy, Wiz... mas uma colecção muito equilibrada, e cuja evolução acompanha a evolução da música.
Ainda apesar de tudo isto, "Collected" prima por mostrar as várias vertentes e contaminações da música dos Massive Attack, desde o soul de "Live With Me", "Safe From Harm" ou "Unfinished Sympathy", até ao hip hop em "Karmacoma" ou "Daydreaming" (Só presente em vídeo.), á electronica de "Butterfly Caught" ou "Inertia Creeps", ás influências orientais de "Sly" com Nicolette á voz, até sons mais melodiosos, como em "Protection" ou "Teardrop" a outros mais agressivos como em "Five Man Army" ou "Future Proof".


Shara Nelson
Horace Andy
Tricky
Tracey Thorn
Elisabeth Fraser
Sara Jay
Sinead O´Connor
Terry Callier
Damon Albarn

domingo, 24 de dezembro de 2006

Royksöpp: The Understanding

A MELANCOLIA TAMBÉM SE DANÇA
Tem muito mais de um ano a primeira edição de "The Understanding", segundo´álbum de originais do duo norueguês Royksöpp, e o que quer isso dizer? Absolutamente nada, exacto.
"Melody AM", o filho promogénito de Svein Berge e Torbjorn Brundtland, era feito com ritmos suaves mas fortes, e com melodias tristes, essencialmente. Desde então até "The Understanding", os tirmos é que se tornaram menos suaves, e a melancolia acentuou-se.
"Only This Moment" ou "Follow My Ruin" são, de facto, as provas de que a tristeza é dançável, e muito dançável. Obviamente que não é um disco perfeito para ouvir em casa, mas, num bar, num café... algures fora de casa, a história é outra.
O início engana quem ouve: o piano acústico dá o mote em "Triumphant", os sintetizadores engrandecem a coisa, mas em "Only This Moment", tudo muda de figura, o registo é agitado, electonico, faz lembrar os bares do underground de que eu tanto gosto. "49%" é o pior momento do álbum, mas é logo compensado por "Sombre Detune" e a música mantém-se oscilando entre o bom e o medíocre até fechar com "Tristesse Globale", um talvez regresso a "Triumphant". Não é um disco de que se goste á primeira. Á primeira audição, gostei apenas de "Triumphant" e "Only This Moment". Mas, á medida que se ouve, coisas como "Circuit Breaker", "Alpha Male" ou "Someone Like Me" vão ganhando consistência... 
O que correu mal? Acima de tudo, que muitas das canções resultem bem enquanto peças individuais, mas mal enquanto partes de um disco. Faltam conceitos comuns, cada canção é distante da outra. A voz também tinha uma exploração mais abrangente e variada em "Melody AM"... Em conclusão: canções muito boas, canções muito más, álbum muito disperso...


segunda-feira, 13 de novembro de 2006

The Gift: Fácil de Entender

OUTRA LOIÇA

Há cerca de uma semana que me encontro no mais pleno extase após o lançamento de "Fácil de Entender" , o primeiro registo ao vivo dos The Gift de Sónia Tavares.
É um livro- DVD- Duplo CD que tem tudo aquilo que um fã poderia desejar. Além dos temas ao vivo, uma selecção irrepreensível, duas músicas novas (645; Nice and Sweet) e duas versões (a versão de estúdio de "Fácil de Entender" e uma versão de "Índios" dos Legião Urbana)
Não posso falar dos Gift sem ser afectado por uma subjectividade óbvia. Poderia escrever milhentas palavras sobre ele, e não ia acertar. Não é possível. Posso tentar.



Acho que os Gift são acima de tudo música e músicas. Boa música e boas músicas. Os Gift são a simplicidade de "Ok! Do You Want Something Simple?" e ao mesmo tempo a complexidade de "Cube", são a festa de "Driving You Slow" e o intimismo de "Me Myself and I", são o dramatismo de "Truth" e a leveza de "Clown", são a suavidade de "The Difference Between Us" e a agressividade de "11:33".
Mas ainda mais do que as canções, este DVD permite ver aquilo que há muito tempo já se tinha percebido: por muito que os discos de estúdio sejam perfeitos, ao vivo a força consegue ser superior. Há alturas (Me Myself and I, 11:33, Cube, My Lovely Mirror) em que até parece ingrato ter um momento tão perfeito num DVD que parece retirar o ênfase á unicidade do momento. Mas por outro lado, essa perfeicção merece estar registada e ser vista vezes e vezes sem conta.


