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terça-feira, 8 de maio de 2012

A Farda Rota



Nós que não caímos do céu
perguntamos ao primeiro que aparece.


Quando as lágrimas não chegam
todas juntas a fazer um mar
acabou o quê? O quê acabou.


Acabou o quê e respondemos
era noite à hora de partirmos
brilhava ela qual armadura
sorria qual elmo perdido
da cabeça perdida do guerreiro
peça única deste museu
onde a guerra e eu
começamos atrasados
porque outros chegaram primeiro.


Nós que não caímos do céu nem nos erguemos
rareia o ar à nossa volta e respondemos
era dia no campo de batalha
e noite no acampamento
lanças e panelas
bandeiras e lençóis.
e a se a lâmina for pura
a ferida não tem cura.


A carne reina morta ou viva
tanto faz.

Regina Guimarães
Tutta
1994, ed. Felício & Cabral
desenho de Alberto Péssimo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Mutilações



Escreve agora a música
que os muros trauteiam
como eu dilapidei o meu tesouro.

Desenha agora a árvore
que rebentou por dentro.
Mostra agora o coração
com uma flecha no centro.

Vivi de brilho
e cuspi ouro pela boca.
Se ninguém me quis prender
foi porque não dei caça
não dei luta
nem falei em razão de força maior
nem sequer do futuro que me escuta.

Este livro custa a abrir
e aquela porta a fechar.
Desata agora a chorar
mesmo sem querer
mesmo sem sentir.
Chora por tudo
o que não está para vir.






Regina Guimarães
in Cem Poemas Portugueses no Feminino
edições Terramar




imagem: Alberto Péssimo