Quem não conhecia os The Gift tem neste uma oportunidade de se redimir e quem não gostava tem uma oportunidade de mudar de opinião.
Não é preciso que o álbum tenha vindo parar directamente ao segundo lugar do top, nem sequer o prémio da MTV para provar que os Gift são o que são: a melhor banda portuguesa e uma das mais sólidas também. Nisto tudo, a única coisa que não é é como é que os Gift ainda não atingiram a plenitude da internacionalização. A vida é um puta e discos bons, são outra loiça.


segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Muse: Black Holes and Revelations

OS DIAS DO FIM


Bem longe de um mundo onde a Floribella vê a vida magicamente resolvida por fadas, sapatilhas, e árvores que não só são a sua mãe como lhe fazem as vontades todas; e onde dos Morangos com Açúcar saem bandas em catadupa, mas com muito poucas qualidades, os Muse lançam um disco que prima por viver neste mundo e não num outro completamente idealizado.
Não escondo a minha longa carreira como fã dos Muse, que poderia facilmente influenciar a minha opinião sobre o quarto álbum de originais da banda britânica. Mas a verdade indiscutível é que “Black Holes and Revelations”, que não tem medo de parecer uma profecia dos últimos dias na Terra, tem qualquer coisa de especial.

São onze temas onde análises sociais/políticas e paranóias futuristas desfilam pela voz de Matthew Bellamy, acompanhadas com guitarras, baixo, bateria, piano e sintetizadores, além dos arranjos de cordas e sopros.
O melhor dos Muse é que evoluem sempre, e aqui a evolução é mais evidente do que nunca. A introdução de ritmos muito demarcados e de uma componente electrónica considerável criam uma atmosfera própria que não se conhecia nos álbuns anteriores (Ainda que em “Absolution” já existissem alguns conceitos confirmados agora, parece que “Assassin” não existiria sem que primeiro existisse “Stokholm Syndrome”.) e também há uma exploração mais alargada dos vários registos da voz de Matthew Bellamy.
Como em qualquer bom disco, não se desgosta de nenhuma, mas há aquelas de que se começa a adoecer. É o caso de “Hoodoo” com um ambiente sonhador, o dramatismo de “City Of Delusion”, “Exo Politics” em ambiente de hospital psiquiátrico, a violência explosiva de guitarras e sintetizadores em “Assassin”, “Supermassive Black Hole” com a parte electrónica vivendo a paredes-meias com um registo sussurrado da voz, e principalmente a perfeição aparentemente inatingível de “Map Of The Problematique”.
As influências são mais que evidentes, Depeche Mode, The Cure, David Bowie, Jimmy Hendrix e ainda Ruffus Wainwright (“Starlight” ou “Soldier´s Poem” não deixam espaço para dúvidas.), e ainda se encontram pontos comuns com os Placebo.
No fim, entre buracos negros e revelações, fica a certeza absoluta de que estamos perante uma GRA NDE banda, e fica a boa notícia de que os Muse visitam a nossa capital a 26 de Outubro de 2006. A má notícia é que ainda falta muito.

sábado, 19 de agosto de 2006

10 Discos Para o Verão

VIVIANE “Amores Imperfeitos” (2005)

O primeiro álbum a solo da ex-vocalista dos Entre Aspas (E dos Camaleão Azul e dos Linha da Frente.) produzido pela própria e por Tó Viegas, também ele resgatado dos tempos idos da banda de “Uma Pequena Flor”. Ao longo de 11 canções vamos encontrando autores como Hugo Costa, José Medeiros, Fernando Cabrita, Armindo Marques Araújo, Rui Freire, Nelson Cascais ou Carlos Silva, além da própria Viviane. É fácil perceber as raízes algarvias (!!!) da cantora, pela frescura, luminosidade e leveza das canções. Trunfos como Fado Mambo, Coração Despido, Alma Danada, Toada dos Aguaceiros, Amores (Im)Perfeitos (dueto com José Medeiros), mas principalmente A Vida Não Chega são indispensáveis ao calor do Sol e á proximidade do mar…
Veredicto: 16/20


VANESSA CARLTON “Be Not Nobody” (2003)

Depois de um primeiro disco muito mal sucedido, publicado aos doze anos, Vanessa Carlton fez sucesso com o seu álbum “Be Not Nobody” que dada a qualidade excessiva chegou mesmo aos Grammy Awards de 2003.
A pianista/ cantora é a autora da totalidade das canções (Com excepção feita para a cover de Paint It Black dos Rolling Stones.), canções simples e sofisticadas, essencialmente acústicas, dotadas de um ambiente etéreo ideal para ir ao som do calor. Baladas maioritariamente, claro, desde Sway a Rinse e aos incontornáveis Unsung, Prince e Paradise. A genialidade dos arranjos (Escritos em parceria com o maestro/ produtor executivo/ A&R Ron Fair.) ajuda a abrilhantar a simplicidade sóbria das canções. Excelente, mesmo que (Como eu.) não se suporte ouvir A Thousand Miles, o single de avanço.
Veredicto: 16/20



CORINNE BAILEY RAY “Corinne Bailey Ray” (2006)

“A nova Billie Holliday” e tal… pode até a voz ter semelhanças, mas musicalmente, esta cantora de Leads está a milhas do jazz de Billie Holliday. Quem ainda não ouviu “Put Your Records On” de certeza que não permanecerá nesse estado durante muito mais tempo. A cantora negra de música soul, voz suave e dona de uma inocência mais ou menos evidente estreou-se com um álbum homónimo que caiu imediatamente nas graças da crítica, e que até já começou a gerar burburinho para os Grammy de 2007. Canções simplórias e minimalistas, á base de voz, guitarra, bateria, baixo, teclas e sopros, ideal para aliviar corações em crise por uma ou outra razão.
Veredicto: 14/20



SADE “Lovers Live” (2004)

Em jeito de retrospectiva, esta cantora da Somália apresenta ao longo de um concerto os temas mais marcantes da sua carreira, que já vai longa desde a estreia com “Diamond Life”. Com uma voz dotada de um charme irresistível, e canções muito sensuais, Sade faz desfilar consigo um ambiente etéreo, sonhador e leve. “Paradise”, “Jezebel”, “No Ordinary Love”, “Cherish The Day” e “Somebody Already Broke My Heart” fazem parte do alinhamento, tal como o inevitável “Smooth Operator”. Imperdível. Mesmo.
Veredicto: 17/20



NORAH JONES “Come Away With Me” (2002)

A filha de Ravi Shankar dispensa apresentações, digo eu, principalmente depois de ter arrecadado oito Grammys em 2003, incluindo as categorias mais importantes (Álbum do Ano, Disco do Ano, Canção do Ano, Álbum Pop do Ano, Artista Revelação do Ano). O disco em questão “Come Away With Me” era o primeiro e melhor de dois álbuns que a cantora/ pianista já publicou até agora.
Canções de sonoridade acústica e intimista, quase como que gravadas ao vivo, da autoria de Jesse Harris, Lee Alexander, e da própria Norah Jones, entre outros, além de covers muito interessantes de Turn Me On (Não, não é a do Kevin Lyttle, é de JD Loudermilk) e The Nearness Of You.
Para ouvir debaixo do calor abrasador do sol ou da lua, Cold Cold Heart (cover), Feelin The Same Way, I´ve Got To See You Again, Lonestar, Come Away With Me ou o badaladíssimo Don´t Know Why.
Veredicto: 16/20



DIANA KRALL “The Look Of Love” (2001)

Também Diana Krall dispensa apresentações. Igualmente galardoada nos Grammy Awards constantemente, Diana começou a cantar há muito tempo, exactamente ao mesmo tempo que a sua música começou a ser questionada (Os fãs do Pop dizem que ela canta Jazz, os fãs do Jazz dizem que ela canta Pop, e as pessoas como eu afirmam que ela canta Jazz, ainda que com influencias de outros tipos de música.). “The Look Of Love” viria a ser o último álbum de estúdio a não conter nenhum original (O sucessor “The Girl In The Other Room” conta com canções da autoria de Diana e do marido, Elvis Costello, a par com as versões de Joni Mitchell, Mose Allison, Elvis Costello e ainda o fantástico Love Me Like a Man de Bonnie Raitt.). Aqui se cantam coisas doces como S´Wonderful, Besame Mucho, Maybe You´ll Be There e como o fantástico The Look Of Love, tudo engrandecido por uma orquestra dirigida por Claus Ogerman. Para ouvir repetidamente numa tarde de Sol, e depois, á noite, complementar com “Diana Krall Live In Paris”, onde figuram algumas destas canções, mas ao vivo na cidade da luz.
Veredicto: 17/20


MÍSIA “Drama Box” (2005)

Ao oitavo álbum, Mísia revolta-se. Assume a interpretação de Boleros e Tangos a conviver com os Fados, produzindo sozinha um perfeito álbum de World Music. Neste disco vivem pessoas com dramas, com tristezas e com psicoses, mas todas conscientes disso. Neste disco vivem poemas de Vasco Graça Moura, José Luís Peixoto, Rosa Lobato de Faria, Paulo José Miranda, José Saramago, Natália Correia e Luís Macedo, existem músicas de Armando Manzanero, Astor Piazzola e de muitos outros. Neste disco vivem ainda as vozes de Maria de Medeiros, Fanny Ardant, Ute Lemper, Cármen Maura e Miranda Richardson, as drama queens que interpretam em várias línguas um poema de Vasco Graça Moura que inicia o reportório dos fados do disco, musicado por José Fontes Rocha- Fogo Preso, Feu de Bengale, Firwerk, Fuego Preso e Fireworks, respectivamente. Para ouvir no sol-pôr, principalmente se este coincidir com “Coração Agulha” de Paulo José Miranda e Mário Pacheco.
Veredicto: 20/20


SARAH McLACHLAN “Surfacing” (1997)

Não para um dia de verão, mas para uma noite. Sarah McLachlan é um turbilhão de talento, ela toca vários instrumentos, compõe, escreve e arranja, dá concertos memoráveis ao vivo… enfim. “Surfacing”, o quarto disco de originais desta cantora canadiana foi um grande sucesso, além de ter entrado a matar pelos Grammys.
Sarah conta com uma banda á sua altura em canções muito elaboradas, sem fugirem da simplicidade rock, a par com canções minimalistas em que se acompanha a si mesma no piano, o caso de Do What You Have To Do ou do famosíssimo Angel (Momento alto do filme A Cidade dos Anjos.). Ainda importante é ouvir Building a Mystery, no seu perfeccionismo, Full Of Grace como uma narrativa e ainda o fantástico Black and White, onde Sarah faz praticamente dueto instrumental com Ashwin Sood, baterista e também o seu marido até á data.
Veredicto: 18/20


JEWEL “Spirit” (1998)

Tem oito anos o segundo álbum de Jewel, o primeiro onde a cantora/ guitarrista do Alasca se faz acompanhar por uma banda (Em vez de gravar em directo com a guitarra como na estreia “Pieces Of You”.), mas qualquer apreciador de música, não deixa de gostar dela por ter mais ou menos tempo. “Spirit” é feito quase como que a apalpar terreno, no que diz respeito a explorar instrumentos como o piano, o baixo, a guitarra eléctrica ou a bateria, tudo isto com a ajuda do produtor Patrick Leonard (Que produziu “Ray Of Light” de Madonna, o (Segundo dizem.) melhor disco da rainha da pop.). A sonoridade parece realmente remeter-nos ao mar, desde Deep Water a Barcelona, Do You ou Life Uncommon, mas principalmente Down So Long.
Sem nunca perder de vista o minimalismo que a caracteriza (Esquecendo o devaneio pop de “0304”.), Jewel apresenta uma série de canções muito positivas, adornadas de uma sensação agradável proporcionada pela voz que sopra como se fosse vento.
Veredicto: 16/20


KATE WALSH “Clocktower Park” (2004)

Kate Walsh é uma cantora/ compositora/ guitarrista inglesa de 21 anos. Só muito recentemente conseguiu o reconhecimento que tanto merece pelas terras de Sua Majestade. Ainda que no nosso paísinho não tenha feito nenhum sucesso memorável, já passou por cá várias vezes acompanhada pela sua guitarra acústica. Não sei bem para que momento do dia, mas diria que para o por do sol, fim de tarde… enfim, estas canções têm uma espécie de aura negra, escondida por uma suavidade proeminente, ou seja, Kate Walsh conseguiu por duas sonoridades opostas no mesmo disco, e ás vezes na mesma canção (Veja-se Impressionable, um dos melhores momentos do disco.). Canções simples, acústicas na sua totalidade, com guitarras aos saltos, pianos discretos, baterias fortes e arranjos minimalistas. Memoráveis Animals On Fire, Quicksand, Same Old, Holes In My Jacket e principalmente It´s Never Over.
Veredicto: 17/20

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Nelly Furtado: Loose

SHE´S ON THE LOOSE...


Foi um pouco a medo que ouvi o novo álbum de Nelly Furtado, "Loose", depois do choque inicial de ter visto (E ouvido) o videoclip de "Maneater".
Enfim, mas eu não julgo um livro pela capa, nem um álbum pelo single de avanço, por isso decidi gastar um tempinho na FNAC a ouvir a luso-canadiana e os novos amigos/colaborações.
Não posso deixar de expressar a minha surpresa acerca desta viragem no percurso da cantora/ compostiora.
Começando pelo início, Nelly Furtado foi a primeira cantora a assinar contracto c0m a DreamWorks, a discográfica de Steven Spielberg, e gravou um disco chamado "Whoa Nelly", o qual (Pessoalmente) nunca me agradou especialmente, com excepção de alguns lampejos de bom gosto, mas que deixava antever uma musicien promissora.
Depois veio a primeira surpresa: o disco "Folklore". Um disco perfeito (Sim, perfeito). Desde o primeiro segundo (Em que os Kronus Quartet iniciam "One Trick Pony") até ao último (Um brilho nostálgico em "Childhood Dreams") o disco toca uma qualidade que eu nunca arriscaria apostar que Nelly atingiria.
Apesar do parcial fracasso de vendas (Suavizado com a escolha de "Força" para Hino do Euro 2004), o disco merecia a tripla (Quintopla) platina, por canções como "Try", "Picture Perfect", "The Grass Is Green" ou o dueto com Caetano Veloso "Island Of Wonder".
Nelly Furtado, folclórica, era a Nelly Furtado como seria bom que ela tivesse continuado.
No entanto, há umas semanas atrás, estava no café com uns amigos, e a nossa atenção é chamada ao ecrã, na MTV, pela imagem da Nelly a correr atrás de um cão. Ficámos curiosos para ver o que aí vinha, e é então que começa a canção.
Não. Não podia ser. Aquela não podia ser a Nelly Furtado que cantava há não muito tempo "Powerless (Say What You Want)". Não podia. Ainda tentámos acreditar que tivéssemos confundido com a Rhianna, mas não havia margem para dúvidas. A açoreana agora deu em devoradora de homens.
Fiquei com a pulga atrás da orelha, e tive que ir ouvir "Loose" do início ao fim para formular uma opinião.
Foi o que fiz.
A ideia da femme fatalle não deve ter sido da Nelly, porque nunca antes lhe tinha visto tais ideias, deve ter sido coisa do Timbaland (Quem não o viu junto ás Pussycat Dolls... enfim), mas a verdade é que acho que a voz doce e potente de Nelly e o tom inocente acada por divergir com as letras provocadoras e os ritmos frenéticos.
Nem tudo é mau, vá lá (A participação de Juanes não correu assim tão mal e algumas baladas merecem ainda uma segunda oportunidade ("God´s Hands"), ainda que soem a um simples regresso ao passado.) mas no final, só duas músicas são realmente boas: Afraid e All The Good Things... duas é pouco.
O resultado final, devo dizer, não está nada á altura do precendente "Folklore", e se eu ontem não tivesse lido uma entrevista com a senhora no JN em que ela afirma que a seguir vai experimentar coisas novas, diria que isto foi uma fortíssima desilusão.
Vamos lá ver o que o futuro reserva...

Veredicto: 10/20